
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Filosofia e
Psicanálise - A
angústia na visão de Lacan
Mariah de Olivieri
Table rase. Je` ai tout bsblsyé.
C`en est fait. Je me dresse nu sur la terre vièrge, derriére le ciel à repeupler.
Nouvieller Nourritues
Estamos inteirados de que a projeção do Eu numa introdução à angústia foi ambição, a algum tempo, da filosofia existencialista desenvolvida primeiramente por Kierkegaard; outros filósofos como Gabriel Marcel e Heidegger, se ocuparam desse fascinante tema; porém, nem todas as teorias têm o mesmo lugar nem são igualmente utilizáveis.
Em se tratando do sentimento de angústia, é imprescindível abordar a teoria desenvolvida por Jacques Lacan[1], que se preocupou em saber onde está angústia de verdade e que representou para a psicanálise, o mesmo que Kierkegaard para a filosofia.
A angústia é um dos conceitos mais importantes da teoria psicanalítica e desempenha um papel preponderante tanto em relação ao desenvolvimento da personalidade como também na dinâmica de desenvolvimento desta e possui significado central na teoria Lacaniana das neuroses e psicoses e dos tratamentos desses estados patológicos.
Ater-nos-emos aqui, todavia, a examinar o papel da angústia no indivíduo de personalidade considerada dentro dos padrões normais da personalidade isto é, o indivíduo comum, angustiado simplesmente.
Lacan desenvolveu O SEMINÁRIO – a angústia livro 10, no início da década de 60, em uma época em que o ambiente cultural europeu – e principalmente a França, encontrava-se impregnado pelo pensamento existencialista, que havia proliferado deveras no segundo pós-guerra.
Enfocar a problemática da angústia era para Lacan observar o que a Filosofia, pelo viés do existencialismo, dizia a respeito. Assim, Lacan se apropriou e muito do discurso filosófico; porém sua retórica apenas simulou esta aproximação, para, logo em seguida, tomar outra direção, a psicanalítica. Esta foi uma maneira inteligente de Lacan lidar com a questão da angústia. A primeira reação à forma leve de angústia Lacan denominou de embaraço.
O que é a angústia? Para Lacan, contrário à Freud, a angústia não é uma emoção e sim um afeto. Trata-se do desejo e o afeto através do qual somos solicitados. Freud posicionou a angústia como um sinal de algo, já Lacan nos afiança que a angústia é um afeto.
No sentido lacaniano, o desejo de desejo é desejo do Outro. É um objeto a que deseja. É o Eu te desejo, mesmo sem saber. A falta sempre pressupõe um vazio, que pode ser preenchida de várias maneiras; quando não atendida surge à angústia.
As proposições iniciais de Lacan, como não poderiam deixar de ser, partiram do texto princeps O conceito de angústia, de Kierkegaard. Esta não foi a única remissão de Lacan à Kierkegaard; posteriormente, Lacan voltou a debruçar-se sobre o pensamento de Kierkegaard através do texto A repetição.
A tradição filosófica Kierkegaardiana, que situa na existência o ponto de partida de toda a reflexão sobre a angústia, ostenta implicitamente uma posição crucial no Seminário 10. Em muitas passagens da obra lacaniana, pode-se notar a influência e o uso das concepções de Kierkegaard.
Para Lacan, a angústia surge de uma ansiedade profunda, muitas vezes com significado oculto e inconsciente, mas que, todavia existe, enquanto afeta o sujeito.
Lacan afirma que existem concepções do inconsciente que são padecidas pelo indivíduo; estas formações irrompem de modo inesperado, atropelando emocionalmente o sujeito, abalroando-o de angústia.
Assim, o sujeito angustiado está paralisado, sentindo-se em um abismo profundo; portanto, o sentimento de angústia está intimamente ligado a um objeto; para Lacan a angústia não é sem objeto[2].
A constituição do sujeito está direta e filosoficamente ligada à questão da angústia existencial. Assim é que, o modo lacaniano de pensar a constituição do sujeito, imediatamente remete à questão meandrosa da construção da identidade e atribui à angústia um caráter existencial.
O sujeito que diz angustiar-se sem um objeto definido, vivencia o caráter existencial da angústia.
Segundo Lacan[3], o indivíduo não pode desdizer sua angústia. O significante engana, mas a angústia é aquilo que não a faz – quer dizer, é aquilo que fornece certeza. Como já mencionado anteriormente, a angústia é a certeza palpável. Portanto, aqui Lacan introduz de imediato o seguinte esclarecimento: a ação é aquilo que subtrai certeza da angústia, apropriando-se dela[4].
A angústia possui um grau de esmagadora certeza, é o real. Enquanto está envolvido em uma ação – não qualquer, mas daquelas que são impulsivas e irrefreáveis, o indivíduo se situa num patamar prévio à angústia, para não ficar preso nela.
Lacan[5] afirma que angústia é o medo do que não se conhece, do que não se domina. O desenvolvimento do sentimento de angústia não obedece a um itinerário linear e progressivo, pois cada indivíduo é único e singular, e neste sentido, sente a angústia a seu modo.
O conceito de angústia lacaniano implica em uma ordem acentuada daquilo que é a angústia propriamente dita, já que, simbolicamente, não tem a referida conexão verdadeira; neste ponto, Lacan apóia seu pensamento em Kierkegaard.
A angústia não é sinal de uma falta, mas de algo que devemos conceber num nível duplicado, por ser a falta de apoio dada pela falta.
Lacan salienta que a angústia é um sinal, a ponta do iceberg; por possuir um grau de esmagadora certeza, é a única conexão com o real, e constitui a única apreensão de toda a realidade. É da angústia que a ação retira sua certeza.
Agir é arrancar da angústia a própria certeza. Acreditamos que a obtenção desse propósito envolve a aceitação e a compreensão dos desafios que são freqüentemente colocados diante dos caminhos existenciais a serem percorridos por cada singularidade.
Não pretendemos aqui, de forma alguma, esgotar esse fascinante tema, pois tal seria impossível. A angústia será sempre nossa eterna companheira, por mais que dissimulemos, neguemos e abominemos sua existência; estamos cônscios de que o processo de crescimento humano é contínuo e implica, invariavelmente, em angústia.
Referências bibliográficas:
HARARI, Roberto. 1997. O Seminário A Angústia de Lacan: uma introdução. Tradução de Francisco Settineri. Porto Alegre: Artes e Ofícios ed., 1997.
[1] Harari, 1997.p15
[2] Harari, 1997.p 40 a
[3] Harari, 1997 p. 42 b
[4] Harari, 1997, p.48 c
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.