
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Baruch Spinoza
Mariah de Olivieri
Quanto maior é a
alegria que nos invade, tanto maior é a perfeição que alcançamos.
Spinoza
Baruch[1], nome hebreu que significa abençoado, (Benedictus, em suas obras publicadas em latim). Spinoza era de família judia de origem portuguesa, nasceu em 24 de novembro de 1632, em Amsterdã. Viveu dentro da chamada Idade de Ouro da história da Holanda, uma era de grandeza econômica, política e cultural, apoiada na expansão comercial, durante a qual, a pequena nação do Atlântico Norte rivalizou com as mais poderosas e influentes nações da Europa.
A natureza contenta-se com pouco – e não posso ser mais exigente que ela, assim proferia Spinoza. Nesse período, a qualidade de vida tinha um padrão geral de bem-estar marcado pela simplicidade, existia certa proximidade de nível entre as classes e respeito entre as pessoas, característica que não existia nos demais países europeus; isto é importante ressaltar, para compreender que Spinoza, seguindo sua própria filosofia, viveu simplesmente, o que na rica Holanda daquela época não significava pobreza e muito menos indigência. Seu pai era um comerciante abastado. Viveu em Leyden e depois em Haia, onde passou a viver de seu trabalho como polidor de lentes, ocupação que cobria grande parte de suas necessidades, pois o único luxo que se concedia, era a aquisição de livros.
Criado dentro do judaísmo, Baruch estudou a Bíblia Sagrada e o Talmude, o livro dos ensinamentos rabínicos. Pouco a pouco, o pensamento de Spinoza ia se delineando, revelando-se sempre mais clara a sua inconciliabilidade com o credo da religião judaica. Por mostrar-se irremovível em suas posições, em 1656 foi excomungado e banido da Sinagoga. A excomunhão isolou-o totalmente dos judeus, mas não o isolou dos cristãos.
O primeiro trabalho escrito por Spinoza foi o Breve tratado sobre Deus e a sua felicidade, em 1660, onde Deus é entendido como ordem eterna da natureza, uma só coisa com a própria natureza e com suas leis necessárias.
As coisas naturais seguem as leis comuns da natureza. Nada acontece na natureza que possa ser atribuído a um vício desta. Em Spinoza, a natureza é sempre a mesma, assim como suas regras e leis. Por toda a parte a natureza e suas leis são imutáveis. Para conhecermos a natureza das coisas, devemos seguir suas leis e regras universais.
Natureza naturante, ou melhor, naturada, é tudo aquilo que procede da necessidade da natureza de Deus, ou seja, cada um dos atributos de Deus, coisas que estão em Deus e que não podem existir, nem serem concebidas sem Deus. Natura naturans, é aquilo que existe em si e é concebido por si mesmo. Outrossim, são aqueles atributos da substância que expressam uma essência eterna e infinita, onde Deus é considerado como causa livre, ou seja, determinado somente por sua própria natureza.
De acordo com o raciocínio de Spinoza, na natureza não existe perfeição ou imperfeição ou mesmo bem ou mal. Tudo acontece sob o signo da necessidade mais rigorosa. O bem e o mal são apenas modos de pensar, noções que o indivíduo forma comparando as coisas entre si e referindo-as a ele mesmo. Desse modo, o bem é somente o útil e o mal o seu contrário. Em Spinoza, o indivíduo tem conhecimento de apenas dois dos atributos de Deus: 1. Extensão – onde os corpos são modos determinados pelo atributo divino da extensão, que consiste na expressão oriunda da essência de Deus como realidade extensa.
2. Pensamento - os pensamentos singulares são modos determinados do atributo do pensamento divino, que é a expressão originária da essência de Deus como realidade pensante.
A natureza age de maneira normal. O poder da natureza e as causas naturais ficam de lado quando Deus age. Nada é dado na natureza além da substância e suas sensações. Deus e a natureza são um; esse é o cerne da filosofia de Spinoza. Sendo Deus e natureza una, esta age necessariamente de acordo com leis invariáveis.
Spinoza parte de um novo conceito de Deus, onde este é visto como o centro. Tendo Deus uma nova significação, deste depende o original significado que dá ao indivíduo e a sua existência, tendo em Deus o eixo central. Tudo é dedutível a partir de Deus com rigor absoluto, só existindo uma única substância, que é precisamente Deus.
Deus é necessidade absoluta do ser, é causa imanente, sendo inseparável das coisas que dele procedem. Em Deus, Spinoza encontrou aquilo que buscava; a raiz de toda a certeza, a razão de tudo, a fonte da tranqüilidade suprema, a paz total. Deus é a substância com seus infinitos atributos; afirmava ser o mundo, uma conseqüência de Deus.
Em 1663, Spinoza publicou Princípios da Filosofia
de Descartes, obra expositiva dirigida a um jovem discípulo. Certamente já
trabalhava, nessa época, na sua Ética, obra-prima que só seria publicada
postumamente.
Vivendo num período em que os princípios de tolerância da sociedade holandesa
estavam ameaçados, Spinoza preferiu trabalhar no seu Tratado
Teológico-político. Essa obra foi publicada anonimamente em 1670, causando
escândalo.
Em 1673, foi convidado pelo rei Luís 2º a permanecer na França,
recebendo uma pensão. Uma cátedra para lecionar na Universidade de Heidelberg
lhe foi oferecida e também recusada. Spinoza preferiu a independência para
elaborar sua obra.
Spinoza afirmava que o maior dos bens é o conhecimento da união do espírito com o universo. Quanto mais o espírito sabe, mais compreende sua força e sua ordem da natureza; quanto mais compreende sua força, mais apto estará para dirigir-se e estabelecer suas regras. Quanto mais compreender a ordem da natureza, mais facilmente será capaz de libertar-se das coisas inúteis, pois só do conhecimento advém o poder e a liberdade.
Para Spinoza, existiam diferentes formas de conhecimento: o conhecimento por ouvir dizer (conhecimento empírico), o conhecimento por imediata dedução (obtido pelo raciocínio) e o conhecimento por imediata dedução e direta percepção.
Em Ética, sua obra mais importante, demonstrou, à maneira dos geômetras, a inteligibilidade de Deus. De acordo com Spinoza, espírito e matéria seriam apenas dois predicados da substância única, divina, de infinitos atributos. Spinoza reduz as duas primeiras formas de conhecimento a uma e denomina de conhecimento intuitivo à percepção das coisas (e suas relações eternas). Ele distingue a ordem temporal (mundo das coisas e incidentes) da ordem eterna (mundo das leis e da estrutura).
Spinoza ensina que os indivíduos acreditam serem livres só por terem consciência de suas próprias ações e ignorarem as causas pelas quais são determinadas. Acredita que as ações dos indivíduos não são livres e por tal fato, as ações que nos são prejudiciais não devem ser consideradas. A ordem é contrária ao espírito. O indivíduo opta por seguir ao sabor da fantasia e tecer a sua filosofia com sonhos; ele quer acreditar-se livre, quando em realidade não o é.
Por isso, enfatiza Spinoza: na verdade, as coisas perseguidas pelo vulgo não contribuem em nada para a conservação de nosso ser. Rubem Queiroz Cobra - Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia, afirma que Spinoza não só ensinou sua filosofia, como também que ele próprio a seguiu e viveu suas próprias máximas: Dos prazeres fazer uso só do necessário para conservar a saúde. Adquirir dinheiro ou outros bens só na medida necessária para subsistir e conservar nossa saúde e para adaptar-se a uma vida social que não seja contraria à nossos fins. Aceita a alegria como um bem em si e rechaça a tristeza porque nos deprime. Quanto maior é a alegria que nos invade, tanto maior é a perfeição que alcançamos.
Spinoza levou uma vida frugal, limitada por sua saúde frágil, vindo a falecer prematuramente, em 1677, aos 44 anos. Foi o autor da formulação moderna mais radical do monismo imanentista e panteísta. Seu pensamento, exerce ainda hoje, considerável influência.
[1] História da Filosofia II – Giovanni Reale e Dario Antiseri. Vol. I, 4ª Ed. Paulus, 1990.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.