Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

A indústria cultural em Adorno
Mariah de Olivièri

Gólgota

cidade caveira

madeira apodrecida

árvore da vida cravada entre ossos e pedras

pernas dobradas sob o crepúsculo purpúreo

perfume de morte que a brisa anuncia

sangue

 

        Paulo de Tarso

          Na perspectiva adorniana, a indústria cultural emerge, na sociedade capitalista, em uma relação íntima com a razão instrumental, configurando-se como amostra exemplar dessa. De maneira generalista, a indústria cultural consiste na forma pela qual a razão instrumental se exterioriza na sociedade, nos veios imperceptíveis pelos quais administra e maneja os indivíduos, fazendo-os ouvir, ver e sentir de acordo com cânones, regras e convenções preestabelecidas.

          Adorno, juntamente com Horkheimer, empregou o termo indústria cultural pela primeira vez na Dialética do Esclarecimento. Utilizaram-no para substituir e diferenciar do termo cultura de massas, pois não se referia segundo Adorno, a algo que germina espontaneamente das próprias massas ou simplesmente, a arte popular. Para Rodrigo Duarte, tratava-se, fundamentalmente, daquela cultura produzida e reproduzida a partir do padrão e da racionalidade técnica nos moldes de qualquer outro produto ou mercadoria da indústria de consumo, advinda do denominado capitalismo tardio ou monopolista.

         Para Adorno, entrementes, a expressão indústria não pode ser tomada literalmente, como singelo sinônimo da produção de qualquer mercadoria, visto que a indústria cultural refere-se à estandardização da própria coisa, e à racionalização das técnicas de divulgação, não ao processo de produção no sentido estrito. Seu objetivo primeiro não é o de produzir bens materiais e sim, sobretudo, o de manter o sistema econômico funcionando mediante o estímulo ao consumo. Por meio da propaganda veiculada nos meios de comunicação e massivamente difundidas, o consumidor é induzido à aquisição de produtos “necessários” e, incitado à novas “necessidades” criadas artificialmente.

         Para Zuin, a indústria cultural não se reduz unicamente à produção de bens culturais para o uso massivo, mas também cultiva, sob o véu ideológico, formas individuais de produção.

Notório é assinalar a tensão existente entre o indivíduo e a sociedade, visto que os efeitos da indústria cultural não ecoam apenas na conformação do todo social, mas inclusive e fundamentalmente, na compleição da identidade do indivíduo particular, na medida em que dita as regras de socialização e de relações, mediante o consumo de determinados produtos culturais.

         Mister afirmar que ninguém pode  evadir-se de seus efeitos. Nesse lugar, o consumidor não é sujeito e sim objeto, pois possui sua existência administrada e unificada a partir de valores que lhe são inculcados quotidianamente. Invariavelmente, o indivíduo é incitado, direta ou indiretamente à “adaptação” aos padrões vigentes.

         Com isso, Adorno afiança que a consciência do sujeito é regredida mediante a consideração e manipulação dos processos vitais do indivíduo. A indústria cultural prenuncia a felicidade ao indivíduo mediante o consumo exacerbado de seus produtos e a manutenção de uma ordem preestabelecida. Entretanto, trata-se de um gigantesco engodo, na medida em que pressupõe que o mundo seja composto de acordo com o modo que ela sugere. Adorno afirma que o efeito global da indústria cultural é o de um antiiluminismo e, infelizmente, não há quem escape de seus efeitos.

         Por fim, endossamos que a indústria cultural leva à barbárie, em suas mais diversas manifestações sejam elas objetivas ou subjetivas, aliadas à um crescente processo de desumanização e recrudescimento do ser humano, incapacitando ao indivíduo à possibilidade de ser sujeito, de perceber a existência a partir de critérios autônomos, pois a capacidade reflexiva lhe é extinta mediante o treinamento da percepção ao que é conveniente e de interesse da indústria cultural.

Mariah de Olivièri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.


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