

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Angústia: apenas uma obra de arte
Mariah de Olivieri
Angústia, ao atravessar um rio, viu uma massa de argila e, mergulhada em seus pensamentos, apanhou-a e começou a modelar uma figura. Quando deliberava sobre o que fizera, Júpiter apareceu. Angústia pediu que ele desse uma alma à figura que modelara, e, facilmente, conseguiu o que pediu. Como Angústia quisesse dar o seu próprio nome à figura que modelara, Júpiter proibiu e prescreveu que lhe fosse dado o seu. Enquanto Angústia e Júpiter discutiam, Terra apareceu e quis que fosse o seu o nome daquela a quem fornecera o corpo. Saturno foi escolhido como árbitro. E este, eqüitativamente, assim julgou a questão: Tu Júpiter, porque lhe deste a alma, tu a terás depois da morte. E tu, terra”, porque lhe deste o corpo, tu o receberás quando ela morrer. Todavia, porque foi Angústia quem primeiramente a modelou, que ela a tenha, enquanto viver.”
Fábula 220 de Caius Julius Higinus
Um dos maiores problemas que afligem a vida emocional do indivíduo contemporâneo, com repercussão em todos os segmentos de sua existência, é a angústia. Essa adventícia sensação se faz e se manifesta de maneira subjetiva e nem sempre temos uma leitura eficaz para ela. Quando meditamos em seu significado nos surge um certo desconforto, pois, estamos cientes de que, a qualquer momento, ela pode nos invadir e causar estragos, estranhas e incômodas sensações, e até mesmo estagnando nossa existência. Mas afinal, o que é angústia?
Semioticamente a palavra angústia originou-se do grego argor, que significa estreitamento, diminuição.É como se nos momentos de angústia, a conexão com o cosmos diminuísse. O indivíduo, com sua estrutura psicológica abalada por esse sentimento, vai cada vez mais se afundando em um mar de desatino, dor e sofrimento imensuráveis.
Jean Barraud, em O Homem e Sua Angústia (Ed. Pórtico1977), diz que quando esta surge de frente, derruba as pontes que unem as margens, provoca um despertar e torna a lucidez mais incisiva. Somos conhecedores de que essa experiência faz parte da natureza humana, sendo considerada um dos elementos estruturais da subjetividade. Porém, a angústia desperta uma tendência paradoxal: se por um lado ela é inegável em nossas vidas, em contrapartida, vivemos tentando denegar sua existência. Agora reflitamos: Somos criaturas dotadas de razão e sensibilidade, porque então não usar a angústia a nosso favor? Se ela nos assusta, em contrapartida, nos oportuniza a irmos ao encontro com algo maior: nossa possibilidade de criaturas criadoras. Nossa idéia é a de que possamos adquirir um novo olhar em relação a essa dor, que possamos subverter o seu significado, e que sejamos beneficiados pela angústia.
Dentro deste contexto de transmutação, vislumbramos a arte como a expressão dos sentimentos e da emoção humana. Então, porquê não expressarmos nossa angústia através da arte? Aristóteles, (filósofo do século I.V a.C) vislumbrava a criação artística como o impulso formativo dos anseios do indivíduo na expressão das emoções. Para este grande filósofo, a função da arte era a catarsis (que significa a purificação das emoções acumuladas pelo recalcamento das restrições sociais); isso nos sugere a fertilidade inesgotável do poder terapêutico da arte, que desponta como sendo uma forma de purgar nossos infortúnios.
Temos consciência de que essa idéia pode parecer demasiadamente abrangente, mágica, quiçá até mesmo ingênua para alguns. Todavia, devemos considerar com seriedade os poderes transformadores e libertadores da arte. Humberto Maturana (biólogo, criador da autopoiese) afiança que a arte como elemento transgressor, desobedece aos estatutos conscientes, resignifica o banal e transfigurando-o em mágico; sendo assim, ao inserir novos paradigmas, a arte provoca reações inimagináveis. Marcel Duchamp (precursor da arte conceitual) afirma que a arte é a poética do infinito, o abrigo inspirador onde pulsa a existência, conduzindo o indivíduo a regiões que o tempo e o espaço não regem.
Através da arte, estaremos aptos a emergir do limbo de nossa existência e a descobrirmos as benesses dessa experiência, dando um sentido novo a nossa vida, permitindo que aflore o sublime em nós. Por mais absurdo que possa parecer, por trás da angústia existem tesouros inimagináveis, potenciais criativos e artísticos que só se manifestam quando instigados violentamente. Para a questão existencial da angústia, somente uma abordagem desobediente, apenas uma obra de arte.
Arriscar-se produz angústia, porém não arriascar-se é perder-se a si mesmo.
Kierkegaard
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.