

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Angústia
existencial
Sob a ótica reflexiva de Sören Aabye Kierkegaard
Existential
anguish from the point of view of Sören Aabye Kierkegaard
Maria de Fatima Olivieri[1]
Resumo
O presente artigo tem por finalidade refletir, analisar e discorrer sobre o complexo processo que envolve o conceito de angústia existencial, sob a ótica de Sören Aabye Kierkegaard, renomado filósofo existencialista do século XIX. A angústia é um tema instigante, fascinante e pertinente na trajetória humana, estando sempre presente em maior ou menor grau no curso da humanidade. O ponto de partida de Kierkegaard em sua reflexão destaca a importância da angústia no processo de escolha frente às situações vividas pelo indivíduo em sua existência. Na perspectiva de Kierkegaard, a angústia é de fundamental importância no que tange à constituição e construção da subjetividade humana, ou seja, na construção da individualidade, de “si mesmo”. Kierkegaard pondera, sobremaneira, o quanto o peso da escolha e das decisões desencadeia o processo de angústia na existência humana. A análise desse fenômeno e suas conseqüências na vida completa o conteúdo do texto em questão.
Palavras-chave: angústia, construção, subjetividade, escolha, liberdade, existência.
Abstract
This article discusses the complex process involved in the concept of anguish from Kierkegaard’s point of view. Existential anguish is a relevant theme in the history of humankind, as it is always present in different degrees in this history. Kierkegaard’s starting point stresses the importance of anguish in the individual’s process of making choices in different situations experienced by them in their existence. In Kierkegaard’s perspective, anguish is a fundamental issue in the constitution and construction of human subjectivity, i.e., in the construction of individuality, of the “self”. Kierkegaard describes how the weight of choices and decisions provokes the process of anguish in human existence. The analysis of this phenomenon and its consequences completes the content of this text.
Key words: anguish, construction, subjectivity, choice, freedom, existence.
Introdução
A angústia existencial (Zimmermann, 1995, p. 108)[2] pode ser considerada uma força obscura, espécie de potência irracional, destarte um suplício contraditório; constitui-se atualmente em uma das maiores dificuldades que afligem a vida do indivíduo. Por sua extrema importância, trata-se de um tema constantemente referido no cotidiano e de fundamental acuidade na existência, sempre se fez presente, desde remotos tempos, até a contemporaneidade. Por se tratar de um assunto complexo, envolve, entre outras coisas, a compreensão das motivações e das múltiplas questões que abarcam o processo de escolha, pelos quais o indivíduo passa com relativa freqüência ao longo de sua existência, e o quanto isso o afeta, refletindo na construção e afirmação de sua subjetividade. Certamente, é um grande desafio a ser enfrentado, um mistério a ser desvendado; podemos mesmo supor que não exista um só ser humano que não tenha no âmago de si uma inquietação, uma perturbação e, portanto, que esteja isento de sentir angústia. Essa constante agonia, ao longo dos tempos, atingiu os indivíduos em larga escala: mulheres, monges, cientistas, homens letrados e não-letrados e, principalmente, os filósofos. Esses, em sua grande maioria, indivíduos questionadores e inconformados por natureza, tendo em vista a sua eterna busca em conhecer a si mesmos e sua inserção no mundo do qual fazem parte.
Por sua extrema importância na vida humana, este tema está ligado profundamente às indagações filosóficas desde Platão. Sabe-se bem que a extensão do mesmo e o caminho tortuoso que implica a discussão de tal não são certamente as maiores dificuldades encontradas por aqueles que se aventuram em discorrer sobre esta questão. Contra a angústia, não há meios de proteção ou garantias racionais. Ela chega sorrateira e instala-se sem pedir permissão, enfermando a vida do indivíduo e abalroando-o de desespero. Na verdade, trata-se de um assunto muito controverso, com muitas teorias, algumas imprecisas, até mesmo obscuras, que não satisfazem integralmente o questionamento a respeito deste assunto. A filosofia, ao lado da psicanálise, tratou e segue tratando deste mote sem, no entanto, esgotá-lo e, ainda hoje, oferece bases férteis para a continuidade desta discussão acerca das motivações que acarretam este fenômeno no indivíduo. A partir dessas reflexões iniciais, podemos inquirir com propriedade: É plausível afirmar que haja indivíduos que sejam beneficiados pela angústia? E, se todo e qualquer indivíduo pode em algum momento ser acometido por este fenômeno, existe solução para esse tormento?
O caráter transformador da angústia
A propósito desse assunto tão controverso e com tantas nuances, é notório que Kierkegaard é um dos filósofos que mais profundamente investigou esse tema. A angústia existencial ocupa um lugar privilegiado e de destaque em seu pensamento e reflexões. “A brevidade de sua vida contrasta com a qualidade e a extensão de sua produção, ainda não classificada nos círculos acadêmicos” (Almeida e Valls, 2007, p. 7). Kierkegaard foi um dos filósofos que mais investigou este mote em sua época, deixando inúmeros escritos e o importante livro: O conceito de angústia (Kierkegaard, 1968, p. 5), um verdadeiro tratado sobre esse assunto, onde a complexidade de suas idéias foi e será sempre instigante, fascinante, útil e atual; principalmente para esses tempos pós-modernos que encontramos seres humanos tão angustiados. “Kierkegaard contribuiu para trazer a filosofia de novo para o plano terreno, inserindo-a nos dramas e tragédias da própria existência” (Almeida e Valls, 2007, p. 60).
Entre as questões do indivíduo, de suas escolhas frente às situações de vida, a angústia, enquanto questão existencial, ocupou um destacado espaço na vida desse filósofo. Kierkegaard supunha que a maioria da humanidade, em algum momento de sua trajetória existencial, padeceu ou padecerá desse mal. “Há quem o considere um divisor de águas, traçando um antes e um depois para a filosofia”.(Almeida e Valls, 2007, p. 61).
Ao abordar esta questão que é tão decisiva na vida humana, Kierkegaard afirma que o indivíduo sente angústia até o momento em que se liberta enquanto indivíduo. O sujeito é livre para escolher. Ser livre significa contribuir para a própria realização, mas também significa poder negá-la. Este é o frágil terreno da possibilidade, da escolha e, conseqüentemente, da angústia. A história é a realidade que antecede a possibilidade da liberdade: “A possibilidade da liberdade não coincide, porém, com o poder de escolher entre o bem e o mal. [...] a possibilidade está em poder” (Kierkegaard, 1968, p. 53).
O indivíduo só pode experimentar a realidade de sua existência sendo um indivíduo total, como um organismo que possui emoções, que atua e pensa de maneira integrada. Só assim o indivíduo pode superar a dicotomia razão/ emoção, voltando a atenção para a realidade de sua experiência imediata, a qual é sustentada pela subjetividade e objetividade.
A liberdade individual deve se distinguir radicalmente da mera liberdade das restrições sociais que formavam a concepção dominante de liberdade desde o Renascimento e deve distinguir-se das fatídicas e mecânicas pseudolibertações, do típico participante da rotina burguesa no âmbito comercial e industrial. A realização dessas possibilidades implica aventurar-se continuamente em novas áreas, enfrentando novos desafios (May et al., 1968, p. 251)[3]; liberdade deste modo implica angústia potencial, sendo que “a angústia é a possibilidade da liberdade” (Reale e Antiseri, 1990, p. 239). Podemos enfatizar que, para Kierkegaard, a angústia era “normal” e não “neurótica”, sendo até mesmo benéfica. O filósofo enxerga a angústia como sendo o puro sentimento do possível, do viável, o sentido daquilo que pode acontecer; é poder-ser, isto é, possibilidade. “O homem constituído pela angústia é constituído pela possibilidade e apenas aquele que a possibilidade forma está formado em sua infinitude” (Kierkegaard, 1968, p. 158).
A angústia surge, então, sempre que existe a possibilidade de escolher ou de não escolher; se não escolhe, o indivíduo fica paralisado; porém, o indivíduo, em muitas ocasiões, tem medo de escolher e de se perder nesta escolha, de fazer a escolha equivocada. A realidade é que a existência é possibilidade e, portanto, quase sempre angústia (May et al., 1968, p. 20)[4]. A certeza é uma qualidade interna, acessível só para o indivíduo que pode pensar, sentir e atuar como uma unidade psicológica e ética. Kierkegaard, ao discorrer sobre esse tema da angústia, rechaçou enfaticamente o racionalismo tradicional por sua artificialidade, criticando firmemente a filosofia sustentada por Hegel[5] (May et al., 1968, p. 19).
A individualidade e a conseqüente originalidade são obtidas unicamente se a angústia inerente ao ato de assumir uma posição contrária é enfrentada com coragem, sem temer o erro. Desse modo, quanto maior a liberdade potencial dos indivíduos, tanto maiores possibilidades criativas tem o homem individualmente; desse modo, a sua angústia se potencializa. Kierkegaard afiança que uma das características do indivíduo é sua capacidade para ser consciente de suas próprias possibilidades. Este pensamento o conduziu ao importante conceito da relação do conflito com a angústia.
Angústia e subjetividade
A angústia é observada como uma inquietante estranheza, um sentimento sinistro, é algo que o sujeito sente de forma inegável e avassaladora; o indivíduo é afetado em ato, no instante. Ele é como que tomado por esse turbilhão de emoções profundamente assustadoras e contraditórias, que o deixam, por vezes, profundamente desorientado. Etimologicamente, a palavra angústia originou-se do vocábulo grego argor (Pereira, 1998, p. 30), que significa estreitamento, diminuição. É como se, nos momentos de angústia, o indivíduo se sentisse sufocado, como se a passagem do ar se tornasse impossível e a conexão com o cosmos diminuísse, trazendo uma sensação de desolamento e aniquilação. O indivíduo tem a sensação de desamparo e solidão; nesta situação, ele se encontra isolado em sua emoção, fechado em si mesmo. Mais especificamente, o indivíduo “fechado” não está fechado consigo mesmo, mas fechado de “si mesmo” e de outros indivíduos. Ele está “apartado” de si, distante de seu íntimo e tendo por companhia esse isolamento, essa solidão. Entre as questões desenvolvidas por Sören Aabye Kierkegaard (Harari, 1997, p. 16), insere-se, na questão da angústia existencial, o tema da subjetividade humana.
A subjetividade, no entanto, não é passiva, responsável pelo erro, pois tomar consciência de seus erros é reconhecer-se responsável por eles, será responsável também pela verdade. A subjetividade apresenta-se, portanto, como um poder de Redenção (Le Blanc, 2003, p. 66).
A partir da interrogação sobre o sentido do existente e do existir, Kierkegaard analisa qual a relação entre angústia e a construção da subjetividade, ou seja, o que significa a ânsia de ser “si mesmo” (Kierkegaard, 1968, p. 196) e qual o ônus desta escolha, como fator gerador de angústia. O ponto de partida em sua reflexão é a exaltação da inquietude metafísica; a busca da verdade de cada indivíduo é proposta como uma de suas questões filosóficas essenciais:
Kierkegaard é póstero. Profeta da individualidade, num tempo em que as aldeias globais e os sistemas cosmopolitas negam a individualidade e transformam tudo e todos numa heterogeneidade homogênea, numa sociedade sem identidade, sem autenticidade, sem alma (Almeida e Valls, 2007, p. 9).
Segundo seu pensamento, a existência é uma tensão em direção ao indivíduo, ao sujeito, o qual se constitui em categoria essencial da existência. Kierkegaard assevera que o sujeito é o centro do mundo e que cada indivíduo deve ser o “autor de sua existência” (Kierkegaard, 1968, p. 196) e fazer sua vida valer a pena; afirma que só a verdade edifica e transforma o homem, constituindo-o em pessoa humana:
Existem verdades nas quais temos de comprometer a nós mesmos, tão essenciais que a existência é incompreensível sem elas, e sem as quais a vida não tem sentido. Essas verdades não fornecem o em si do sentido da vida, objetivo e intemporal, mas um sentido para si, para a subjetividade, para aquele indivíduo concreto que vive aqui e agora, cuja alma é incessantemente agitada pelas incertezas da existência e pelas escolhas diante das quais ela o coloca (Le Blanc, 2003, p. 13).
Assim é que, se a vida pode ser considerada uma dádiva, existir é a empreitada de cada indivíduo, onde só ele é o responsável por sua existência e por suas decisões. Kierkegaard afiança que são necessários esforço e honestidade para tornar-se “si mesmo” (Kierkegaard, 1968, p. 196), um ser humano autêntico, isto, porém não acontece em um “passe de mágica”; é um processo que pode até mesmo se estender por toda a existência, pois o indivíduo é um eterno projeto em construção de si mesmo. Porém, ao edificar-se, ao cultivar-se a si mesmo, ao eleger a autenticidade como sua verdade, o indivíduo singular se torna admirável. Quando se arrisca a ser um “si mesmo”, na seriedade e na responsabilidade, ele se torna extraordinário (Kierkegaard, 1968, p. 196). Portanto, para ser um indivíduo autêntico, ele deve ser fiel a si e escolher seu próprio caminho. Destarte, o indivíduo autêntico exerce sua liberdade de escolha estando em comunicação contínua, integrado consigo mesmo, fiel aos seus desígnios. Desta forma, o indivíduo que exerce a autenticidade tem maior capacidade de se definir e, assim, construir sua verdade, de acordo com seus valores; porém, não existe um conceito absoluto que o defina, porque cada indivíduo define a si mesmo a partir da sua subjetividade.
Para edificar-se enquanto indivíduo é necessário que ele descubra sua vocação, sua missão existencial, a verdade que é verdadeira para si, a idéia singular pela qual ele vive ou morre; ter um ideal e lutar por ele com todas as forças, para, assim, realizar-se no aqui e agora. Nesta tarefa de se descobrir enquanto ser humano, o indivíduo carece abrir-se à sua existência, que é única, pois a verdadeira realidade é o existente, o singular; e só o homem é verdadeiramente singular; conseqüentemente, o caráter essencial da existência é a “verdade que advém da subjetividade”.
A partir destas constatações, Kierkegaard atinge o cerne de seu problema, qual seja: a relação entre angústia e subjetividade. Neste momento, a pergunta que se depreende é: como pode o indivíduo escolher acertada e conscientemente para, deste modo, tornar satisfatória a edificação de “si mesmo?” Para que a escolha correta ocorra, o indivíduo deve primeiramente se conhecer interiormente e descobrir seus desejos, pois somente quem se conhece em profundidade é capaz ter discernimento e de responsabilizar-se por suas escolhas (Huisman, 2001, p. 10)[6] e fazê-las de modo consciencioso, na medida em que tem mais condições de saber a significância de cada uma delas. A interioridade é sinônima de edificação, de tornar-se edificante, de construir-se em bases concretas; para que isto ocorra, é vital a atitude de recolhimento, de reflexão intensa, de discernimento, coerência e, principalmente, comunhão entre o “eu e o mim mesmo” (Reale e Antiseri, 1990, p. 247). Inevitável surgir, a partir daí, uma nova questão: como adquirir a certeza interior e fazer a escolha judiciosa em um mundo deveras massificado e consumista, no qual ser diferente e singular implica, muitas vezes, ser discriminado e mesmo rejeitado por sua originalidade?
O apelo de Kierkegaard para a correta administração da angústia aponta no sentido de que o indivíduo seja verdadeiro em sua essência, que busque “la verdad[C1] subjetiva”:
Verdad subjetiva no significa que no haya referencia a realidades extra-subjetivas, que hacen que la pasión no se reduzca a capricho o indiferencia hacia lo real, de ahí el nombre de “verdad”; sin embargo, Kierkegaard usa la expresión compuesta “verdad subjetiva” para indicar que, para las realidades existenciales, la verdad no pude reducirse a lo real como distinto y ajeno a la subjetividad, por el contrario, hace hincapié en aquellas verdades que comprometen la existencia (Martínez, 2004, p. 31).
Assim, o indivíduo irá atuar de forma autêntica e coerente com seus princípios, em sua existência. O indivíduo deve procurar fazer o melhor possível, pois só assim superará o finito, estando ciente de que o que decide a vida é a ação correta na hora exata. Cito Kierkegaard:
[...] o que me falta é, no fundo, ver claramente em mim mesmo o que devo fazer e não o que devo conhecer, salvo na medida em que o conhecimento sempre precede a ação. Trata-se de compreender o meu destino, de ver o que Deus quer propriamente que eu faça, isto é, de encontrar uma verdade que seja verdade para mim, de encontrar a idéia pela qual quero viver e morrer (Kierkegaard, 1980, I A, p. 75).
O indivíduo tem diante de si inúmeras opções viáveis, sendo inteiramente livre para decidir; ele sabe que sua liberdade de escolha é infinita e, ao dar-se conta de suas possibilidades e do peso da responsabilidade de suas escolhas, o sentimento de medo e angústia surge, pois implica sempre um ponto de interrogação quanto a seu futuro. Ao captar através da reflexão e interiorização o peso e o significado de sua liberdade de escolha, ocorre a “vertigem da liberdade” (Kierkegaard, 1968, p. 66), que nada mais é que a consciência da liberdade para efetivar o caminho a ser trilhado. Assim é que todo o peso da liberdade de escolha passa a ser um ponto de interrogação, na medida em que ocasiona o surgimento do sentimento de angústia, porém o sentimento de angústia é de fundamental importância no processo de construção da subjetividade.
Esta empreitada este processo de autoconscientização acaba por gerar angústia na medida em que existe uma pulsão para o externo, para o massificado, o qual é, em geral, muito mais seguro e previsível do que ser um “si mesmo” autêntico e sustentar suas escolhas, sem ter a certeza plena para onde este processo o conduzirá.
Kierkegaard dá um tratamento polêmico ao conflito, à criatividade e à culpa. Ele supõe que o conflito interno e o sentimento de culpa são geralmente uma conseqüência da criatividade (Oliviéri, 2004, p. 10). Sendo assim, não devemos classificar o indivíduo de neurótico, mas, sim, reconhecer que a angústia tem um papel fundamental nas crises (May et al., 1968, p. 20)[7] de criatividade, ajudando mesmo a resolvê-las e agraciando um maior desenvolvimento ao indivíduo de forma global.
Destarte, cada possibilidade criativa, tratando-se do desenvolvimento individual, implica certa destruição do passado, com uma ruptura de formas alicerçadas no passado, que devem ser destruídas, para dar lugar ao novo. A angústia é a condição sine qua non, para que a existência autêntica se realize, pois é na angústia que todo o sentido de certeza cede lugar a uma incerteza universal, sem esperança. O indivíduo por medo, insegurança, se sente muitas vezes tentado a permanecer no que lhe é familiar e seguro, preferindo não se aventurar e, com isso, não cresce enquanto ser humano. Contudo, se não avança, o resultado é a angústia neurótica.
Para Kierkegaard, a angústia neurótica (May et al., 1968, p. 29) é o resultado do bloqueio emocional, que acontece quando o sujeito tem medo da liberdade. Este bloqueio impede a expansão e implica constrição nas áreas da liberdade, da experiência, da consciência e da criatividade. Temos aqui, segundo Rollo May, uma primitiva formulação do processo que mais tarde Freud chamou de repressão, e Sullivan de dissociação. Tanto quanto Freud e Sullivan, Kierkegaard pensa que quando tratamos de evitar o confronto íntimo com um temor “real”, ou com uma experiência que implica “ansiedade normal”, nos comprometemos, bloqueando a consciência e a conseqüente experiência advinda desse processo. Acreditava Kierkegaard que as duas fontes de angústia neurótica – desunião dentro de si e falta de harmonia com os demais – se superam através de processos simultâneos; superar um é superar o outro. Porém, nenhum dos dois pode-se obter, a menos que o indivíduo tenha a coragem de enfrentar sua angústia confrontando seu interior e levando a cabo as ameaçadoras experiências de solidão e angústia que são “normais” (no sentido de que não se pode evitar senti-las) se realmente deseja realizar essa possibilidade, que é a aquisição de sua autenticidade e autonomia.
A vida humana é feita de constantes escolhas. Em cada escolha, o indivíduo provavelmente terá perdas, e a angústia surge justamente pelo medo das perdas decorrentes de não se ter tomado a melhor decisão. Para escolher o melhor caminho, o indivíduo autêntico necessita ter coragem e lucidez para escolher independentemente do medo. Ele deve ir além do medo e, assim, efetivar sua autoconquista. Se nos inquirimos sobre o fundamento da angústia para Kierkegaard, podemos dizer que só através desta experiência, apesar de dolorosa, o homem poderá elevar-se à existência autêntica. Só na medida em que for capaz de passar, terá condições de ser existencialmente livre. É então compreensível que Kierkegaard qualifique o sentimento de angústia como um mestre, efetivamente o mestre “primeiro”, podendo até ser muito proveitoso se o indivíduo souber tirar partido dele. Afirmava que a angústia, de fato, é melhor mestre que a realidade, visto que a realidade pode ser evitada temporariamente através de fugas consumistas e/ou ilusórias, ao passo que a angústia é uma educadora que sempre está a postos no íntimo de cada indivíduo e que, a qualquer momento, o invade, pegando-o desprevenido.
Considerações finais
Temos consciência de que a dicotomia entre razão e emoção, assim como o isolamento do indivíduo de sua comunidade, e de seus semelhantes, foram e continuam sendo de fundamental importância para o surgimento da angústia desde tempos remotos até a contemporaneidade. A cada momento em que existe uma cisão, uma separação entre o sentimento e a ação, surge o conflito, e, conseqüentemente, a angústia mostra sua tenebrosa face. Kierkegaard nos orienta para uma forma mais profunda e autêntica de enfrentar a existência. Ao analisarmos sua filosofia, constatamos que existe um grande desafio em nosso tempo que é no sentido de humanizar e individualizar cada sujeito, tornando-o um “si mesmo” kierkegaardiano. Enfrentar esse desafio, para assim superar as fontes de angústia, requer um esforço conjunto de indivíduos em todos os campos: das ciências sociais, da psicologia, da filosofia e das artes em geral. O indivíduo sente o quão aflitiva e delicada é a sua situação; porém, é na liberdade de escolha que está a chave, a saída para a sua angústia. Ao escolher, a dúvida cede lugar à certeza. O indivíduo tem urgência em resgatar seus valores autênticos e sua individualidade para encontrar o equilíbrio interno e, assim, tornar-se um ser humano mais integrado consigo e com os demais, pois quando se é verdadeiro com os próprios valores, fiel a si mesmo, sofre-se menos.
Não pretendemos aqui, de forma alguma, esgotar o tema da angústia, pois tal seria impossível. A angústia sempre será nossa eterna companheira, por mais que dissimulemos, neguemos e abominemos sua existência, pois o processo de crescimento do indivíduo é contínuo e implica, invariavelmente, angústia. Contudo, acreditamos que, se o indivíduo sair da escola da possibilidade e “souber tirar proveito da experiência da angústia”, então dará à realidade outra explicação, exaltando-a e dando boas-vindas à angústia, crescendo através dela e edificando-se como ser humano:
Mi alma está tan pesada que ningún pensamiento puede llevarla ningún aletazo puede elevarla por los aires. Si se mueve, se arrastra a ras del suelo, igual que vuelan los pájaros cuando barruntan tormenta. Sobre mi ser íntimo se incuba un abatimiento, una angustia que sospecha un temblor de tierra (Kierkegaard, 1977, p. 33).
Referências [C2]
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HUISMAN, D. 2001. História do existencialismo. São Paulo, Editora da Universidade do Sagrado Coração, 185 p.
KIERKEGAARD, S.A. 1968 [1844]. O conceito angústia. São Paulo, Hemus, 164 p.
KIERKEGAARD, S.A. 1977 [1843]. Diapsalmata. 4ª ed., Buenos Aires, Aguilar, 53 p.
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LE BLANC, C. 2003. Kierkegaard. São Paulo, Estação Liberdade, 142 p. (Figuras do saber, 1).
MAY, R. SCHACHTER, S. HALL, C.S. RANK, O. HORNEY, K. GOLDSTEIN, K. KRAPF, E. E. FENICHEL, O. DIETHELM, O. 1968. La angustia normal y patológica. Buenos Aires, Editorial Paidos, 285 p.
MARTÍNEZ, L.G. 2004. La verdad subjetiva (Sören Kierkegaard como escritor). México, Ed. Universidad Ibero-americana, 266 p.
OLIVIÉRI, M. de F. 2004. Angústia existencial – Imensurável tormento d’alma. São Leopoldo, RS. Trabalho de Conclusão de Curso. Unisinos, 91 p.
PEREIRA S. J., I. 1998. Dicionário grego-português/português-grego. 8ª ed., Braga, Livraria do Apostolado da Imprensa, 670 p.
REALE, G. e ANTISERI, D. 1990. História da filosofia. São Paulo, Paulus, vol. 3, 950 p. (Coleção Filosofia).
ZIMMERMANN, D. 1995. Estudos de Psicoterapia. Porto Alegre, Fundação Instituto Mário Martins, 227 p.
[1] Mestre em Filosofia pela UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, e-mail: mariah.oliviéri@terra.com.br
[2] Sabemos que a angústia é uma doença emocional com a qual o indivíduo sofre muito, que o leva a sentir-se como que prisioneiro de si mesmo. Sabe-se hoje que um grande número de pessoas sofre desse mal e desconhece como se livrar deste entrave. Cabe aqui salientar que a angústia é um fenômeno difuso, de limites imprecisos e, muitas vezes, de configuração ambígua, e que paira entre as fronteiras da psicologia e da fisiologia, guardando vínculos, em alguns sentidos, com áreas das ciências sociais e da sociologia. Suas conseqüências são muitas vezes destrutivas em relação ao indivíduo como um todo, e a perda do equilíbrio emocional e do controle decorre muitas vezes desse sentimento.
[3] Podemos observar isso no caso de uma criança em crescimento. Kierkegaard acreditava que a angústia de uma criança pequena era “ambígua”, “não reflexiva”, pois a criança não tinha consciência da separação entre ela e seu meio ambiente. Porém, com o desenvolvimento da consciência na criança (que ocorre mais ou menos a partir dos 2 anos), ela estaria apta a enxergar as suas finalidades e desejos. Esta autoconsciência é, no indivíduo em crescimento, a base da responsabilidade, do conflito interno e do sentimento de culpa. A observação de seus desejos e vontades pode colocar a criança em choque com os pais e mesmo ser considerada um desafio, perante essas figuras de autoridade que eles representam.
[4] O conceito de angústia de Kierkegaard foi, segundo May, um prenúncio do que mais tarde Otto Rank descreveria como a angústia inerente à individuação, e que Kurt Goldstein descreveu como a angústia normal que o indivíduo enfrenta no inevitável sobressalto ante seu crescimento.
[5] O sistema de Hegel tem a pretensão de explicar tudo e demonstrar a necessidade de todo acontecimento. O que Kierkegaard sobremaneira repudia em Hegel é a transformação da existência em um sistema. Para Kierkegaard, o indivíduo é uma subjetividade que não pode encontrar o seu fundamento em nenhum sistema racional. Ele afirmou com veemência que o caráter essencial da existência é a subjetividade. Kierkegaard sustenta com veemência que o sistema hegeliano que identifica o pensamento abstrato com a realidade é uma forma de confundir os indivíduos mediante uma evasão da realidade da situação humana.
[6] A valorização do autoconhecimento está presente na tradição filosófica desde Heráclito até os grandes filósofos contemporâneos, é a condição da originalidade. Sua valorização pode ser confirmada em Galileu, Nietzsche, Heidegger e Kierkegaard, entre outros.
[7] Tem-se conhecimento que muitos artistas necessitam do conflito, da angústia, da crise emocional para criar e fazer suas obras de arte.
[C1] Falta o 'e' aqui?
[C2] Todos esses textos foram citados no artigo? As "referências" são as obras utilizadas expressamente na construção do texto.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.