
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Baruch Spinoza (parte II)
Mariah de Olivieri
Quanto mais alguém se esforça e quanto mais está em condições de buscar o seu próprio útil, isto é, de conservar o seu próprio ser, tanto mais é dotado de virtude.
Spinoza
A cultura de Spinoza era extraordinária e suas fontes de inspiração as mais variadas: filosofia tardio-antiga, escolástica, pensamento renascentista e, entre os modernos, sobretudo Descartes e Hobbes. Todas essas fontes foram fundidas em uma poderosa e nova síntese, que abaliza uma das etapas mais expressivas do pensamento ocidental moderno. Como podemos observar através da visão de Reale[1], Spinoza pregou como meta suprema do itinerário filosófico, a visão das coisas sub specie aeternitatis, que é uma visão capaz de libertar o indivíduo das paixões e dar-lhe um estado superior de paz e tranqüilidade. E, como nos dizem unanimemente os contemporâneos de Spinoza, paz, tranqüilidade e serenidade foram a marca de toda sua existência.
Em sua última obra, intitulada Filosofia Política, (interrompida subitamente, por ocasião de sua morte prematura), trata-se de uma obra breve, todavia, repleta de idéias inovadoras. Trata-se em verdade, de uma filosofia política que encerra as esperanças liberais e democráticas da Holanda e que se tornou uma das principais fontes de pensamento, que teve seu apogeu em Rousseau e na Revolução Francesa.
A ênfase de Spinoza nesta obra trata que toda a filosofia política deve basear-se na distinção entre a ordem natural e a ordem moral, isto é, entre a existência antes e a existência após a formação das sociedades organizadas. Spinoza supõe que os indivíduos já viveram em comparativo isolamento, sem lei ou organização social, afirmando não haver até então, um conceito do justo e do injusto; direito e força eram um só. Em uma sociedade organizada, a lei do poder individual (estado de natureza), cede gradualmente ante o poder legal e moral do todo.
A necessidade da lei decorre em função do caráter propenso às paixões nos indivíduos. Se todos os sujeitos se guiassem unicamente pela razão, esta lei seria desnecessária. A lei perfeita criaria para os indivíduos a mesma relação que a razão perfeita cria para as paixões: através da razão, haveria a coordenação das forças hostis, evitando desse modo a ruína e elevando o poder do todo. Spinoza adverte que na política, a razão é o estabelecimento da ordem entre os indivíduos. O Estado perfeito limitaria o poder dos cidadãos, unicamente à medida que esse fosse destrutivo.
O Estado não restringiria nenhuma liberdade, exceto para dar outra maior. Em suma, liberdade é a meta do Estado, porque sua função é promover o desenvolvimento, e este depende da liberdade. Spinoza tinha pela democracia uma discreta preferência, donde concluía ser a forma mais razoável de governo, porque nela cada indivíduo submeteria ao controle da autoridade suas ações e não seus critérios subjetivos.
Em relação às mulheres, Spinoza acreditava que essas não eram iguais aos homens em sua natureza, por não possuírem o mesmo grau de força na alma e as qualidades do espírito; podemos observar sua visão extremamente conservadora (onde está posto que a alma seja masculina?). A mulher caberia a submissão à força masculina, aceitando a sua corte (pois os homens só veriam na mulher o atrativo sexual). O homem deveria governar e a mulher ser governada, já que a ela nunca seria permitido exercer cargo político. Contudo, afirmava que nenhuma razão obrigaria a excluir as mulheres do governo; apenas que, segundo a “experiência”, a mulher, por ser fraca, deveria se submeter ao homem.
Em relação a isso, asseguramos tratar-se de um olhar tendencioso, que só enfatiza a disputa, em nada democrática, que ainda hoje tem guarida em alguns nichos de nossa sociedade. A divisão dos poderes, a submissão feminina e a supremacia masculina ainda teimam em sobreviver, por mais pós-modernos que nos julguemos. Enunciados existem para serem observados com a lente crítica de nossa consciência.
[1] História da filosofia II – Giovani Reale e Dario Antiseri. Vol. I. 4ª Ed. Paulus, 1990.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.