

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Conhecimento
e transdiciplinaridade
Mariah de Olivieri
Vide bula
Sintomas:
Angústia, raiva, tédio, solidão, hipersensibilidade auditiva: qualquer som incomoda, principalmente os articulados. Coceira no canto da alma: tendência em potencializar o que há de sombrio e imagético no labirinto constitutivo da personalidade. Vontade desesperadora de ser outro, de preferência ninguém. Inchaço seguido de inflamação nas paredes vasculares que prendem o coração ao seu ritmo aterrorizante de vida. Entupimento das veias oníricas que irrigam o cérebro.
Diagnóstico:
Lucidez momentânea da condição humana.
Paulo de Tarso (Rogério de Almeida)
Observamos o advento de uma mutação sem precedentes na relação entre os indivíduos e o planeta. Alguns já assimilaram esse fenômeno, outros, entendendo ou não, estão sendo levados a acompanhar e digerir estas mudanças.
No século XVII, a relação entre o indivíduo e o mundo era embasada exclusivamente na estrutura do pensamento lógico, onde pensar era sinônimo de raciocinar; isso significava uma perspectiva de lidar com a existência partindo do princípio de que era possível compreender cada nuance da realidade em separado e de lidar com ela de forma satisfatória; esse enunciado vigorou até pouco tempo.
Durante um longo período prevaleceu o conceito “penso, logo existo”, Descartes (pensador francês do século XVII), ajuizava que bastava o raciocínio como condição do existir. Esta postura dogmática deu procedência a uma “arrumação” do conhecimento em disciplinas. As disciplinas procedem de uma visão de mundo unicamente lógica e racional, que compartimenta e engessa a existência, fragmentando a realidade.
No século XXI, o enunciado é outro: “existo e por isso penso, sinto, experimento e imagino infinitas possibilidades”. Pensar tornou-se uma atividade aguçada por múltiplas dimensões humanas, não só a do raciocínio. O indivíduo nessa pós-modernidade deve se esforçar no sentido de reaproximar o que o modelo cartesiano apartou: a interdisciplinaridade (a tentativa de integrar métodos e conceitos entre as disciplinas produzidos pela dimensão racional).
O indivíduo deve caminhar no sentido de buscar a transdiciplinaridade, num esforço de reaproximação com a existência, aludido nas últimas décadas no século XX. Trans significa ir além. Ultrapassar o modelo racional que “fundou” não apenas as disciplinas, destarte, o modo de lidarmos com o cotidiano. Nosso tempo solicita que a relação não se dê apenas entre disciplinas; isto é, que ela aconteça, sobretudo entre seres humanos, com todo o sentir, pensar e saber adequado. Arte, ciência e filosofia – circuito transdiciplinar trilhado na construção de nossa trajetória existencial.
O padrão trans de viver acolhe igualmente nossas diferentes inteligências, abre lugar para as diversificadas dimensões humanas, do orgânico ao espiritual, ou seja: tudo o que em nós é vivo e inteligente.
Edgar Morin, filósofo francês, um dos maiores expoentes da cultura do século XX, anunciou que para chegarmos a uma educação autêntica, “há necessidade de um pensamento que ligue o que está separado e compartimentado, que respeite o diverso e ao mesmo tempo em que reconhece o uno, que tente discernir as interdependências”.
Dilatando a noção de inteligência, alteramos o modo de produzir conhecimento. Amplia-se a forma como vivemos, produzimos e nos relacionamos, nos é dada à oportunidade de manter uma postura aberta, de respeito mútuo, uma atitude de reconhecimento em que não há lugar para preconceitos, onde nos seja permitido julgar e hierarquizar como o mais verdadeiro sistema de interação com a nossa realidade.
Para tanto, é necessária a reforma do pensamento em primeira instância. Necessitamos nos reciclar nesses tempos de desafios e incertezas que permeiam nosso cotidiano. Carecemos trilhar em busca de um mundo mais humano, solidário, marcado pela construção do conhecimento.
Trata-se do inter-relacionamento entre indivíduos na sua integridade inteligente isto é o que produz conhecimento. Uma ação transdiciplinar é em sua essência transcultural, isto é, contempla díspares modos de viver e estar no mundo, e não se extingue em contextos produzidos apenas pela racionalidade. Incluem imaginação, intuição, emoção e sentimento através da experiência real. É o exercício da unidade na diversidade.
Praticar a transdiciplinaridade consiste em manifestar riqueza de sentidos e explicar o mundo em suas diversas dimensões e experenciar cada instante com a fundura daquele que vive de forma radiosa cada momento de sua existência.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.