Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Benesses da pós-modernidade
Mariah de Olivieri

O segundo nó será a mão, transformar é o milagre.

Entre as coisas que encantavam a todos está a arte do ilusionismo, também conhecida pela alcunha de mágica. Hoje em dia a fama dos bons mágicos parece ter desaparecido dentro da cartola. Ninguém mais quer acreditar em coelhos e em fugas extraordinárias e em mulheres partidas que podem sobreviver aos talhos. Coisas puras e brancas e fofas não emocionam ninguém, o perigo mora sob a pele e as mulheres despencam fragmentadas do alto de saltos siliconados. Mas ouvi dizer que no desértico espaço entre dois centros comerciais um homem come jornais usados e arrota azulejos. Há nessa insistência, uma grotesca mágica sobre a felicidade.

                                                                      Fran

Muito se tem refletido e arrazoado sobre importantes temas que perfazem nossa existência: igualdade, democracia, ética, são palavras que habitam nosso cotidiano e ocupam nossa mente.

Hoje, desejamos ajuizar sobre lugares.

Um dos fenômenos que observamos nesses tempos pós-modernos está contido no absoluto fascínio que determinados recintos exercem no cotidiano dos indivíduos.

Um dos “ícones da pós-modernidade”, é o paradisíaco espaço denominado shopping-center. Parece-nos cabível propor algumas questões para assinalar esse fenômeno; trata-se antes de refletir, perguntar para fazer ver mais do que dar a questão por encerrada; são perguntas sobre como armar uma perspectiva para analisar esse fato.

Nossa abordagem se refere quanto à legitimidade desse lugar que ocupa um posto privilegiado na vida de grande parte da população. Cabe-nos parar por um breve instante e cogitar: afinal, que lugar é esse? Que tipo de efeitos esse recinto provoca na vida de seus freqüentadores?

O shopping é um ambiente que possui uma infinidade de objetos desejados, idealizados e apregoados necessários. Neste templo sagrado de consumo, nós cidadãos pequeno-burgueses, lutamos desesperadamente para sentir-nos inseridos no contexto social, através da aquisição de produtos que sejam a “última moda”, classificados como absolutamente imprescindíveis (geralmente desnecessários), que reforcem o nosso sentido de identidade e pertencimento.

O desejo de inovação nos faz ir a busca de novidades e últimas tendências, movidos pelo anseio em ser modernos, buscamos produtos, conduzidos por mensagens subliminares, isentas de critérios plausíveis.

Compramos por impulso, buscamos a distração de nossas dores e angústias através de prazeres instantâneos, incitados muitas vezes, pelo desencanto e palidez que habitam nossa existência; consumimos sem critério quando a emoção se sobrepõe à razão.

As incoerências desse imaginário são as mesmas da condição da pós-modernidade existente: a reprodução clônica de necessidades no afã de que satisfazê-las constitui-se um ato de liberdade e diferenciação.

Convivemos respectivamente com o espectro da pseudoliberdade de escolha, (esta sem limites), como afirmação abstrata da individualidade e o culto ao individualismo exacerbado.

O shopping é um lugar que incita o consumo do que se encontra ao alcance de nosso olhar e que realiza através da mídia, (com a “melhor” das intenções), uma absurda lavagem cerebral no imaginário dos indivíduos.

No entender de Beatriz Sarlo, (profa. de literatura, radicada na Argentina, que participou em Porto Alegre, como conferencista no evento Fronteiras do Pensamento), este monstro sagrado, denominado shopping center, é um lugar isento de identidade, simulacro de cidade e de serviços em miniatura, onde todos os extremos do urbano foram liquidados, não existe flora ou fauna, tudo é artificial.

Beatriz percebe o shopping como uma adequada “cápsula espacial”, acondicionada aos moldes arquitetônicos e estéticos desses tempos em que o critério do que nos é “imputado” passa ao largo; este recinto pode ser um paraíso ou tornar-se o nosso pesadelo.

Alguns indivíduos consomem: mercadorias, refeições, enquanto a outros só lhes resta cobiçar; aqui os sentidos valem mais que os significantes. A reflexão se coloca em segundo plano, o que não podemos esquecer, é em qual loja e prateleira está o objeto que nos fará ingressar no mundo dos “modernos”.

O shopping é um lugar sem origem e sem história, espaço desterritorializado, verdadeiro aglutinador de indivíduos, depositário humano artificial de seres ávidos por novidades e “últimas tendências”.

A exigência social do consumo por impulso, a aquisição de mercadorias muitas vezes supérfluas, faz com que realizemos hercúleas batalhas para adquirir esses objetos que muitas vezes não estão ao alcance de nosso orçamento.  Satisfazer nossas faltas, consumir, tornou-se a palavra de ordem.

Constatamos estarrecidos que a sofreguidão com que o shopping se impôs em nossa existência não teve precedentes em nenhuma outra mudança de costumes, nem mesmo neste século assinalado pela instabilidade dos valores humanos.

Em metrópoles que se fraturam e se desintegram, esse “abrigo” antinuclear é perfeitamente compatível ao tom de nossa época, ele apresenta o espelho de uma crise do espaço público onde é quase impossível construir sentidos. Na verdade, vivemos emparedados por bunckers que nos transmitem aparentes noções de felicidade e segurança.

Neste lugar sem passado, existe a ilusória noção de proteção; mera utopia, na verdade, estamos cada vez mais cercados por muros intransponíveis de incomunicabilidade; sempre que a força de nossas carências ameaça nossa existência, o shopping oferece o consolo de sua familiaridade.

Neste ambiente, não temos a noção de tempo, não distinguimos dia e noite, o clima (artificial) é sempre agradável. Suas luzes proporcionam a inexistência da sombra, dando adeus ao mistério; tudo é “às claras”, impregnado-nos da impressão de que somos “livres” para escolher; porém a verdade é que somos incitados a desejar e a adquirir mercadorias que nos trarão, por um curto espaço de tempo, a bem-aventurança e a ilusória noção de bem-estar.

O shopping é “todo futuro”: incita novos hábitos, dita tendências, vira ponto de referência e faz o indivíduo amoldar-se à sua presença, “educando” as pessoas a agirem em seu interior de forma “correta”. Porém, estamos cientes de que o adestramento não educa, só incitam o medo e a apatia.

Exercer nosso livre-arbítrio é fundamental para ganharmos grandeza em nossa dimensão anímica e sairmos deste lodaçal de futilidades e consumismo ao qual nos encontramos atolados. A manipulação existe e existirá para sempre, porém, cabe a cada um discernir sobre suas necessidades. Refletir, cada vez mais, se impõe como imperativo categórico.

Nosso futuro é incerto. Nos encontramos frágeis perante a inexorabilidade dos fatos: o shopping aqui está e veio para ficar. De concreto à nossa disposição, somente a “satisfação” de nossos apetites na praça de alimentação.

Todo tempo é tempo para realizarmos as mudanças indispensáveis que nossa consciência clama, essa deve ser nossa aspiração primeira. Urge desenvolvermos a capacidade de questionarmos nossas urgências com a dúvida do filósofo, e percebê-las com a sensibilidade intuitiva do artista.

Destarte, lembremos que nem tudo está perdido, afinal, o shopping tem estacionamento!

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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