Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

A FUNÇÃO SOCIAL DO FILÓSOFO
Mariah de Olivieri

As relações que o homem trava no mundo com o mundo (pessoais, impessoais, corpóreas e incorpóreas), apresentam uma ordem tal de características que as distinguem totalmente dos puros contatos típicos da outra esfera animal. Há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade.

Paulo Freire

A relação entre filosofia e sociedade é um tema quase que inesgotável. Porém, devemos ter o cuidado para que a abordagem não se torne incompreensível e meramente mecânica, pois sempre existe o risco de ficarmos apenas teorizando de forma abstrata sobre essa questão.

 Dentro de uma concepção histórica da filosofia, nos colocamos a refletir sobre a correlação entre os reais objetivos da função social do filósofo e sua práxis.

Notamos uma desproporção abissal entre os valores morais e os interesses particulares a nível individual e familiar, entre as políticas nacionais e internacionais, apontando a imensa disparidade entre os limites das preocupações de cada indivíduo e a amplidão das conseqüências da conduta humana.

O problema ético está instalado comumente a toda a humanidade. Nesse sentido, surge de maneira inadiável a necessidade de uma ética solidária, que seja capaz de solucionar os problemas emergentes de nosso tempo; só um sistema ético, alicerçado em uma responsabilidade universal e solidária poderá enfrentar esse desafio.

Nesse sentido, o papel social do filósofo, tem sofrido profundas e marcantes modificações. Na antiguidade, o filósofo exercia uma função quase que obscura, seu desempenho estava alicerçado em um pensar teórico, e suas máximas eram observadas e seguidas por poucos.

No século XXI, o pensar filosófico e a filosofia, estão cada vez mais tendo o merecido destaque na sociedade; alicerçando reflexões e debates que envolvam a ciência do ethos (o agir humano e sua práxis), pois a cultura tem na razão a diretriz lógica de todo o agir.

O embate entre o agir humano e as exigências universais da razão obtém êxito com o auxílio do filósofo. Com o enorme desenvolvimento das ciências e da técnica, desponta a questão da responsabilidade da razão, tornando imperativo a reflexão voltada para atitudes éticas.

A razão é a diretriz de todos os discursos. A sociedade moderna exige teorias para tudo e todos. A razão se tornou essencialmente teórica. Precisamos sair da teoria, dinamizar o processo.

Por esse motivo, o indivíduo preocupado com a sociedade, se depara com o desafio de enfrentar o dever de assumir, em escala mundial, a responsabilidade por seus atos (devastação do meio ambiente, manipulação genética, etc).

Pensar e agir.  Agir e pensar. Esse repto é de suma importância, em um contexto onde a preocupação com o pensar faz toda a diferença; devemos desde já estabelecer que certos critérios morais devem nortear esse processo, pois é a partir do pensamento retilíneo, cônscio, que estaremos aptos a formar uma consciência crítica, capaz de retos pareceres.

Na fantástica arte do reto agir, o indivíduo deve voltar sua atenção para cumprir sua missão da forma mais lúcida possível. Para tal, só o saber intelectual não basta, é preciso adquirir um tanto de coragem para buscar condições e métodos cada vez melhores, que forneçam aos indivíduos, discursos conscientes e não evasivos, que possibilitem ao interlocutor desenvolver o saber, junto com o caráter e a consciência.

Nesse sentido, apontamos alguns vieses:

O indivíduo foi criado para se comunicar com seus semelhantes. O ser humano é o único animal imbuído do dom da palavra. Porém, palavras podem ser meramente palavras.

 O filósofo deve promover a reflexão e o diálogo. Um bom filósofo possui orientação calcada na autenticidade, isso é primordial; mas, sobretudo, deve ter algo de abertura ao novo, ao colóquio e ao raciocínio de seu semelhante, para que possa haver um diálogo e que o outro não se choque ou se desestabilize com seus pareceres.

O filósofo é aquele que tem privilégio de falar do eterno a partir do mesmo. Mas qual é a função social do filósofo a partir da origem da filosofia, que se iniciou com Platão?

Urge que o filósofo fomente uma nova forma de interação, que possibilite aos indivíduos a troca de experiências e o desenvolvimento de novas relações, calcadas em falas autênticas e em uma consciência crítica direcionada para a verdade, que possibilite ao interlocutor, a transformação de sua consciência.

Platão, no mito da caverna, nos orienta a sairmos de nossa caverna para encontrar fora dela o fulgor que aclara o pensamento, isto é, a luz da razão. O filósofo deve retornar à caverna para dar luz aos que estão na ignorância da escuridão, conduzindo ao saber, os que têm fome, sede e o desejo por verdades; deve auxiliar os indivíduos a se desvencilhar de subterfúgios e escusas, que justifiquem ações duvidosas.

A finalidade última do filósofo é guiar e orientar os indivíduos e a sociedade para a verdade da existência, de maneira justa e ética.

O filósofo é um semeador, que auxilia seus semelhantes a exercitar o raciocínio de forma coerente e justa, visando o bem-comum, para que, através do reto pensar, possa haver uma transmutação social, onde seja beneficiado o maior número de indivíduos.

Porém, sabemos que essa mutação não se dá sem que ajam contradições, jogos de interesses e de poder. Urge estabelecer um sentido nessa caminhada.

O filósofo possui um papel relevante na sociedade: ensinar os indivíduos a pensar criticamente, buscando num continuum a renovação do raciocínio, de maneira objetiva, conduzindo os cidadãos na busca por seus direitos, sempre questionando à legitimidade dos fatos, buscando continuamente a conciliação, a partir da reflexão e do diálogo.

A função social do filósofo é instruir, não de maneira abstrata, teórica, mas, sobretudo, de modo prático, para melhorar o mundo e a sociedade.

A ética como parte fundamental do caráter humano. Estamos cientes de que entre o discurso e a práxis existe um abismo; porém esse o será transponível, na medida em que dignidade, caráter e moral, não sejam apenas palavras em desuso e sim conceitos incorporados ao cotidiano dos indivíduos.

Que um novo modo de agir se instale, carregado de coerência lógica e solidária e não solitária e egoísta. A essência dessa elaboração é o papel social que cabe ao filósofo. Então, fica claro que o agir ético é a condição transcendental de possibilidade de todo sentido e valia; nesse contexto filosófico está a base ética do papel social do filósofo.

Apel e Habermas depararam que toda proposição implica numa atitude comunicativa, que nos relaciona com os outros, e uma atitude semântico-referencial, que nos relaciona com a sociedade. A coerência entre esses planos é designada como a consistência do logos humano.

Ao forçar a exigência do agir ético à sua idealidade, o que é recuperado não é apenas o juízo correto, mas também o verdadeiro sentido de solidariedade e justiça.

Sigamos em frente, na luta e busca por uma sociedade mais humana. Afinal, são as nossas inconformidades que nos levam adiante.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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