Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Filosofia e Literatura
Mariah de Olivieri

A correspondência íntima da serpente

Vivia-se numa cadeia de lençóis

O centro acompanhava um tanque

Ela nunca sentiu mistério no leva e traz dos panos

A percepção é a cama dos poros dilatando o caminho do suor

O dia é branco

 Azul em cima

Curto embaixo

A noite é branca

Funda em cima

Negra embaixo

Era só mais uma idade querendo me esquecer

Precisava que o mês sangrasse todos os homens

                                                                                                 Fran

 

            A especificidade da história, conteúdos e temas filosóficos pode ser considerada uma das diretrizes básicas da prática de instrução de Filosofia no Ensino Médio. No entanto, isso não significa deixar de lado outras metas e estratégias que possam complementar essa orientação, convidando-nos a suplantá-la no processo inacabado e de mão dupla de ensinar Filosofia e exercitá-la.

            De tal modo, no programa dos cursos, pode-se reivindicar a incorporação de práticas de ensino, contemplando-se propostas contemporâneas como, por exemplo, a aproximação entre os textos e temas filosóficos com outros campos e temas disciplinares.

             Nosso pensamento é que Filosofia e Literatura peregrinem de mãos enlaçadas. Isso apesar de estarmos ciente que nesse caminho, com freqüência, sobrelevam ruídos e polêmicas entre aqueles que lecionam e teorizam sobre o papel da Filosofia no Ensino Médio.

            No âmbito geral, longe de ser consensual, esse alvitre suscita dificuldades por se considerar, de acordo com a tradição, que a natureza e a identidade da Filosofia e da Literatura são díspares. Contudo, seria possível afiançar, sem fresta a ajuizamentos, que a razão metafísica ou empírica, a racionalidade, a lógica e a pragmática histórica, teriam adjacências tão longínquas da palavra metafórica, da Literatura, da poesia, dos registros da estética do proferir e do ajuizar?

             Estamos convictos que uma proposta nesses moldes é capaz de sensibilizar os estudantes em direção ao cultivo desses campos da expressão humana, sendo este, aliás, um dos objetivos primordiais a acossar,  ainda que prevaleça uma interpretação herdeira de uma ruptura desde as origens entre a Filosofia e a literatura, em ampla parte oriunda do banimento dos poetas da Polis ideada por Platão, no diálogo A República, onde a primeira é concebida como filha da polis e a segunda conexa ao mito. Intricado é negar que na história de ambas são encontradas produções reveladoras da inquietação com congregá-las.

            Em súmula, produções literárias vivem entreabertas às inquietações filosóficas e, contrariamente, outras há com sujeição designadamente filosófica que nem por isso negligenciam as formas literárias de dizer e elucubrar.

            Para tal avaliação, basta um olhar apurado sobre compêndios críticos voltados à interpretação dos espólios de poetas estrangeiros ou pátrios, para se dirimir as incertezas a respeito de decursos intelectuais na direção da Filosofia: ajuíze-se, como exemplo, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, entre outros. Ficam explícitas as estreitas conexões instituídas entre Filosofia e Literatura quando nos reportamos às obras de Hannah Arent, Gaston Bachelard e Miguel Foucault.

            Nesse mote, não podemos esquecer Jean-Paul Sartre, para o qual a relação entre Filosofia e Literatura foi de suma importância, donde os cruzamentos entre Filosofia e drama, romance, e, inversamente, do dramático e do romanesco com a concepção filosófica nas atividades de romancista, dramaturgo, ensaísta e tratadista. O que podemos proferir então, dos estudos que acenam a influência do existencialismo na obra de Clarice Lispector?

            É perante esse intercâmbio não permanente, porém cíclico, exuberante em registros culturais múltiplos, que somos impelidos à exigência de perfilhar que, numa aproximação mais contígua, torna-se impraticável negar que Filosofia e Literatura têm em comum não somente o caso de existirem em obras de linguagem, como também o fato de disporem, cada qual de seu modo singular, de bons momentos em que as possibilidades de interlocuções são proporcionadas.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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