Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Educação e consciência (parte II)
Mariah de Olivieri

Educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que pouco sabem - por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais - em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais.

Paulo freire

Paulo Freire[1], brilhante pedagogo e educador, desenvolveu um trabalho que proporcionou o surgimento de uma verdadeira pedagogia democrática. Trata-se de um método educativo, voltado de modo fidedigno à libertação das classes populares, através da alfabetização. Suas ideias, absolutamente contemporâneas e revolucionárias, vão de encontro ao ideal de educação que todo mentor consciente, deseja que se faça presente nas escolas brasileiras. A pedagogia de Freire elimina pela raiz as relações autoritárias, onde não há uma escola ou mesmo um professor; o que existe são círculos de cultura, onde há um coordenador, cuja tarefa essencial é promover o diálogo. Afiançamos que tal metodologia deveria nortear o ensino no Brasil, contando para isso, com a participação efetiva de seus educadores, promovendo dessa forma, as transmutações absolutamente necessárias na educação.

Não podemos deixar de reconhecer com pesar que, embora revolucionário, tal método tenha sido pouco aplicado na prática escolar no Brasil. Em certos países do 3º mundo como Cuba, o analfabetismo foi erradicado. Mais recentemente, o mesmo ocorreu na Venezuela, Bolívia e Equador. A educação precisa ser fonte de mudança e libertação, pronuncia Freire; onde a educação libertária seja o fulcro do trabalho dos educadores, em vista de vivermos em uma sociedade intensamente cambiante e dramaticamente contraditória. Tal processo evolutivo educacional perpassa por uma transição da consciência ingênua (onde o indivíduo não tinha acesso à informação e poderia ser facilmente manipulado ou, por que não dizer, controlado), para um processo de desvendamento (onde a informação faz toda a diferença).

No entender de Freire[2], alfabetizar é conscientizar, libertando o indivíduo da ignorância castradora da falta de informação. Note-se que tal aprendizado deve estar intimamente associado à tomada de consciência, ou seja: uma pedagogia de indivíduos livres.

Em seu cerne, a visão educacional de Freire contextualiza a linguagem na direção de uma práxis social livre e crítica. Tal pedagogia estrutura a cultura, possibilitando a emersão de pensamentos autônomos, que não deve ser encarada apenas como uma idealização a mais no processo evolutivo libertário.

O processo educativo não pode se furtar de ter a visão e a ideia real do processo opressivo em que vive o indivíduo, devendo ser a expressão da ânsia e da luta por libertação e conseqüente evolução humana digna. A ideia de liberdade só adquire plena significação quando comunga com a luta concreta do indivíduo por libertar-se, onde a educação é apontada como caminho para que o cidadão adquira responsabilidade política e social.

Contudo, o campo de atuação de Freire era a pedagogia e não a política, como a elite dominante queria fazer valer. Freire não tinha a pretensão e, não poderia, como educador, substituir o político consciente (raros), que deveria estar interessado em conhecer e transformar estruturas precárias e arcaicas, em bases concretas e vanguardistas.

No perceber de Freire, a educação é centrada na conscientização da população, sem o menor interesse em minorias decadentes e arbitrárias. O cerne de sua labuta é na direção de acordar os indivíduos através da educação. Falar que educação e conscientização deveriam caminhar conjuntamente, é redundante e óbvio, pelo menos teoricamente. Insistimos que indivíduo não pode assistir passivamente seu aprisionamento, deve lutar por sua libertação, que ocorre através do saber.

Para que aja uma educação verdadeira, é necessária a participação ativa do indivíduo no processo construtivo do ser. Conscientizar é esclarecer, é buscar a plenitude da condição humana, um direito de todo cidadão.

O método pedagógico de Freire é, fundamentalmente, uma prática que conscientiza e politiza simultaneamente. Freire não pressupõe que a educação consciente salve o indivíduo da ignorância, contudo, crê piamente que, através da verdadeira educação, o indivíduo possa salvar-se dele mesmo e de sua total inabilidade para lidar com suas contradições, que inúmeras vezes o impedem de avançar em sua existência.

A conscientização é a porta para o aprofundamento do entendimento da existência humana, da realidade, do mundo e da sociedade. É através da tomada de consciência, que o indivíduo des-co-bre sua realidade, passando a entender que só depende de si transformar e humanizar seu cotidiano; e que é preciso conhecê-lo para transformá-lo.

Para que tal aconteça, urge que o indivíduo adquira consciência crítica de sua existência, partindo e objetivando a transformação, tendo uma atitude transmutadora de sua realidade. O indivíduo deve entender suas razões, sua realidade e seu eixo social; só dessa maneira o mundo se humanizará e deixarão de existir a opressão e a ignorância. Só assim o mundo se tornará um lugar de encontro.

Freire afirmava sabiamente que o indivíduo, histórica e ontologicamente, não é um ser para adaptações e sim, indiscutivelmente, para transformações. Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.

[1] FREIRE, Paulo. (1979). Educação como prática da liberdade. 17.ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

[2] ______. Pedagogia do Oprimido. (1983). 13.ed. Ruo de Janeiro, Paz e Terra. (Coleção O Mundo, Hoje,v.21).

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


Fale Comigo

voltar