
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A função da angústia em Jaspers e Kierkegaard
Mariah de Olivieri
Carl Jaspers foi um pensador encantado pelo mistério da condição humana, sua filosofia é a que mais se aproxima da metafísica. Jaspers crê piamente que todo o indivíduo possui um tesouro em si e que é capaz de se elevar acima de seu Ser. Por ter passado momentos delicados em sua vida em relação à sua saúde, Jaspers acredita que o indivíduo não toma consciência de seu Ser, senão nas situações limite. Em sua linha de raciocínio, existe um direcionamento filosófico para as situações limite. Por situações limite, Jaspers entende que são experiências obrigatórias na vida do indivíduo, situações as quais ele não escolhe tê-las, ele as vive compulsoriamente.
Como nenhum indivíduo pode se colocar no lugar de outro, nem viver por ele suas escolhas, somente o próprio indivíduo pode dar um sentido à sua existência. Isso gera no indivíduo um sentimento de solidão. Porém, é através desta solidão, da conscientização desta solidão, que o indivíduo tem condições de tornar autêntica sua existência. Desta forma, a existência procura a experiência das situações limite, que podem ser consideradas verdadeiras provas que o indivíduo passa ao longo de sua existência. Dentre as situações limite, a experiência mais radical para Jaspers, é a experiência da morte:
Toda vida está posta entre dois parênteses: nascimento e morte. E só o homem tem consciência disso. [...] Estamos todos destinados à morte. Ignorando o momento em que ela virá, procedemos como se nunca devesse chegar. Em verdade, vivendo, não acreditamos realmente na morte, embora ela constitua a maior de todas as certezas. [...] Tememos a morte. Observe-se, porém, que a morte – o cessar de ser – e o ato de morrer – cujo termo é a morte – provocam angústias muito diversas. [...] Daí decorre a idéia de que estar morto é não ser, de que a morte é o nada (JASPERS, 1993, p. 128).
Através desta citação, podemos observar a angústia se apresentando de forma irremediável; isto se traduz na agonia que o indivíduo sente ao ter consciência de per-der-se enquanto existência. Como Jaspers não crê na imortalidade da alma, a morte tem para ele uma função ética; assim é que, aceitar a morte é encarar o irrevogável, mas ao mesmo tempo, só desta maneira, o indivíduo pode se recentrar sobre o essencial de sua existência. Admitir e aceitar a morte são para Jaspers a alternativa de transcendê-la, não fazendo mais da morte uma fonte de desespero, mas sim, de uma certeza.
Ao recusar a ideia da imortalidade da alma, Jaspers afirma em nome da ética que o indivíduo viva sua vida plenamente, até o fim de seus dias. Esta ideia corrobora com a concepção de Kierkegaard em relação a uma vida ética, cujo cerne é que o indivíduo viva plenamente sua vida de maneira ética, até o fim de sua existência. Ilustrando o raciocínio de Jaspers, Huisman estabelece que:
A tarefa do homem é viver audaciosa e perigosamente, segundo as mais altas exigências que lhe aparecem em cada situação dada. Se ele tivesse certeza de sua imortalidade, isso o despojaria de sua natureza. Suportar sua ignorância o faz chegar a si mesmo e o põe no bom caminho (HUISMAN, 2001, p. 73).
Então, em função desta máxima, Jaspers enfrenta os dissabores de sua existência sem ignorá-los e, acredita que viver é escolher. Jaspers acredita que na vida o indivíduo é impelido a fazer escolhas que corroborem com sua verdade interna e, que estas se dão através de sua razão. O indivíduo deve escolher; porém, ele não tem plena consciência se esta escolha é boa ou má, se lhe trará alegrias ou dissabores; tudo depende do rumo à que estas escolhas o conduzirão em sua existência. Essa incerteza do resultado de suas escolhas provoca desconforto e estranhamento no indivíduo.
Podemos perceber em Jaspers a aproximação à Kierkegaard, pois para este, o homem possui a liberdade de escolha e, é justamente esta consciência, que lhe provoca o sentimento de angústia, a vertigem da liberdade, ou seja: a consciência de que pode e deve fazer escolhas em sua existência. A ação da escolha é o grande salto, para além de toda a certeza. De acordo com Jaspers, a existência[1] revela uma eterna luta, entre o dever e a incerteza, sendo verdadeiramente uma experiência de dilaceramento e angústia.
Observamos aqui, uma nova aproximação de Jaspers com o pensamento Kierkegaardiano, para quem o indivíduo possui uma liberdade, quase que “obrigatória”, de passar pelo processo de escolha. É através de suas escolhas, que o indivíduo se torna ele mesmo; vemos aqui, um novo ponto em comum com Kierkegaard, o qual diz respeito ao fato de que o indivíduo se constrói através de suas escolhas e, neste processo, afirma sua singularidade.
Jaspers aposta na descoberta da significação da existência individual através da própria existência. Este pensamento o aproxima de Kierkegaard, pois Jaspers admite que o indivíduo dê um profundo significado a sua existência e na maneira de vivenciá-la. Este caminho o indivíduo deve descobri-lo, pois é uma via única e singular e cada indivíduo tem a sua. Contudo, nesta relação particular do indivíduo consigo mesmo, de acordo com Jaspers, não está excluída a relação com outros indivíduos, pois a consciência de solidão e a luta solitária de cada um por sua verdade interna fazem com que se crie uma “rede” de solidariedade de um indivíduo para com os outros. Ou, em outras palavras:
O ser humano não se encontra senão com o outro ser humano, e nunca unicamente pelo saber. Não nos tornamos nós mesmos senão na medida em que o outro se torna ele mesmo, não nos tornamos livres senão na medida em que o outro também se torna livre (HUISMAN, 2001, p. 69).
Finalizamos este artigo após discorrer sobre o significado da angústia para Jaspers e Kierkegaard, autores de nossa eleição. Não pretendemos apontar, contudo, um modo “melhor” ou “pior” de lidar com a angústia existencial; apenas, a título de elucidação, transcrevemos idéias a este respeito. Aqui, cada pensador, dentro de seu tempo histórico, e de acordo com sua subjetividade, argumentou sobre essa questão existencial tão delicada e controversa.
Acreditamos na urgência da busca do indivíduo pela reconciliação com as partes negligenciadas de sua consciência, para que então ele possa renascer sob uma nova perspectiva, sustentada, apoiada e centrada em seus desígnios mais profundos, e desse modo, atingir o equilíbrio, tanto interno como externamente. Confiamos que a obtenção desse propósito envolve a aceitação e compreensão dos desafios que são freqüentemente colocados diante dos caminhos existenciais a serem percorridos por cada singularidade, onde todo indivíduo deve proporcionar a devida atenção às próprias necessidades, aprendendo a se conhecer, a se descobrir. A cada indivíduo, urge a des-co-ber-ta de si e do que envolve sua existência – seus sentimentos, pensamentos e atitudes.
Referências bibliográficas:
JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filosófico. 1965. Tradução de Leônidas Hegenberg o Octanny Silveira da Mota, 9 ed. São Paulo: Cultrix, 1993, 148p.
HUISMAN, Denis. A História do Existencialismo. 1977. Colaboração de Sabine Lê Blanc: tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru, SP: EDUSC, 2001, 128p.
[1] Neste ponto Jaspers reporta-se a Kierkegaard, afirmando dever a ele o conceito de existência. HUISMAN, 2001, p 64.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.