

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
ANGÚSTIA
EXISTENCIAL – UM DIÁLOGO SOBRE LIBERDADE E SUBJETIVIDADE EM SARTRE
E suas interpenetrações filosóficas com Kierkegaard
EXISTENTIAL
ANGUISH – A DIALOG ABOUT LIBERTY AND SUBJECTIVITY IN SARTRE
And its Philosophical Contacts with Kierkegaard
Mariah de Olivieri[1]
Resumo
O presente artigo tem por finalidade problematizar a questão da liberdade do indivíduo e sua intrínseca relação com a angústia existencial, através do olhar de Jean Paul Charles Aymard Sartre, considerado o papa do existencialismo contemporâneo e Sören Aabye Kierkegaard, pensador do século XIX, precursor da filosofia da existência; tecer-se-á, neste trabalho um breve paralelo com a questão da subjetividade e sua estreita relação com a angústia existencial.
Palavras-chave: liberdade, angústia, subjetividade, responsabilidade, existência.
Abstract
The present article deals with the matter of individual’s liberty and its relation to existential anguish by the views of Jean Paul Charles Aymard Sartre a pioneer of the philosophy of the existence and Sören Aabye Kierkegaard, a philosopher of the nineteenth century and views. It will be done a brief parallel, in this study concerning to the question of the subjectivity e its connection to the existential anguish.
Keywords: liberty, anguish, subjectivity, responsibility, existence.
Introdução
Liberdade e angústia são termos bastante usuais na atualidade. Todavia, quantos indivíduos sabem exatamente os seus verdadeiros significados? Filosoficamente falando, pensamos que a questão da liberdade e sua relação com a angústia constituem uma reflexão assaz complexa, onde a significância da palavra liberdade e sua inerente relação com a angústia existencial suscitam vários adágios sobre este tema tão delicado e subjetivo. Consideramos que Sartre, ao tratar deste mote, o fez com precisão cirúrgica, buscando incessantemente um conceito que o satisfizesse e trazendo para a contemporaneidade idéias e apreciações relativas a este controverso assunto.
Etimologicamente, a palavra liberdade surgiu do latim libertas e era usada entre os romanos na Idade Antiga, para distinguir os escravos e os prisioneiros entre os cidadãos; eram chamados de livres, aqueles indivíduos cuja vontade não dependia de outrem. Na filosofia de Jean Paul Sartre, a existência humana se confunde com a liberdade. Liberdade esta, que é total, sem limites ou condições, e que impõe ao indivíduo a busca por uma conduta autêntica, sendo o próprio critério da existência. Existe em Sartre, a preocupação de trazer ao fulgor da razão o problema da ação do indivíduo em relação à liberdade e a pesada responsabilidade que este têm, ao fazer suas escolhas. O indivíduo tem liberdade de escolha, ainda que possua a consciência de que não lhe é permitido fazer apenas o que deseja; sabe que pode escolher, até mesmo “não escolher”; sabe-se que o indivíduo é um ser condicionado por seu meio, por suas atitudes, por suas ações; porém, é dotado de livre-arbítrio.
Destarte, nesse imperativo categórico “o homem é um ser livre”, desvela-se a importante dicotomia relativa entre a questão da liberdade e a angústia, ou seja: a liberdade de escolha que o indivíduo possui para fazer opções em sua vida, e, em contrapartida, como esta consciência de liberdade suscita no sujeito o aterrorizante sentimento de angústia, citamos Sartre:
Com efeito, somente pelo fato de ter consciência dos motivos que solicitam minha ação, tais motivos já constituem objetos transcendentes para minha consciência, já estão lá fora; em vão buscaria recobra-los: deles escapo por minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre para-além de minha essência, para-além dos móbeis e motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Significa que não se poderia encontrar outros limites à minha liberdade além da própria liberdade, ou, se preferirmos, que não somos livres para deixar de ser livres. (Sartre, 1997, p. 543-544).
Ao nos debruçarmos sobre o pensamento de Sartre, observamos que sua linha de raciocínio é guiada pelo tema da liberdade, sendo esta questão primordial em seus incansáveis questionamentos. A própria condição humana se confunde, para ele, com a questão da liberdade; em seu adágio, sentimos o reflexo do peso da angústia do indivíduo perante esta responsabilidade. É o livre-arbítrio ao alcance da ação que proporciona ao sujeito efetuar e exercer a liberdade através de uma conduta autêntica, colocando-o tête-à-tête com seus desígnios mais preciosos.
Sendo um ateu convicto, Sartre parte do pressuposto de que Deus não existe. Porque não há nenhum Deus e, portanto, não há qualquer plano divino que determine o que deve acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre. Nada o obriga a nada. Por este motivo, Sartre não admite a existência de um criador que tenha predeterminado a essência e os fins de cada sujeito. Assim, o indivíduo encontra-se abandonado à sua própria sorte; e, não tendo onde se apegar, é através de seus valores que legitima sua conduta e suas diretrizes.
O adágio de Sartre cogita que esta inquietação existencial da liberdade de escolha surge sempre no sentido de que o indivíduo “sofre na pele” a responsabilidade de ter que decidir sempre que a vida e suas situações o coloquem em uma encruzilhada de inúmeros caminhos a escolher. Então, sua postura nesta situação pode tomar as mais variadas formas: ele pode acomodar-se a uma determinada situação, aceitá-la ou mesmo combatê-la. Mas, sobretudo deve afirmar-se nesta tarefa e assumir a responsabilidade por suas opções, sejam essas quais sejam, mesmo que esta atitude lhe gere muitas vezes inquietação, agonia e angústia.
A valoração da estrada a ser trilhada, coloca o indivíduo face a face com seus desejos, com sua realidade nua. A angústia se dá através do reconhecimento de que os valores são individuais e únicos, e que pertencem a cada um e nada ou ninguém – seja Deus, a igreja, ou o partido político – pode de forma alguma fundamentar esta eleição tão particular. Isto significa que o indivíduo é o único responsável por decidir sua vida e organizar seu entorno pela escolha de seus próprios métodos para alcançar seus objetivos. Sartre afiança que o homem nasce, vive e se desenvolve sozinho, sem nenhuma “natureza anterior”, que lhe possa impor um modelo a seguir, um destino a cumprir. O indivíduo está aí e vai formar a si mesmo sem nenhuma causalidade.
A existência humana é contingência, ou seja, liberdade e indeterminação. Isto significa que a existência se traduz por uma angústia imediata, isto é, um sentimento inerente de estupefação e de absurdo perante a existência. Sartre assevera que existir é ter consciência, pois, sem consciência, não existe existência propriamente dita. A consciência é um ser cuja existência estabelece a essência e o ser está em toda à parte. É a partir da tomada de consciência e do peso da responsabilidade por si e por suas opções que o sujeito pode, apesar da angústia, tomar as rédeas de seu destino.
Observamos no pensamento de Sartre a preocupação existencial de que o indivíduo deve fazer uma opção, quando se encontrar com um leque de possibilidades em sua vida. Esta consciência do poder de escolha gera nele angústia; porém, esta se trata de uma angústia simples, gerada pela responsabilidade de opção, pois o homem é livre e responde por suas escolhas, não podendo culpar a outrem por suas glórias ou fracassos:
O homem é livre porque não é si mesmo, mas a presença a si. O ser que é o que é não poderia ser livre. A liberdade é precisamente o nada que é tendo sido no âmago do homem e obriga a realidade-humana a fazer-se em vez de ser. [...], para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, ou tampouco de dentro, que ela possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem qualquer ajuda de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de fazer-se ser até o mínimo detalhe. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, ou seja, seu nada de ser. (Sartre, 1997, p.545). Grifos do autor
No entender de Sartre, o indivíduo está "condenado à liberdade"; sabe-se que não há limite para a liberdade individual, exceto o fato de que "não somos livres para deixarmos de sermos livres”. O ser humano é livre, só e sem escusas. Por esta razão, cada indivíduo tem o alvedrio de fazer de si o que quiser. O indivíduo tem a liberdade de mudar sua vida, seus desejos e buscar um novo significado para sua existência.
Este absoluto determinismo gera nele a náusea, o grande vazio; uma imensa agonia frente à própria existência. Sabemos que o ser humano só tem como essência imutável, aquilo que já viveu. Por esta razão, o sujeito não pode desculpar suas ações dizendo simplesmente que está sendo “forçado” por circunstâncias, movido pela paixão ou fadado de alguma maneira a fazer o que faz. Essa consciência da gama de opções aflora e sinaliza para o indivíduo a inevitabilidade de sua situação, sua encruzilhada existencial, ou seja a “condenação” por sua liberdade, o grande paradoxo de sua existência.
Sartre é um intelectual duro, desencantado com o mundo e cujo pensamento parece haver asfixiado todo o sentimento onde só há lugar para a determinação da razão. Afirma que todo o indivíduo é movido por um projeto fundamental, o projeto de auto-realização. Afiança que todo ser humano tem o sonho de ser um indivíduo que pode realizar toda a sua potencialidade, todos os seus projetos.
E só através da liberdade de escolha que, segundo Sartre, é possível ao indivíduo realizar seus desejos para, dentre todas as alternativas viáveis, realizar a mais importante para si; dito de outro modo, aquela decisão que irá levá-lo através de um caminho mais curto ao seu propósito fundamental de vida. Esta é, para Sartre, a verdadeira liberdade da qual nenhum indivíduo pode escapar; não apenas a liberdade de realização, mas, sobretudo a liberdade de eleição, pois cada escolha carrega consigo uma responsabilidade; portanto, ser livre é também ser responsável. A liberdade só funciona para o indivíduo quanto ele age responsavelmente. Uma das máximas deste filósofo consiste em afirmar que o importante não é o que o mundo faz com cada indivíduo, mas sim, o que cada indivíduo faz com aquilo que o mundo fez dele. Para Sartre, o indivíduo que realiza todos os seus projetos torna-se um Em-si, e que o projeto fundamental do ser humano é tornar-se um Em-si; ou seja, um ser que realiza todas as suas potencialidades, toda a sua capacidade de viver plenamente.
A responsabilidade que o existencialismo punga sobre o indivíduo, difere essencialmente da conotação comum deste termo. Comumente, devemos nos responsabilizar perante Deus, a sociedade ou mesmo, perante um Eu próprio, real ou empírico, que profira um julgamento e aplique uma meta. Na filosofia de Sartre, tudo isso se reduz a nada. Assim, o indivíduo encontra-se abandonado à sua própria sorte; e, não tendo onde se apegar, é através de seus valores que legitima sua conduta e suas diretrizes.
Sou responsável por tudo, de fato, exceto por minha responsabilidade mesmo, pois não sou o fundamento do meu ser. Portanto, tudo se passa como se eu estivesse coagido a ser responsável. Sou abandonado no mundo, não no sentido de que permanecesse desamparado e passivo em um universo hostil, tal como a tábua que flutua sobre a água, mas ao contrário, no sentido de que me deparo subitamente sozinho e sem ajuda, comprometido em um mundo pelo qual sou inteiramente responsável, sem poder, por mais que tente, livrar-me um instante sequer, desta responsabilidade, pois sou responsável até mesmo pelo meu próprio desejo de livrar-me das responsabilidades; [...] (Sartre, 1997, p.680).
O peso da consciência da liberdade e a responsabilidade advinda desta, gera no indivíduo uma sensação ambígua, de poder e medo. Ao se deparar à beira de um penhasco perigoso, por exemplo, o indivíduo sente o medo de cair o invadir; sente a angústia ao pensar que nada, absolutamente nada o impede de jogar-se lá embaixo, de se lançar no abismo. O pensamento mais angustioso é quando, num dado momento, ele tem a consciência que só cabe a ele decidir pular ou não pular. O peso da responsabilidade de decidir a cada momento torna a vida por vezes insuportável.
Sartre descreve a vida humana como "uma consciência infeliz", na qual o indivíduo está sempre tentando alcançar um estado em que não restam possibilidades irrealizadas e no qual poderia dizer: "eu não tinha outra escolha”, situação na qual o indivíduo se comporta com um mero “objeto” em vez de ser um indivíduo consciente, com alternativas e liberdade de escolha. A argumentação de Sartre é a de que "não podemos chegar a um estado em que não restem possibilidades irrealizadas", ou aí o indivíduo está determinado, sem escolha possível e, portanto, sem liberdade. Desta forma, não há fuga possível da angústia gerada pela consciência de liberdade, pois fugir à responsabilidade é, em si mesmo, uma escolha, e o poder de negar a possibilidade de escolha é o princípio da liberdade do pensamento.
O PAPEL DA ANGÚSTIA EM SARTRE E SUA DERIVAÇÃO DE KIERKEGAARD
Sartre, por sua vez, não concede à angústia existencial, o lugar que esta ocupa na vida e nas especulações de Kierkegaard, pois de acordo com este, quando o indivíduo acredita na “justiça eterna”, a idéia de proceder do nada e de retornar ao nada é menos angustiante do que a idéia de seus erros. Semelhantemente a Kierkegaard, Sartre usa o termo angústia para descrever o reconhecimento da total liberdade de escolha que confronta o indivíduo e o desafia a cada momento de sua existência. O indivíduo tem receio que, através de sua liberdade de escolha, venha a tomar uma decisão “equivocada”, que afete irremediavelmente o curso de sua existência. Destarte, para tentar fugir da angústia que esta idéia suscita, o indivíduo usa o que Sartre chama de má-fé. Através desta, o sujeito renuncia à própria liberdade, fazendo “escolhas equivocadas”, que o afastam de seu projeto fundamental e atribuindo, de forma passiva, suas opções a fatores externos: ao destino, aos astros ou a Deus. Então, ao confiar em um Deus para justificar suas ações, o indivíduo isenta-se da responsabilidade de saber quem é, e o que deseja verdadeiramente para si.
Por outro lado, Sören Aabye Kierkegaard desenvolve uma leitura extremamente singular da angústia existencial, trazendo à luz da razão, alguns tópicos raramente abordados. Esse tema tem um peso considerável em seu pensamento. De acordo com Kierkegaard, o sentimento de angústia, provém da consciência de que o indivíduo deve ter a coragem para ser um ser único, individual e autêntico, para ser o autor de sua vida, defendendo a idéia singular pela qual ele decide viver ou morrer. Ser verdadeiro em sua essência e conseqüentemente, ser o “redator responsável” por sua existência. Isto significa ser um si mesmo Kierkegaardiano. Esta individualidade pode ser obtida unicamente se a angústia inerente ao ato de assumir-se em suas escolhas, independentemente de padrões e regras vigentes, seja encarado com bravura:
Em contrapartida, quero afirmar que esta é uma aventura pela qual todos têm que passar, a de aprender a angustiar-se, para que não se venham a perder, ou por jamais terem estado angustiados ou por afundarem na angústia; por isso, aquele que aprendeu a angustiar-se corretamente, aprendeu o supremo saber. (Kierkegaard, 1973, p. 251)[2]
Kierkegaard estabelece ser a autoconsciência o que possibilita o desenvolvimento da individualidade humana em uma busca ao si mesmo, implicando esta atitude à inevitável transformação e separação das idéias próprias, das de outros indivíduos. O pathos de individuação, tão necessário para a construção de si mesmo, só se adquire enfrentando os sentimentos de solidão e angústia inerentes a esta tomada de atitude. Kierkegaard classifica o sentimento de angústia como um mestre que acompanha o indivíduo por toda a existência, já que não há opção sem angústia. Esta angústia é até mesmo um sentimento benéfico, na medida em que faz o sujeito buscar sua essência, sua verdadeira identidade.
O apelo de Kierkegaard para a correta administração da angústia aponta no sentido de que o indivíduo busque sua verdad subjetiva (Martinez, 2004, p. 31) para atuar de forma autêntica e coerente com seus princípios. O indivíduo deve procurar fazer com sua existência o melhor possível, pois só assim supera o finito. Ele está ciente que o que decide sua vida é a ação correta na hora exata:
[...] o que me falta é, no fundo, ver claramente em mim mesmo o que devo fazer e não o que devo conhecer, salvo na medida em que o conhecimento sempre precede a ação. Trata-se de compreender o meu destino, de ver o que Deus quer propriamente que eu faça, isto é, de encontrar uma verdade que seja verdade para mim, de encontrar a idéia pela qual quero viver e morrer. (Kierkegaard, Diário, 1980, I A, p. 75)
Kierkegaard tem a convicção de que a angústia é o puro sentimento do possível, do viável, o sentido daquilo que pode acontecer; é poder-ser, isto é, possibilidade. Isto porque “o homem constituído pela angústia, é constituído pela possibilidade e apenas aquele que a possibilidade forma, está formado em sua infinitude” (Kierkegaard, 1968, p.158)
Diversamente de Kierkegaard, Sartre afirma que quem acredita e admite a existência de uma norma válida para todos, não precisa angustiar-se. De acordo com Sartre , o indivíduo escolhe suas normas sem que possa julgar anteriormente valor delas, pois este valor advém do critério de suas escolhas. Desse modo, Sartre assevera que a angústia é o “resultado” da sensação do alcance de nossas opções. Ao reconhecer essas verdades, o indivíduo é invariavelmente invadido pelo doloroso sentimento de angústia.
Sartre afiança que somos o fundamento para nossas escolhas. Porém, a responsabilidade e a consciência de liberdade são um fardo pesado demais para qualquer indivíduo. Não podendo culpar ou mesmo responsabilizar ninguém por suas diretrizes e por seus atos, o indivíduo é constantemente arremessado de volta para si mesmo. Por esta responsabilidade e todo o peso que a acompanha, a realidade humana consiste em um eterno superar-se:
Todo Para-si é livre escolha; cada um de seus atos, do mais insignificante ao mais considerável, traduz essa escolha e dela emana; é o que temos chamado de nossa liberdade. Agora captamos o sentido dessa escolha: é a escolha de ser, seja diretamente, seja por apropriação do mundo, ou, antes, as duas coisas juntas. Assim, minha liberdade é escolha de ser Deus, e todos os meus atos, todos os meus projetos traduzem essa escolha e a refletem de mil e uma maneiras, pois há uma infinidade de maneiras de ser e de ter. (Sartre, 1997, p. 731. Grifos do autor).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise da linha de raciocínio de Sartre em relação à liberdade e angústia e, comparando com o pensamento de Kierkegaard a respeito deste assunto, podemos tecer algumas considerações: Sartre, pela maneira com que estabelece sua argumentação, é um indivíduo desencantado com o mundo e com a humanidade. Segundo ele, ter, fazer e ser são categorias fundamentais da realidade humana, sendo a liberdade, o valor essencial desta condição. O fundamento filosófico trilhado por Sartre é alicerçado, sobretudo na liberdade individual.
A liberdade, ao mesmo tempo em que é almejada, suscita no indivíduo, em situações concretas de escolha, incertezas, onde a busca de um sentido maior possa suprir os limites estabelecidos e preencher o “vazio” que o invade. Quando o indivíduo conscientiza-se de sua liberdade, surge o medo e, então, insurge-se a angústia. O indivíduo vive constantemente a incerteza de suas opções e suas possíveis e temidas conseqüências.
Diferentemente de Sartre, Sören Aabye Kierkegaard é um indivíduo apaixonado pela existência. Sua filosofia reflete um profundo respeito ao indivíduo, onde o “sujeito” é o autor único de sua existência, o “redator responsável” por sua trajetória terrena. Kierkegaard vislumbra a angústia como a “vertigem da liberdade”, afirmando que o indivíduo sente angústia até o momento em que se liberta como indivíduo. Liberdade significa a expansão do autoconhecimento e da capacidade para atuar de forma responsável como um si mesmo. Para que isto ocorra, o indivíduo necessita assumir sua singularidade. Eis aqui a diferença fundamental em relação ao pensamento de Sartre, que não preconiza nem valoriza, com este peso, a singularidade humana. De acordo com Kierkegaard, a liberdade implica sempre “angústia potencial”, sendo o inevitável sobressalto que o indivíduo enfrenta por ocasião de seu processo de crescimento enquanto indivíduo.
Kierkegaard afiança, que a angústia é um sentimento benéfico e educador e constitui-se em melhor mestre que a realidade, visto que a realidade pode ser evitada temporariamente através de atitudes escapistas, ao passo que a angústia é uma educadora que sempre está dentro de cada indivíduo e a qualquer momento pode mostrar sua face. Em suma, de acordo com Kierkegaard, a angústia provém do medo que o indivíduo sente, em não conseguir assumir sua singularidade e realizar suas potencialidades.
Sartre, muito mais realista e menos sonhador que Kierkegaard, não coloca na angústia esta conotação idealista de aprendizado. Sartre afirma que a angústia é apenas angústia e sua relação com a liberdade, mera constatação da fragilidade humana. Deste modo, cada indivíduo carece de proporcionar atenção às próprias necessidades, aprender a se conhecer, a se descobrir enquanto indivíduo. O indivíduo, teoricamente, tem o controle de si próprio e do que envolve sua vida – seus sentimentos, seus pensamentos e suas atitudes – nada, além disso.
Finalizamos esta reflexão com a certeza de que, urge que o ser humano busque reconciliar-se com as partes negligenciadas de sua consciência, para que então possa renascer sob uma nova perspectiva, sustentada, apoiada e centrada em seus desígnios mais profundos. É lícito concluir que a obtenção desse propósito envolve a aceitação e a compreensão dos desafios que são freqüentemente colocados diante dos caminhos existenciais a serem percorridos por cada singularidade.
Sartre assevera que o “desatino” do indivíduo é a constatação de que nada fora de si existe que defina a sua existência. Assim, o indivíduo descobre que o mundo é “apenas” humano, por sua angustiante, gratuita e absoluta liberdade de decisão e de ação. Apenas a sua liberdade. Nada, além disto! Sartre afirma categoricamente que: “Você é livre, portanto, escolha”.
Como pode o indivíduo não se angustiar diante desse inexorável fato?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS
KIERKEGAARD, Sören Aabye, 1844. O Conceito Angústia. Tradução de Torrieri Guimarães. São Paulo: Hemus Livraria editora Ltda. 1968.
_________________ . Oeuvres Complètes X. Traduction par Paul Henri Tisseau et Else-Marie Jacquet Tisseau. Paris: L’Orante. 1973.
__________________ . Diário. 12 vols. Brescia: Morcelliana. 1980.
MARTÍNEZ, Luiz Guerrero. La Verdad Subjetiva (Sören Kierkegaard como escritor). México: Ed. Universidad Iberoamericana. 2004.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de fenomenologia ontológica. Tradução de Paulo Perdigão. RJ: Vozes, 1997. 5 ed.
[1] Mestre em Filosofia pela Unisinos.
[2] Com relação à “O Conceito de Angústia” faço uso da tradução de Álvaro Valls, que gentilmente cedeu seu trabalho, ainda em andamento, a partir da nova edição crítica.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.