Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

A estética de Nietzsche (parte II)
Mariah de Olivieri

Nietzsche e a música de Wagner

A criação artística e a contemplação da beleza fazem-nos participar nesta alegria divina.”Viver é inventar”. A arte tem a sua relação com a vontade de poder; é a afirmação da existência e o estimulante do sentimento de vida. O belo é o que aumenta a vida; junta a vontade dispersa em todo o universo. O objeto da arte é igual ao da moral e da ciência: procura tornar a vida mais intensa.

Bayer

Através da filosofia de Nietzsche somos conduzidos na pós-modernidade a vivemos seu legado, através do estímulo que suas idéias provocam, no que tange ao enaltecimento da existência e a importância da arte no cotidiano, onde a vida surge como estímulo do pensamento e o pensamento, como afirmação da vida.

Nietzsche teve a audácia de tornar pública a violenta contradição que o habitava: de um lado, o espírito mordaz, combativo, de outro, uma irresistível tendência à suavidade, a bondade, a paz, e uma grande sensibilidade para as artes.

Nietzsche conjeturava que a sublime ilusão de um pensamento puramente racional associava-se ao conhecimento como um instinto que conduziam incessantemente a seus limites, onde este se transformava em arte.

Por arte, cumpre dizer, esse atormentado filósofo alemão do século XIX, compreendia, sobretudo, a música. Nietzsche se sentia irremediavelmente arrebatado pela música; em função de sua paixão, tornou-se pianista e escreveu várias sonatas; a melodia era a sua companheira das horas solitárias, lhe trazia alegria e beleza, era seu bálsamo sagrado; pronunciava que sem música, a vida seria um erro.

Desde seu nascimento em 1844, até ser tragado irremediavelmente pela loucura, a música foi um componente fundamental em sua vida, tema de reflexões e de inquietações, sua companheira inseparável em noites insones.

Tendo em vista seu fascínio pela música, conhecer Richard Wagner foi uma conseqüência natural em sua existência; afinal, Wagner compactuava com Nietzsche o mesmo pensamento quanto ao efeito renovador e regenerador da música. Por ser um entusiasta da música do futuro, Nietzsche deslumbrou-se com a musicalidade de Wagner e, sob seu fascínio, começou a escrever seu primeiro livro, o qual abria com o drama grego e terminava com O Anel dos Nibelungs.

Em 1872 escreveu o ensaio intitulado Richard Wagner em Bayreuth. Esse ensaio era fundamentalmente uma crítica aos valores modernos, a decadência, a hipocrisia e a banalidade da vida moderna; foi sua tentativa de demonstrar à sociedade a possibilidade de regeneração por meio de uma arte nova, que trouxesse um novo sentido para o homem.

Em relação à arte, Wagner proferia que esta tinha a função de lembrar ao ser humano o verdadeiro objetivo de sua existência, que era desenvolver a força criativa que residi em cada ser. Declarava que o mais alto objetivo do ser humano era o artístico. A experiência da música deveria invocar como por magia o momento aprazado da libertação dos males da vida e, tornar-se até mesmo arauto e promessa, da grande redenção dos fins dos tempos.

Esse encantamento pela vida, essa criatividade genuína que possuía, o conduziram a olhar para o futuro com confiança. Nietzsche saudava Wagner como um Siegfried que jamais conhecera o medo e como o fundador da única arte real, a música, por ser essa a primeira a fundir todas as outras, numa grandiosa síntese estética; a presença de Wagner foi decisiva e imprescindível na existência estética de Nietzsche.

A figura de Wagner aos olhos de Nietzsche, ilustrava o combate do indivíduo aos valores modernos e a possibilidade de recriá-los a partir da criação artística. Em sua óptica, Wagner além de filósofo e artista, era um indivíduo dotado de ação e de uma descomunal vontade de realização.

A voz de Nietzsche era a voz de um adorador de Wagner, a alocução de um espírito atormentado, que encontrava no músico algo da máscula decisão e da coragem, que mais tarde fariam parte do seu conceito de super-homem.

O apogeu da obra de Wagner deu-se com a criação do teatro de Bayreuth, que foi um marco divisório na história da arte moderna. Com Bayreuth, Wagner acreditava ter reinventado uma arte para ser vista, ouvida e vivida pelos espectadores. Bayreuth foi uma revolução do lugar do espectador na obra de arte, onde representava uma transformação interior da platéia, uma nova perspectiva, um mundo novo.

Por tudo isso, Bayreuth repercutiu social e politicamente na vida do espectador. Nietzsche chamou a atenção do país para a alta significação do festival de Wagner, dizendo que Bayreuth significava para ele o sacramento da manhã no dia da batalha, a abertura para um novo mundo.

Em 1876, Bayreuth, com as óperas wagnerianas por noites e noites sucessivas – sem cortes – e com bandos de wagnerianas, imperadores, príncipes e magnatas ricos ociosos, tomando o lugar dos devotos pobres. Então, Nietzsche de súbito deu-se conta o quanto do Anel dos Nibelungs corria por conta dos efeitos teatrais e o quanto dos meios ausentes na música de Wagner havia passado para o drama.

Nietzsche relatava que havia tido visões de um drama inundado de sinfonia, uma forma emergente do Lied. Mas o internacionalismo da ópera arrastou Wagner em outra direção. Para a óptica filosófica de Nietzsche, não passou desapercebido o egoísmo ditatorial de Wagner, e isto foi deveras ofensivo para sua alma aristocrática.

Fugiu sem uma palavra à Wagner; no meio do estrondoso sucesso que o grande músico fazia, e quando toda a sociedade o ouvia em êxtase. Evadiu-se, cansado e farto de tudo que era feminismo e rapsódia romântica, mentiras idealísticas que embotavam a consciência humana através da música.de Wagner; Nietzsche detestava o dramático e o lírico, escreveu que ficaria louco se lá permanecesse, já não suportava mais a música de Wagner.

Mais tarde, em Sorrento, encontrou Wagner descansando de seu triunfo e compondo uma nova ópera, Parsifal; nela o compositor exaltava o cristianismo, a piedade, o amor etéreo de um mundo redimido por um puro louco – o louco em Cristo. Nietzsche afastou-se sem dizer uma palavra e nunca mais falou com Wagner; dizia ser impossível reconhecer grandeza em quem não tinha candura e sinceridade para consigo próprio. Dizia que do momento em que fazia uma descoberta de tal gravidade, as realizações do homem já nada valiam absolutamente para ele.

Nietzsche preferia Siegfried o rebelde a Parsifal o santo, e não perdoava a Wagner, por ver no cristianismo um valor moral e uma beleza que disfarçavam os seus defeitos teológicos; atirou-se em uma crítica feroz ao músico.

Proferia que Wagner era romântico, desesperado e decrépito, que havia “desmaiado ao pé da cruz”; questionava-se quanto a ser o único indivíduo a sofrer com Wagner, considerava-se um dos mais “corruptos” wagnerianos. Sabia ser filho daquele século assim como Wagner – e achava-se um decadente tanto quanto Wagner; porém, que tinha consciência disso e procurava defender-se a todo custo de toda a mediocridade cristã existente.

 Nietzsche era muito mais apolíneo do que supunham todos; era um amante do sutil, do delicado e do refinado e não do selvático vigor dionisíaco, nem da ternura do vinho, do canto ou mesmo do amor. Porém, não terá sido Wagner um novo Ésquilo, restaurando mitos e símbolos, unificando a música e o drama no êxtase dionisíaco?

Havia muito de Platão em Nietzsche, em seu receio de que a arte desonrasse o homem da dureza; por possuía uma certa delicadeza e fragilidade, negava isso ferrenhamente e supunha que os homens poderiam ser como ele – perigosamente perto de praticar o cristianismo.

Em 1878 rompeu publicamente com Wagner, através da publicação de Humano, demasiado humano, dando à sua filosofia uma nova direção.

Nada saciava este suave homem. No entanto, nas horas de calmaria, sabia que Wagner estava tão certo quanto ele, sabia que a suavidade de Parsifal era tão necessária quanto à força de Siegfried, e que, de algum modo cósmico, estas cruéis oposições se fundiam em uma saudável unidade criativa.

Nietzsche deleitava-se em pensar nessa amizade estelar, que ainda o atava, silenciosamente, ao homem que fora a mais valiosa e fecunda experiência da sua vida. E foi em nome dessa pretensa rota estelar que a vida de Wagner e Nietzsche permaneceram unidas.

E, apesar de todas as divergências e mudanças de rotas, Wagner e Nietzsche permaneceram inteiramente ligados entre si. Destarte, Wagner abriu em Nietzsche uma ferida que nunca se fechou; e, quando nos momentos lúcidos de sua loucura final, viu um retrato do já falecido Wagner, murmurou com suavidade: Amei-o muito.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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