Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Filosofia e Psicanálise IV - A função terapêutica da angústia existencial
Mariah de Olivieri

O Cortador de Pedras

“Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o Cortador de Pedras martelando sua rocha, talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei, que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as outras, que vieram antes.”

Jacob Riis

A angústia cala fundo. Seja em nossa alma ou em nosso corpo, sua presença em nossa existência é bombástica. A maioria dos indivíduos nem sequer supõe a importância positiva que a angústia possa ter em sua trajetória de vida. Urge que desenvolvamos um novo olhar sobre esse que é considerado um dos grandes entraves psicológicos do ser humano. Para tal, traçar algumas noções a respeito do papel profilático desempenhado pela angústia no cotidiano.

Urge que busquemos investigar seu real significado, para que através da ampliação de nosso olhar, possamos desenvolver uma nova compreensão acerca do papel terapêutico da angústia.

Sabemos[1] que em algumas pessoas mais propensas, o sentimento de angústia se manifesta com freqüência; em outras, ele é ocasional. Geralmente o indivíduo possui algumas recordações traumáticas do que sofreu em sua infância e das sensações desagradáveis provocadas por esse pathos. Existem ainda, indivíduos com maior sensibilidade, que sofrem incessantemente, de maneira profunda e irremediável e, por mais que lutem contra, não conseguem se livrar desse tormento; nessa categoria estão inclusos os filósofos e os artistas.

Destarte, a angústia possui um papel decisivo na vida de determinados tipos de personalidade e acaba sendo a mola propulsora de manifestações internas, de construções filosóficas e expressões artísticas.

Muitos artistas, não têm consciência do fator determinante da angústia em suas inspirações e criações, e não possuem a menor clareza de seus sentimentos; apenas expressam, através de suas obras, o que reside em seus inconscientes; contudo, indivíduos que têm consciência de sua angústia, relatam que prefeririam à morte ao invés de serem invadidos por essa sensação.

Podemos experimentar sentimentos tão fugazes de carinho, raiva ou temor, que estes jamais invadem a consciência, e tão passageiros, que podemos esquecê-los imediatamente. A rigor, estes sentimentos mesmo que mínimos e transitórios trazem em si uma intensa força dinâmica. Porém, quem amargou na angústia, não esquece.

O essencial desta questão é que o grau de consciência de um sentimento não indica de modo algum a magnitude de sua força ou importância[2]. E quanto à angústia, isto só significa que ela é suscetível de ser um fator determinante na vida do indivíduo. Assim, o sujeito pode estar angustiado sem o saber e sem que possa ter a mais célere consciência do que ocorre em seu íntimo.

Ainda mais: parece-nos que nenhum recurso se mostre excessivo, quando o resultado for escapar da angústia ou evitar senti-la. Tal atitude obedece a múltiplas razões; a mais comum é que um dos afetos mais devastadores que o indivíduo sente é precisamente a angústia.

Este sentimento é sentido como que muitas vezes quase insuportável[3]. Por certo, o indivíduo pode ser ativo e corajoso frente ao maior dos perigos, mas pode sentir-se - e em realidade encontrar-se – por completo, imerso em um estado de angústia.

Outro elemento próprio da angústia é manifestado por seu caráter irracional. Deixar-se governar por qualquer fator irracional, resulta mais insuportável a alguns indivíduos do que a outros; em especial, a aqueles que, em seu âmago, percebem o secreto perigo de serem atados a essa desordem irascível e que tenham apreendido a exercer sempre, de forma automática, um estrito domínio intelectual sobre si mesmo.

Assim, esses indivíduos não toleram conscientemente nenhum elemento irracional; reação que embora tenha seus motivos individuais está implícita a influência do fator cultural, visto que nossa tradição outorga um valor máximo ao pensamento e a conduta racional, considerando como inferior a irracionalidade, quando se apresente como tal.

O último dos elementos que discernimos nesta análise da angústia está, em certa medida, vinculado com o anterior. Precisamente por sua irracionalidade, a angústia é uma advertência implícita de que algo anda mal no indivíduo, e, portanto, alerta que ele deve fazer algum ajuste em seu mecanismo. Não é que o indivíduo a perceba conscientemente; inúmeras vezes, a angústia surge a guisa de uma advertência, porém de um modo tácito, e assim o é, quer ele a aceite como tal ou não.

Ninguém gosta de semelhante convite, e inclusive se poderia dizer, que nada desperta no indivíduo tanta contrariedade como compreender que deve modificar alguma atitude. Entretanto, quanto mais desesperadamente um indivíduo se sinta completamente envolvido pela rede de sua angústia e de seus mecanismos de defesa, tanto mais ele procure agarrar-se à ilusão de que está certo e de que é perfeito em tudo, tanto maior será a energia com a qual repudiará qualquer subordinação – ainda que esta seja só indireta ou tácita – de que algo não anda bem em si e clama por ser modificado. 

Agora nos voltemos à questão inicial: qual o papel terapêutico do sentimento de angústia na existência do indivíduo?

Carecemos investigar essa emoção.

Kierkegaard[4], filósofo que tratou brilhantemente desse tema, profere que a angústia é um sentimento benéfico e educador que permite aflorar o melhor de cada ser humano. A angústia auxilia o indivíduo a se tornar quem ele deve ser e a elaborar quem ele é em realidade, onde se encontra existencialmente e para onde deve rumar em sua vida, para tornar seu espírito verdadeiramente grande.

Kierkegaard enseja que o phatos de individuação, tão necessário para a construção de si mesmo, só se adquire enfrentando o sentimento de angústia inerente a esta tomada de atitude; afirmava não há opção sem angústia.

Com propriedade sustentava que a angústia era melhor mestra que a realidade, visto que a realidade poderia ser evitada temporariamente, ao passo que a angústia é uma educadora que sempre está dentro de cada um e a qualquer momento pode mostrar sua face. Por mais improvável que nos possa parecer, para além da angústia existem preciosidades insuspeitas, habilidades criativas e artísticas, que só ousam se manifestar quando instigadas incansavelmente.

Nietzsche proferia que: tudo o que não nos mata, nos fortalece. Portanto, façamos do sentimento de angústia a nossa escola. Se, por um lado, ela assusta – quando observada mais atentamente – constatamos que nos proporciona à possibilidade de ser e existir, do enfrentamento com a vida e suas possibilidades, o encontro com o nosso eu profundo. A experiência da angústia é um divisor de águas. Nunca o indivíduo será o mesmo depois de se entregar a esta prova.

Deixar-se tomar pela angústia. Essa atitude irá propiciar o entendimento e a reconciliação com as partes negligenciadas de nossa consciência, para que possamos renascer sob uma nova perspectiva, sustentada em nossos desígnios mais densos e verdadeiros.

A experiência da angústia é um divisor de águas. Nunca o indivíduo será o mesmo depois de se entregar a esta prova.  A angústia existencial pode ser uma grande escola e propiciar o encontro com o mais profundo e autêntico querer do indivíduo, que o permite voltar para casa, percorrendo todo um caminho existencial que foi abandonado, e onde aos poucos, como na fábula de João e Maria, as pedrinhas eram deixadas como rastro, para lembrá-los do caminho de volta.  

Assim é a angústia. Ao mergulharmos nessa experiência, podemos reconstruir nossa rota. Ao recolhermos as pedrinhas de nosso caminho, constataremos que em cada uma está gravada uma qualidade autêntica que foi esquecida. A dor de percorrer essa estrada sem volta é a grande recompensa por nossa coragem em sermos indivíduos singulares; é a audácia de olhar para as opções existentes e escolher aquela que mais preenche os quereres de nossa alma. Angústia, este é o chamado.

[1]  MAY, Rollo; SCHATER, Stanley et al.   La Angustia Normal y Patológica. V. 196. Buenos Aires: Piadós, 1ª edición, 1968, 285p.

[2] Isto não é senão uma paráfrase do adágio básico de Freud, ou seja, a importância dos fatores inconscientes.

[3] Relato de pacientes tratados em terapia pela autora no consultório.

[4] Kierkegaard, Sören. O conceito de Angústia. Tradução de Torrieri Guimarães, ed. Hemus- Livraria Editora Ltda, São Paulo, 1968, 164p.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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