

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A estética de
Nietzsche
Mariah de Olivièri
O que é necessário aprender com os artistas: Que meios temos nós de tornar as coisas belas, atraentes e desejáveis quando não o são?... E nunca são em si, parece-me. Há aqui receitas a aprender [...] com o artista, que no fundo não cessa de se aplicar a este gênero de invenções, de quase impossíveis. Afastar-se dos objectos até fazer desaparecer um bom número dos seus pormenores e obrigar o olhar a acrescentar-lhe outros para que possa ainda vê-los; [...] tudo isso nos é necessário aprender com os artistas, e, quanto ao resto, ser mais sábios do que eles. Porque a sua força subtil se detém geralmente no ponto onde acaba a arte e começa a vida; mas nós queremos ser os poetas de nossa vida [...].
Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um dos mais importantes e contundentes pensadores de sua época, o século XIX. Sua profundidade consistia em perceber, por meio de seu instinto estético, as conseqüências longínquas, e não se encerrar, por miopia, na contemplação das coisas próximas. Sua filosofia não era oriunda do estudo de outros filósofos e sim, da singular contemplação do mundo e do método filológico que desenvolveu.
Nietzsche viveu sua existência na busca por encontrar os meios físicos e mentais para endurecer-se na masculinidade idealizada, pois seu atormentado espírito não encontrava no cotidiano, as respostas para suas questões existenciais mais profundas e, a serenidade do sábio e a calma de um íntimo equilibrado, jamais foram sua companhia.
Ao travar contato com a arte, Nietzsche descobriu o bálsamo para sua dor. A arte em sua concepção era o grande estímulo da vida, estar na arte era estar no coração do mundo, pois o indivíduo encontrava no fascínio da arte o seu verdadeiro ser. Nietzsche lutou ferozmente contra a tendência para a qual a arte seria uma “bela coisa” secundária; a arte era a provocadora de todo o engodo que é a vida, e era o engodo que lhe fazia suportar seu próprio fruto.
Sendo o sublime a estetização artística do horrível, Nietzsche julgava ser a arte absolutamente necessária para dar um novo sentido ao homem e que, somente através dela o indivíduo poderia tornar-se novamente desperto e consciente de sua realidade. A arte possuía um efeito tônico em sua existência, aumentando a força e iluminando o prazer, evocando as sutis sensações da embriaguez, num mundo longínquo e fugaz, num universo de sensações.
A arte e nada mais do que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida. A arte como única força superior, contraposta a toda vontade de negação da vida.
A arte possuía um caráter soteriológico: na mesma medida em que alterava a concepção da razão, da história, das atividades da vida, e era neste sentido destruidora, por outro lado, era salvadora, era o que tornava a vida suportável com todos os seus erros, impedindo que o niilismo fosse levado às últimas conseqüências, era o modo mais verdadeiro da vontade de potência, e só ela poderia combater a decadência.
A arte deveria esconder ou reinterpretar tudo o que era feio, aquele lado penoso, apavorante, repugnante que, a despeito de todo esforço irrompia sempre de novo, de acordo com a condição da natureza humana. A arte deveria proceder deste modo, especialmente em vista das paixões, das dores e angústias da alma e, no inevitável ou insuperávelmente feio, fazer transparecer o significativo.
Ao lembrar o indivíduo sua condição ideal, a arte excedia e transbordava uma constituição que se revelava e se extravasava no universo das imagens e dos desejos, intensificando a existência e lhe acrescendo sentido, um verdadeiro acalanto para o espírito. Nietzsche afiançava ter a arte verdadeira função orgânica de bendição e divinização da existência, sendo o grande excitante da vida, a embriaguez de viver, o desejo de viver.
Ao vislumbrar na arte a possibilidade do ato de criação, ao inventar a si mesmo como obra, Nietzsche sugere o movimento de aperfeiçoamento, da transformação e da recriação de si. Pois, adornar a existência, é evadir-se da postura contemplativa e adquirir tributos de criador; é tornar-se o artista da própria vida.
Nietzsche disse sim à existência, transmutando a dor e a angústia através da arte. Soube, como poucos, demudar sua trajetória, dando estilo ao próprio caráter, trabalhando incessantemente os diversos aspectos de sua frágil natureza, investindo em superar suas fraquezas, transmutando-as em força, posicionando-as de acordo com o plano artístico divino. Viveu a arte em toda sua intensidade e com todas as suas nuances, resgatando a sensibilidade, abrindo os olhos para enxergar o belo, mesmo na mais horripilante imagem. Nietzsche disse sim à vida, através do instigante prazer que o vislumbre de uma obra de arte pode proporcionar.
Dançou a beira do abismo.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.