Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Arte e filosofia - elucubrações do pensamento
Mariah de Olivieri

Ad se ipsum
Hvad er em Digter?...

Que é um poeta? Um ser humano infeliz que encerra em seu coração profundos tormentos, porém seus lábios são formados de tal modo que quando os suspiros e os gritos fluem por sobre eles, ressoam como uma linda música. Com ele acontece o que ocorria aos infelizes que eram torturados demoradamente, com fogo lento, no boi de Falaris, e cujos gritos não podiam alcançar os ouvidos do tirano para não assusta-lo; a este os gritos soavam como uma doce música. E os homens se reúnem em multidão ao redor do poeta e lhe dizem: Vamos, canta de novo, quer dizer, tomara que novos sofrimentos martirizem tua alma, e Oxalá teus lábios continuem sempre formados como até agora; pois o grito apenas nos assustaria, mas a música, esta sim é deliciosa. E os críticos se chegam e falam: Assim está correto, é assim que deve ser, de acordo com as regras da Estética. Ora, dá para compreender, um crítico de arte é exatamente igual a um poeta, só que não tem os tormentos no coração e nenhuma música nos lábios. Olha, por isso eu prefiro ser um pastor de porcos na Amagerbro e ser compreendido por eles do que ser poeta e ser incompreendido pelos homens.

Kierkegaard in Alvaro Valls

Existem questões que ocupam a empreitada humana em todas as épocas e, tal como o amor e a felicidade, arte e  filosofia estão inseridas nesse contexto. Podemos ilustrar a arte, como forma de pensamento e como conhecimento intuitivo do mundo. Arte implica tensão, algo que necessita ser trabalhado, investido, como um ideal que não é da ordem da posse, mas da procura. O mesmo ocorre com a filosofia, onde existe a busca incessante por respostas a questões que habitam os recônditos de nossa mente.

Em priscas eras, a arte era experimentada como encantamento e magia. A primeira teoria da arte foi à desenvolvida pelos filósofos gregos que propunham a arte como mimesis, ou seja: imitação da realidade. Porém, Aristóteles apontava no sentido em que se deveria abandonar o raciocínio no qual a arte seria uma mera imitação, ele propunha uma reinterpretação da mimesis, onde a arte não era apenas reles reprodução, era a invenção do real.

A arte é a transmutação da emoção em forma física, é o entendimento intuitivo com caráter de descoberta do mundo, para o artista e o espectador. O artista produz a arte e destarte o belo. O filósofo elucubra  a arte e o belo através do pensamento. O artista encanta, espanta, inspira e instiga aquele que observa sua obra. O filósofo traz à reflexão a questão do gosto, num desejo de sensibilizar, lapidando nossos sentidos. O filósofo cria teorias da arte, imagina gostos e os discute, o artista cria e produz sua obra para diversos gostos.

O artista intui a forma de expressar as suas idéias através de objetos ou imagens que transmitam o que habita em seu interior. O artista cria a arte como meio de vida, desejando que outros indivíduos saibam o que ele sente e pensa. O artista descerra os portais de sua imaginação quando executa uma obra de arte e amplia o campo de interpretação da obra acrescentando-lhe inusitado sentido, realizando através de indagações metafísicas a síntese criativa entre seu olhar e sua obra.

Do ponto de vista filosófico, a palavra estética originou-se do vocábulo grego aisthesis, com a significância de faculdade de sentir, compreensão pelos sentidos, que ocorre de maneira individual, concreta e sensível. A estética é um segmento da filosofia, que se ocupa com as questões tradicionalmente ligadas à arte; questiona o belo, o feio, o gosto, o estilo, as teorias da criação e da percepção artística, observando e dialogando com a emoção, o sentimento e a impressão que a obra provoca no indivíduo.

Contudo, a questão do gosto não deve ser encarada como uma preferência arbitrária e imperiosa de nossa subjetividade, pois quando o gosto é assim entendido, nosso julgamento estético norteia nossa preferência em função do que acreditamos que somos, não havendo espaço para o aprendizado, novas descobertas ou mesmo  à educação de nossa sensibilidade.

Devemos estar atentos em des-co-brir, des-vel-ar o objeto e entregar-nos às suas particularidades.  Nessa direção, urge que aprendamos a julgar sem preconceitos,  permitindo que cada obra molde, amplie e forme nosso gosto, estando atentos e abertos a explorar novos horizontes, saboreando e aguçando nossos sentidos.

A arte é um caminho que leva a regiões que o tempo e o espaço não regem; ela é o território do existencial, o abrigo poético onde pulsa a existência; é a irracionalidade do inconsciente manifestada, é o desejo de revelar algo que ainda não é.

Marcel Duchamp

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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