

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Filosofia-Clínica –Introdução- Exames Categoriais
Márcio José Andrade da Silva
Nos
Exames Categoriais, a primeira parte da clínica, reportamo-nos aos ensinamentos
de Aristóteles (384-322. a.C.) e Kant (1724-1804). Em estudo realizado, José
Mauricio de Carvalho nos explicita a fundamentação teórica das categorias na
Filosofia e traça uma possível leitura realizada por Lucio Packter para a
aplicabilidade das Categorias na Filosofia Clínica:
“Categorias é um conceito antigo na filosofia. Na Grécia Antiga, Platão entendia
categoria como sendo as determinações da realidade e as noções usadas para
compreendê-la. Aristóteles denomina categorias os modos como o ser pode ser
concebido. (...) Com o passar do tempo, o conceito sofreu alterações importantes
e, na Idade Moderna, o filósofo alemão Emmanuel Kant alterou o modo de
referir-se à categoria. Ele não fala mais em predicado das coisas mesmas, mas no
modo pelo qual a consciência organiza o conhecimento das coisas. (...) Edmund
Husserl considera categorias como conceitos que explicitam aspectos de
diferentes regiões da realidade. Ele entende que o mundo posto na consciência
aparece sob a forma de estratos, onde cada um tem suas categorias explicadoras,
isto é, o modo como a consciência compreende aquela parte do real. (...) Lucio
Packter fala de categorias como predicados do ser, recordando o que havia dito
Aristóteles, mas fica claro pelo que ali diz que ele está próximo do conceito
elaborado por Husserl. Embora esteja falando das categorias no modo como elas
são consideradas na lógica formal, o pressuposto do criador da filosofia clínica
é que as categorias fornecem a quem ajuda o partilhante ‘uma compreensão íntima
do modo de estar no mundo das pessoas, sempre condicionado à qualidade das
interseções.’” (CARVALHO).
Desta
forma a Filosofia Clínica irá utilizar-se de cinco categorias como forma de
localizar existencialmente a pessoa: 1) Assunto Imediato e Último: o que
leva a pessoa a procurar o filósofo clínico, 2) Circunstância: somatório
de singularidades que acompanham uma situação, 3) Lugar: mensura-se como
a pessoa sente (sensações) e pensa (idéias) a propósito do ambiente que está
inserida, 4) Tempo: Qual a relação entre o tempo convencionado e o
subjetivo e 5) Relação: é o comportar-se de determinada maneira em
relação a determinada coisa. Com os exames categoriais o filósofo clínico terá a
capacidade de localizar existencialmente a pessoa nos momentos por ela
relatados. “Tudo em Filosofia Clínica, é avaliado a partir da especificidade da
pessoa. Nosso método consiste em acompanhar a historicidade daquele que nos
procura, assumindo uma postura fenomenológica, no sentido de perceber o modo de
ser da pessoa, suas questões, seu contexto, procurando intervir o mínimo
possível nessa história, mas percebendo que a mesma vai se apresentando a partir
da interseção clínico-pessoa.” (AIUB). Os exames categoriais terminam quando o
filósofo clínico sabe identificar e contextualizar, com uma grande aproximação,
as informações que a pessoa lhe fornece.
Estrutura de Pensamento
O próximo passo da clínica filosófica é quando o filósofo clínico passa a pesquisar a Estrutura de Pensamento (EP) da pessoa. Essa estrutura é o modo como a pessoa estar existencialmente. É a maneira como toda sua vivencia (religiosa, ética, social, etc.) se associam em você. Se, os exames categoriais foram realizados corretamente, este procedimento agora será de fácil desenvolvimento.
A Estrutura de Pensamento é constituída por trinta tópicos que identificam as várias relações e as várias resultantes destas relações estabelecidas entre a pessoa e os mundos exteriores e interiores. Por exemplo, no Tópico 1 (Como o mundo parece...) serão colocados tudo o que a pessoa relatou sobre o mundo em que ela vive. No Tópico 2 (O que acha de si mesmo) coloca-se tudo o que a pessoa falou a respeito do que ela acha de si mesma. O Tópico 4 (Emoções) conterá todas as emoções da pessoa: amor, perdão, ódio, carinho, tristeza. No Tópico 5 (Pré-Juízos) serão colocadas todas as verdades que pessoa possui antes de viver um acontecimento, são os juízos à priori. Esta relação se estende até completar 30 Tópicos. Estes são insuficientes para entendermos uma estrutura de uma pessoa, mas acontece que os tópicos interagem, transformando-se em tópicos com características dos que interagiram. A pessoa não irá procurar o filósofo clínico afirmando estar com um choque entre os tópicos 1, 4 e 5. Provavelmente irá procurá-lo afirmando estar sentindo um grande vazio em seu coração, uma dor de cabeça que não passa, na da faz mais sentido, etc. Cabe ao filósofo clínico identificar esses choques, conflitos, más associações entre os tópicos da pessoa.
Vale a pena lembrar que para a Filosofia Clínica não existe normal x patológico, não existe doença x normalidade. Se uma pessoa extirpou, matou, anulou um tópico como o 4 (emoções) de sua vida, não significa que ela seja anormal, doente, reprimida ou qualquer outro rótulo. Significa apenas que, diante do que esta pessoa vivenciou aconteceu isso. Talvez essa seja uma forma dela estar bem subjetivamente, sem seus sentimentos, sem amar, sem odiar. Talvez esta seja a única maneira que ela encontrou para viver após ter sofrido tudo que podia suportar. Quem sabe para julgar, censurar, dizer o que ela deve fazer? Quem viveu na pele dessa pessoa para poder afirmar que ela deve liberar suas emoções, entrar em contato com seus medos e dores para poder viver melhor? Talvez fazendo assim estejamos cometendo um crime existencial. O filósofo clínico deve procurar compreender o todo para as partes ou das partes para o todo.
A Filosofia Clínica irá busca exercitar existencialmente a pessoa, abrindo caminhos entre os emaranhados existenciais conforme os caminhos da pessoa, conforme as contingências que lhe são próprias, conforme as possibilidades que se anunciam e se constroem.
Márcio José Andrade da Silva
-INSTITUTO
PACKTER – RS
Centro de Filosofia Clínica – Campinas/SP –
CEFIB – Centro de Filosofia Brasileira – UFRJ
CEUCLAR – Centro Universitário Claretiano – Campinas/SP-