Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Emancipação e liberdade
Mariah de Olivieri

Atuar é apropriar-se das histórias, das palavras que as compõe, das imagens que são reveladas, dos sentimentos vividos pelos personagens, alegrias, tristezas, amores e medos.

Tornar a história viva é uma vivência de entrega e coragem, é respirar fundo, chamar o contador de histórias interior e mergulhar no mistério.

Sílvia Ramos

Vivemos em uma sociedade assinalada por contrastes e de difícil compreensão. Observamos com “curiosidade” o processo tecnológico das ciências que desejam desvelar os segredos da natureza, proporcionando a satisfação de quaisquer interesses possíveis. Destarte, boa parte dos indivíduos, está reduzida a simples espectadores desse avanço técno-científico e vivenciam problemas aparentemente sem resolução, nos mais diversos setores.

Dessa forma, o progresso prenuncia anular o que supomos ser o seu próprio objetivo: a idéia de indivíduo. A emancipação da humanidade, o seu poder de crítica e de criatividade se encontram seriamente ameaçados em razão do desenvolvimento do sistema, ou seja, este substitui os fins pelos meios, transformando o raciocínio em instrumento de manipulação para atingir os “fins”.

A sociedade em seu contexto se encontra em evidente decadência e adoecimento: milhões de indivíduos vivendo em estado de miséria, fome e injustiça. Percebemos estarrecidos os avanços das desigualdades sociais, onde opulência e escassez convivem paralelamente com a abundância de poucos; neste momento, uma pergunta não abandona nosso raciocínio: será a idéia de liberdade, de uma sociedade justa, uma simples utopia?

No século XVIII, o movimento iluminista almejava erradicar dos indivíduos o temor tornando-os senhores de si, sujeitos ativos na história. Será que na contemporaneidade esse objetivo foi atingido? Podemos considerar nos dias atuais, o indivíduo senhor de si mesmo?

No intento de aclarar tais questões, lançamos um olhar ao adágio de Karl Marx, um dos pensadores que mais influenciaram a história da humanidade, com suas considerações tão embebidas de contemporaneidade, para aqueles indivíduos ávidos por liberdade e justiça.

Para compreendermos o tipo de sociedade que hoje contemplamos, urge que rememoremos os meandros do desenvolvimento de nossa cultura, afinal, o indivíduo é ao mesmo tempo causa e efeito, sendo fruto dela.

Os indivíduos não viveram sempre da mesma forma, nem tiveram sucessivamente os mesmos valores e ideais; eles vêm construindo sua história ao longo dos séculos. A maneira de viver do indivíduo mudou, acompanhou o processo histórico, variando de época para época, de lugar para lugar. De similar forma é a cultura, que também possui a sua história.

Ao longo dos séculos, a estrutura da cultura foi adquirindo as mais variadas formas. Na Idade Média o indivíduo era considerado criatura divina, se definia na relação com o absoluto, com o transcendente. Nesse período Deus era o centro de tudo.

A partir da Idade Média, a estrutura da cultura sofreu uma transformação, o indivíduo não era mais visto como criatura, e sim como criador da natureza na qual se encontrava. Assim, o indivíduo começou a edificar novos valores, tornando-se céptico e questionador, não se admitindo mais como simples ente, resgatou o dom da criação.

A burguesia se encontrava na iminência de consumar seu processo revolucionário, e o desejo de liberdade e o liberalismo se impunham de forma absoluta. A Revolução Francesa assinalou simbolicamente a afirmação da humanidade, igualdade e liberdade entre os indivíduos, através da luz da razão e da livre iniciativa.

Dentro dessa visão igualitária, Karl Max e sua filosofia são os paradigmas em torno dos quais órbita o indivíduo em nosso século, ávido por individuação e liberdade.

Max afiançava que: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.

A valorização da auto-reflexão como forma de emancipação do indivíduo traz a verdadeira liberdade, personificada na crítica lúcida à modernidade e a seus efeitos. A filosofia de Max nos enseja a desmitologização, a almejarmos um mundo mais humano, justo, livre e autônomo, para que tornemo-nos indivíduos, sujeitos ativos de nossa história.

Destarte, para que tal ocorra, se faz necessário à emancipação da coletividade como um todo, onde a sociedade se veja livre das desigualdades e das injustiças sociais; o processo de conscientização ocorre de modo individual e deve estender-se à coletividade para que o indivíduo se torne apto à conquistar a almejada liberdade de pensamento e de ação.

Sabemos que ao longo da existência, o indivíduo foi imolado por sistemas ideológicos que o conduziram à nulidade e apatia, esse é o grande feito da sociedade moderna. Prevalece a idéia de que o saber é mais técnico do que crítico e a razão objetiva perdeu a sua confiança.

A razão tornou-se instrumental porque só estava apta a identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos e meios adequados para alcançar os fins estabelecidos e controlados pelo sistema. A razão tornou-se o revés de suas metas; ao invés de libertar, aparece como ideologia e mito.

O capitalismo é na atualidade o modo de produção hegemônica no mundo, sua lógica e suas exigências surgem como se fossem expressões de uma naturalidade necessária e inexorável. O modelo científico apadrinhou o iluminismo. Esse mesmo modelo assumiu no conjunto da sociedade a forma direta de exploração, manipulação e domínio.

O crescimento das ciências subjugou o indivíduo, tornando-o submisso, isento de identidade e seriamente ameaçado em sua liberdade. Questionamos: qual o significado que daremos à nossa existência se persistirmos a desequilibrar perigosamente nossos instintos? O que podemos fazer para dar um rumo satisfatório à nossa vida e a de nossa sociedade?

Não temos dúvida quanto à infeliz constatação de que o selvático modelo capitalista proposto e imposto como exemplificação de “liberdade” está destruindo a humanidade. E assim vamos “vivendo”, em um verdadeiro processo antropofágico.

Tempos de crise são os melhores momentos para refletirmos sobre nossos propósitos. Há um enorme desafio neste momento crítico que a civilização está vivenciando: o que podemos fazer para dar um novo rumo à nossa existência e conseqüentemente à nossa sociedade?

Acreditamos piamente que o processo de transformação e emancipação se inicie pelo discernimento e reflexão. Não podemos mais permitir a manipulação e o subjugo por um sistema onde a não-individuação, a massificação, a desigualdade e a não singularidade são palavras de “ordem”.

Cabe-nos distinguir o certo do duvidoso, através da análise crítica do que nos é ofertado como “verdades absolutas”. Por isso a reflexão, a atitude ética e o aprofundamento através do pensamento como parte inerente ao processo evolutivo. Só seremos livres se nos permitirmos arriscar nessa busca.

A tarefa da crítica parece-nos fundamental enquanto resistência.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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