

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
ARTE
- INSTRUMENTO TRANSGRESSOR DO ARTISTA
Mariah de Olivieri
A criatividade é a fantasia aliada à realização. A criatividade e a estética são as dimensões que, mais do que qualquer outra coisa determinam nossa felicidade.
A criatividade resulta de fantasia e realização.
A estética é a disciplina que dá um sentido à coisa, que nos permite recuperar o sentido das coisas. Permite reunir os vários fragmentos de nossa vida.
Educação significa dar sentido às coisas.
Domenico de Mais – sociólogo italiano
No início dos tempos, a arte foi provavelmente experimentada como encantamento e magia, sendo considerada instrumento ritual[1], estando presente nos cerimoniais das tribos primitivas, que a desenvolviam na pintura e também na escultura. A primeira teoria da arte foi a dos filósofos gregos, que propunham a arte como mimese[2]. Os artistas, após o século XIX, tiveram seu trabalho reconsiderado.
Em relação ao efeito benéfico da arte, não podemos deixar de mencionar primeiramente, o pensamento de Aristóteles em sua Poética, que procurava demonstrar que a arte é verdadeira, tanto do ponto de vista epistemológico quanto do ponto moral (Feitosa, 2004, p.120). A ideia é de que se abandone o raciocínio de que a arte é apenas imitação; ao contrário, ela se dá por intermédio de uma reinterpretação da mimesis.
Aristóteles defendia a ideia de que a mímesis era natural ao indivíduo, não sendo apenas a imitação de objetos já existentes, mas com a significância de imitação de coisas possíveis, que ainda não têm, mas que podem (enquanto possibilidade) ter uma realidade. Nesse sentido, a arte não é apenas reprodução, mas invenção do real (Feitosa, 2004, p.121).
Aristóteles afirmou de forma determinista: Nós não podemos diretamente querer ser diferentes do que somos. (Durant, 1945, p.92). Todavia, a seguir argumenta, contradizendo seu determinismo, [...] que podemos escolher o que havemos de ser, escolhendo o meio que nos moldará (Durant, idem, p.93).
Prosseguimos com o adágio de Aristóteles: ele asseverava que a criação artística surge do impulso formativo e do anseio da expressão das emoções. O intuito da arte, não é a representação da exterioridade das coisas e sim sua íntima significação[3]. (Durant, 1945 p.93). A teoria da catarsis[4] de Aristóteles faz a sugestão da fertilidade inesgotável para a compreensão de si, do poder maravilhoso e curador da arte; ela não é apenas capaz de trazer conhecimento, a arte possui função edificante e pedagógica.
A expiação, que pode de súbito explodir em atos destruidores, é expelida sob a forma inócua da emoção dramática; desta maneira, a tragédia grega, por meio da piedade e do medo, efetua a purgação conveniente desse pathos (Ibidem, p.94).[5]
Desde meados do século XVIII uma doença terrível baixou progressivamente sobre a civilização. Dezessete séculos de ambição cristã constantemente iludida, cinco séculos de aspiração pagã permanentemente postergada – o catolicismo que falira como cristianismo, a Renascença que falira como paganismo, a Reforma que falira como fenômeno universal; o desastre de tudo quanto o indivíduo sonhara, a vergonha de tudo quanto ele conseguira, a miséria de viver sem uma vida digna que ele pudesse ter para si, e sem vida de outros que ele pudesse dignamente ter. Isso chegou nas almas e envenenou-as.
O horror à ação, por ter de ser vil numa sociedade vil, inundou os espíritos. A atividade superior da alma adoeceu; só a atividade inferior, porque mais vitalizada, não decaiu, e inerte à outra, assim viu a regência do mundo. Deste modo nasceu à arte[6], a partir de elementos secundários do pensamento, alcunhados de romantismo.
A noção de arte na atualidade, para o “bem e para o mal” dos artistas, confere a esta uma visão romântica e subjetiva; a obra de arte é considerada uma expressão, em especial uma demonstração do que se passa além do que os olhos vêem; em suma, é a expressão singular da emoção humana.
As almas nascidas para criar, numa sociedade onde as forças criadoras faliram, têm por único mundo plástico a sua vontade, a espiritualidade introspectiva da própria alma e seu poder de criação. Nas mãos do artista, o sentimento adquiri forma. Com palavras, o indivíduo pode curar sua alma ferida e, com imagens, exorcizar seus fantasmas.
A criatividade é uma pulsão vital. A obra de arte, como elemento transgressor, desobedece todos os estatutos conscientes; resignifica o banal e transfigurando-o em extraordinário; ao inserir novos paradigmas, acaba provocando reações inimagináveis.
No ato criador, o artista passa da intenção à realização, através de uma cadeia de reações totalmente subjetivas. A luta pela realização depende e se dá através de uma série de esforços hercúleos, mas também de decisões que não podem e não devem ser totalmente conscientes, pelo menos no que se refere ao plano estético; o resultado deste conflito entre consciente e inconsciente, é a diferença entre a intenção e a sua realização, uma diferença que o artista necessita aprender a distinguir.
Por quê criar então? Porque ele não pode parar, simplesmente não pode. Ele cria sua obra como que cumprindo um castigo e, o maior castigo é saber que o que cria resulta inteiramente fútil, falhado, incerto.
O valor do artista está em certas desigualdades de sentido, que revelam ao mesmo tempo, facilidade, vontade, exigência, poder de transposição e de reconstituição de sua obra. Nada disso pode ser encontrado nas coisas; e não haverá nunca a mesma em dois artistas.
Por isso uma obra de arte deve aspirar a forma e, acima de tudo, a expressão da emoção, que é a espinha dorsal da estrutura e o foco para o qual converge. A arte fala tanto à inteligência quanto aos sentimentos, sendo a legítima expressão material do que se passa no íntimo do artista.
O artista é auto poiético[7] (ele constrói a si mesmo), e só a arte é capaz de realizar todos os potenciais e sentidos do ser humano; é através dela que o artista consegue a real expressão de seu eu mais autêntico e profundo. A arte tem um poder, por assim dizer misterioso, mágico. Ela ilumina, trazendo luz à consciência.
O momento atual, na chamada “pós-modernidade”, não raras vezes produz a sensação de uma existência fútil, isenta de sentido. O que o artista não tem, não ousa, ou não consegue, pode possuí-lo em sonho; e é com esse sonho que ele faz sua arte.
A arte[8] é um impulso a agir e a viver, ela é a expressão intelectual da emoção distinta da vida, é a expressão volitiva da emoção. Algumas vezes, a emoção é tal ponto forte que, embora reduzida à ação, não satisfaz; com a emoção que sobra, o artista constrói a sua obra.
A arte no século XX[9] não teve nenhum compromisso em imitar a realidade, em traduzir simbolicamente alguma sabedoria, nem mesmo em provocar prazer ou satisfação. Desse modo a estética sob o aspecto de mera “ciência da sensibilidade” chega ao fim no século XX e é paulatinamente substituída por um discurso que conjuga racionalidade e afetividade de forma mais determinante. De agora em diante passa a existir um marcante interesse pelas questões do indivíduo e seu desenvolvimento dentro da sociedade.
Na atualidade, existe uma profunda crise no conhecimento, que acarreta cada vez mais inquietações. Nada pertence a nada. Existe um hiato, um vazio indeterminado clamando solução, este processo pode acontecer através da expressão artística.
Através da expressão artística acontece o resgate da capacidade bloqueada pelas convenções sociais. Sabemos que isto nem sempre é possível porque, em muitas ocasiões, o artista é esquivo de sua essência, pouco consciente do sentido de sua existência, temeroso ante o pavor e a graça de existir.
Urge que o artista busque outros paradigmas; ele necessita buscar a coragem no desespero, pensar de maneira sistêmica e percorrer de forma relacional os vieses da existência, fazendo com que toda a emoção se transforme em objeto.
A obra de arte nasce da vontade criadora. O artista é um poeta, fazedor de coisas que ainda não existem. A criação de uma obra de arte é uma experiência de ação poética, ou seja, a produção de objetos com significado expressivo e interativo, o artista tem em suas mãos a ferramenta.
A obra de arte possui a capacidade alquímica de modificar sentimentos e intenções, permitindo um contato que amplia os horizontes. A utopia habita cada artista, urge descobri-la.
Para compreender a poien[10] é preciso exercitar um olhar sobre o mundo, sobre como o artista é atingido pelas coisas que ele vê, sente e percebe. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que já teve.
Fazer uma obra de arte e reconhecê-la a não expressão de sua emoção, é uma das tragédias da alma do artista. Sobretudo, é uma grande tragédia, quando ele reconhece que essa obra é a melhor que podia fazer.
Por conseguinte, ele observa que no conjunto de reações que permeiam o ato criador falta um elo. Esta falha representa a inaptidão do artista em expressar integralmente a sua intenção e o seu sentimento, consistindo na diferença entre o que ele quis realizar e o que de verdade realizou; este é o coeficiente artístico pessoal, contido em sua obra de arte.
Em outras palavras: o coeficiente artístico pessoal é como uma relação aritmética, entre o que permanece inexpressivo, embora intencionado, e o que é expresso não intencionalmente; este é o mecanismo subjetivo que produz a obra em estado bruto. A arte é a poética do infinito, é a materialização da subjetividade.
O artista necessita de coragem para romper as regras impostas por toda uma vida de castrações, para que permita aflorar o melhor de si. Muitas vezes, observamos artistas com imenso potencial criativo, se arrastando pela existência, sem coragem de lutar para vencer a inércia que os dominam.
Ao cunhar uma obra de arte, o artista resgata partes obscuras e desconexas de seu ser; as imagens metafóricas são um protesto, uma resistência à consciência avassaladora da inexorável finitude que o habita. A obra não tem a consciência do objeto: ela é simplesmente a figuração de um princípio estrutural, de uma idéia ou emoção.
Ao criar uma obra de arte, é preciso saber de antemão, que ela pode ser imperfeita; ao criá-la e constatar que ela é defeituosa e falha, isso é sentido pelo artista, como tortura e humilhação do espírito. Muitas vezes o artista sente que sua obra não o satisfaz e não o satisfará. Ele sabe tanto filosoficamente, como espiritualmente, por uma antevisão obscura e gladiolada.
Quando o artista cria uma obra e mesmo estando “malfeita” a julga perfeita, ele sente que, por sua consciência, nunca mais tornará a ter o prazer falso de produzir uma “obra perfeita”.
A obra de arte é para o artista a memória inscrita nele, que se agrega à projeção das coisas como uma linha que se desenrola e avança, é o lugar de encontro atemporal, um conceito enquanto metáfora do que se apresenta; o artista ousa conjugar elementos díspares e disformes, através de sua obra, mesmo que isso seja aos olhos de alguns outros indivíduos, um sonho absurdo.
Existe um momento em que o artista, não se contenta mais em copiar os objetos ao seu redor, e assim, por uma íntima visão de sua capacidade criativa, ele deixa transparecer essa intimidade subjetiva, essa sensibilidade interior que habita sua alma, permitindo brotar de seu interior imagens e figuras, sejam elas odiosas ou sublimes; nesse ato, o artista concebe sua obra, como uma mãe ao dar à luz. Esta é sua seta em direção à redenção:
Forgijeves strider jeg imod...
É em vão que resisto. Meu pé resvala. Minha vida se transforma, não adianta, numa existência de poeta. Pode-se imaginar infelicidade maior? Fui escolhido; o destino ri de mim quando me mostra, de uma hora para outra, como tudo o que faço contra isso acaba por transformar-se em momento de um tal modo de ser. Consigo descrever a esperança de maneira tão viva que toda individualidade esperançosa quer reconhecer-se em minha descrição; e, contudo, é uma falsificação, pois ao descrever a esperança, estou pensando na lembrança (Valls, 2004, p.25).
Agir é criar, é reagir; é a vicissitude contra o que limita e castra. A inteligência de uma alma sensível[11] só serve para gerar a consciência da miséria de coexistir com tal sensibilidade, a chave é entender que isto é o suficiente.
O artista tem a consciência de que conseguiu através de sua criação fluir transversalmente, do efêmero instante que é a existência humana. Essa é a missão do artista, nela está contida a mensagem da existência, ele é criatura e criador simultaneamente.
Quando discorremos sobre a capacidade criadora, pode parecer que ingressamos em um universo “mágico”, habitado por indivíduos escolhidos pelos “deuses”; que possuem o “dom” da criatividade, comumente negado a maioria dos mortais. Começaremos por discorrer sobre o significado da palavra criar e criatividade. Criar: dar existência a; tirar do nada. Dar origem a; gerar, formar. Dar princípio a; inventar, imaginar. Criador: inventivo, fecundo. Criatividade: qualidade de criador
Podemos observar nesses vocabulários que a criatividade pressupõe um sujeito criador; isto é: um indivíduo inventivo que produz, dando existência a algo que não havia anteriormente. Para criar é necessário coragem para sair do seguro, do conhecido e assumir riscos ao propor o novo.
Compreendemos as dificuldades intelectuais que essa idéia pode gerar, para aqueles que se acostumaram a abordar o fenômeno criativo como uma manifestação do espírito. Pensamos que a grandeza do indivíduo não está só no espírito, mas principalmente na existência. E dito de forma mais pontual, a grandeza do indivíduo está em sua existência, pois sua grandeza é sua vida.
Porém, o protesto frente à posição elitista, está tomando força nesses tempos pós-modernos. Surge o conceito de curar através da arte. Magníficos arte-curadores, como Santiago Barbuy, Rolando Toro, Charles Franz, nos sinalizam que a criatividade é o curso natural do desenvolvimento humano:
O artista durante a execução de sua obra é muitas vezes confrontado com uma encruzilhada de opções a tomar. Ele deve construir destruindo, deve articular esses dados fragmentos ate que encontre pedaços, verdadeiros começos, com os quais ele possa enfim, constituir um caminho.[12]
A ânsia de todo artista é percorrer a vida por inteiro, ter a experiência de todas as coisas, de todos os lugares, acontecimentos e de todos os sentimentos vividos. Talvez isso seja impossível, porque a vida só subjetivamente pode ser vivida por inteiro, e só negada, pode ser trilhada em sua substância total.
Referências Bibliográficas:
FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. Rio de Janeiro:Ediouro. 2004, 196p.
DURANT, Will. História da Filosofia- Vida e idéias dos grandes filósofos. Tradução de Godofredo Rangel e Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional vol.1 6ª ed. A945, 519p.
VALLS, Álvaro Luiz Montenegro. Do Desespero Silencioso ao elogio do Amor Desinteressado. Aforismos, Novelas e Discursos de Sören Kierkegaard. (organizador, tradutor e apresentador). Porto Alegre: Ed. Escritos, 2004,102p.
[1] Ver para exemplo, as pinturas rupestres de Lascaux, Altamira, Niaux, La Pasiega.
[2] Termo grego que significa literalmente “imitação”.
[3] Temos nesta passagem uma visão antecipada do efeito “terapêutico” e transformador da arte, tópico a ser desenvolvido posteriormente.
[4] Termo oriundo da medicina e que significa literalmente o processo de purgação dos elementos perniciosos presentes no corpo (FEITOSA, 2004, p.123).
[5] Temos aqui uma formulação primitiva do poder “curador” da arte, mais especificamente a tragédia grega. Através da identificação com os personagens e seus dramas, existia uma “transferência e projeção”, dos dramas assistimos, conseqüentemente, existia a liberação da angústia por uma via indireta (o telespectador não participava ativamente do drama, apenas se identificava ao assisti-lo). Atualmente, existem várias formas de externar as emoções através de outras artes como a escultura, a pintura, etc. (FEITOSA, 2004, p.123).
[6] A obra de arte guarda uma certa autonomia de significações, que resiste a todas as tentativas de imposição de tarefas ou funções.[...] a obra de arte parece um touro bravo, pois é muito difícil forçá-la numa única direção (FEITOSA, 2004, p.126).
[7] Poiético, termo grego que deriva do verbo poein que significa “fazer”.
[8] A arte pode estar, às vezes, muito mais preparada do que a ciência para captar o devir e a fluidez do mundo, pois o artista não quer manipular, mas sim “habitar” as coisas (FEITOSA, 2004, p.128).
[9] De certa maneira é nessa direção que autores contemporâneos como Heidegger e Nietzsche, conduzem suas reflexões (IDEM, 2004, p.128).
[10] Poien: oriunda do verbo grego, possui a significância de fazer, gerar.
[11]A verdadeira arte, num mundo caótico e cruel, repleto de injustiças, deve ser capaz de provocar sofrimento, não pelo sofrimento em si, mas sim pela necessidade de provocar um choque na percepção do indivíduo esvaziado pela banalidade do cotidiano. Claude Simon – Prêmio Nobel Francês de Literatura.
[12] Flavio Gonçalves, O desenho e a infância das imagens, artigo da internet.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.