Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Fundamentos Históricos das Teorias sobre a Angústia existencial
Mariah de Olivieri

Mi alma está pesada que ningún pensamiento puede llevarla, ningún aletazo puede elevarla por los aires.

Si se mueve, se arrastra a ras del suelo, igual que vuelan los pájaros cuando barruntan tormenta. Sobre mi ser íntimo se incuba un abatimiento, una angustia que sospecha un temblor de tierra.

                           Kierkegaard

A angústia[1] do indivíduo, assim como os modos existentes para enfrentá-la, estão certamente condicionados por critérios que se encontram fixados, em termos de espaço e tempo, em determinado momento, no desenvolvimento de sua cultura.

Analogamente, as diferentes teorias da angústia, sejam a exposta por Spinoza no século XVII, por Kierkegaard no século XIX, ou por Freud, no século XX, poderão ser entendidas somente se observadas, cada uma delas, como imbuídas da tarefa de iluminar e corporificar as experiências produtoras de angústia no indivíduo, considerando-se o particular período histórico em desenvolvimento da cultura de uma determinada época.

Se angustiar é defrontar-se consigo, é a única condição existencial que permite ao indivíduo emergir do emaranhado de situações caóticas e que lhe proporciona o verdadeiro encontro com sua real identidade.

 A análise da angústia à luz de uma perspectiva histórica, que foi explorada primeiramente por Dilthey no século XIX, evidencia que não foram consideradas, em grande parte, as investigações psicanalíticas.

As exigências da situação do indivíduo na atualidade nos direcionam a compreender que não podemos contemplar de maneira superficial os aspectos psíquicos do indivíduo, os quais são primordiais para uma maior compreensão, a respeito do desenvolvimento da estrutura do caráter e sua relação com o sentimento de angústia.

Agora que admitimos de forma generalizada a importância central da dimensão cultural dos problemas psicológicos gerados pela angústia, podemos argumentar que a dimensão histórica seja a próxima área cuja importância seja reconhecida em nossa intenção por elucidar a problemática da angústia no indivíduo.

Nossa intenção, neste primeiro momento, é nos ocuparmos em discorrer sobre as contribuições que alguns filósofos deram sobre a teoria da angústia existencial; afinal, foram os mesmos que enunciaram e formularam o significado da angústia em suas épocas históricas.

Foram realizadas análises semelhantes dos aspectos econômicos, religiosos e artísticos das épocas em questão, que são compreendidas desde o século XVII até a atualidade.

A causa da relativa unidade da cultura na época afiançou que tais análises chegaram a conclusões muito semelhantes, de diversos pontos de vista. Contudo, salientamos que não serão consideradas as formulações filosóficas que seguem, nem como causa, nem como efeito, mas sim, apenas como a expressão do desenvolvimento cultural deste período histórico.

Porém, cabe aqui salientar que estes pensadores citados formularam suas teorias de acordo com os dados pesquisados em suas épocas históricas. Todavia, a situação histórica, quando observada mais especificamente, evidencia o fato de que passamos ao largo de investigações importantíssimas em se tratando do desenvolvimento da estrutura do caráter do indivíduo e sua relação com a angústia.

Os filósofos que se debruçaram sobre a teoria da angústia e que chegaram a ter expressividade para a sua época e para as subseqüentes, são os tiveram coragem e perspicácia de penetrar e enunciar o significado e a direção dominantes do desenvolvimento da cultura neste tempo.

Ao longo desse artigo, auferiu-se a percepção de que as formulações teóricas feitas pelos referidos filósofos dos séculos mencionados chegaram a ser de uso comum, posteriormente pela forma de pressupostos inconscientes, para um grande número de indivíduos dos séculos subseqüentes.

        Sabemos  historicamente que, na Idade Média, período que originou a Idade Moderna, o indivíduo  era considerado a partir de uma perspectiva coletivista. Cada cidadão, servo, sacerdote ou cavaleiro reconhecia seu lugar dentro da hierarquia eclesiástica e feudal e todas as emoções sentidas pelo indivíduo eram canalizadas em cerimônias comunitárias e religiosas.

Os valores de vida eram aceitos de forma lógica, assim como o modo de vivenciá-los, que eram acolhidos sem questionamentos ou discordâncias. Todas as emoções requeriam um rígido sistema de formas convencionais para serem controladas porque, sem um controle rígido, a paixão, a agressividade e a violência aflorariam de maneira incontrolável, e supostamente fariam grandes estragos na vida dos indivíduos, comprometendo a ordem social.     Podemos observar que o problema da angústia existencial é enfrentado em nossos dias de maneira diametralmente oposta; atualmente, existe toda uma cultura que direciona o indivíduo à extrapolação das emoções, através das mais diversas formas de terapias e expressões artísticas.

 Esta cultura afirma que as emoções e a conseqüente angústia, se não forem manifestadas e expressas, terão como conseqüência o prejuízo psicológico do indivíduo de variadas e irreversíveis formas.

Seguindo nossa investigação, observamos uma mudança de postura radical, com relação à expressão das emoções, que teve lugar no Renascimento. A Reforma Protestante, por sua vez, marcou o começo de uma nova e entusiasta crença no poder do indivíduo, juntamente com um novo interesse concreto e empírico pela natureza física.

Estas mudanças tiveram, obviamente, como resultado psicológico, o aumento da confiança do indivíduo em si mesmo, no sentido de que se apresentava, agora, a possibilidade de que seus problemas psicológicos fossem solucionados mediante sua própria coragem e através do conhecimento advindo de estudos e viagens, tendo unicamente como guia sua própria consciência em relação aos aspectos religiosos e éticos.

 Descartes, por exemplo, quando jovem, empreendeu uma viagem, do mesmo modo que hoje um indivíduo embarcaria em um programa de doutorado em filosofia. O método que chegou a ser o instrumento de uma nova devoção pelo conhecimento e pela razão individual, foi a matemática; a matemática arábica surgiu através dos mulçumanos e foi introduzida na Europa ocidental através da Espanha no século XIII.

O conhecimento e o controle da natureza física chegaram a ser o interesse dominante nesse período, entusiasmando o homem ocidental. O interesse por esse tema foi muito facilitado pela dicotomia entre o corpo e a mente, formulado por Descartes, com seu pensamento de que o corpo e a natureza física poderiam ser entendidos mediante as leis matemáticas e mecânicas.

 No período do Renascimento, em meados do século XVI, existiram alguns autores que expuseram idéias fecundas, as quais foram consideradas e aproveitadas na idade moderna, mesmo que infortunadamente, raras vezes se estudassem a conexão entre essas idéias, quanto aos métodos modernos que se ocupavam da relação mente-corpo.

Um desses pensadores foi Giordano Bruno, outro foi Jakob Boehme e um terceiro foi Paracelso.

A crença na capacidade racional do indivíduo foi o princípio intelectual diretivo desta revolução cultural, que iniciou no Renascimento e culminou com a derrota do Feudalismo e do Absolutismo e conduziu, finalmente, à supremacia da burguesia. Tillich chama de confiança a autonomia da razão, e Cassirer razão matemática, pois essa era concebida como o instrumento principal da razão no referido período.

Em contraste com o coletivismo medieval nos séculos XV e XVI, se enfatizou que cada homem era um indivíduo racional, que podia chegar à autonomia em sua vida intelectual, econômica, religiosa e emocional.

      No século XVII, continuação do período do Renascimento, a crescente ênfase na razão individual ganhou destaque e tiveram suas formulações filosóficas com os seguintes filósofos: Descartes, Spinoza, Leibniz.

 Este ciclo, cujo grupo de poderosos e fecundos pensadores incluíam Locke, Galileu e Newton, produziu idéias que dominaria a maior parte do período moderno.

Descartes, considerado o pai da filosofia moderna enfatizou a importância da razão individual e embasou a identidade psicológica do eu em seu famoso princípio penso, logo existo. Relata-se que Descartes, em uma manhã, se encaminhou ao seu jardim de inverno, com a intenção de elaborar um conceito básico para a sua filosofia e, pela noite saiu dali com o princípio formulado.

Essa passagem nos aponta que o pensamento individual era tão decisivo como um símbolo gráfico e nos aponta para a constatação de que o adágio centrado no indivíduo, foi sempre um aspecto do racionalismo oriundo do século XVII.

Podemos observar as implicações individualistas da afirmação cartesiana, de que a função do pensamento é à base da identidade e compará-la ao conceito contemporâneo que afirma que o indivíduo só conhece sua identidade e a reconhece como tal, dentro de um contexto social; a fim de corroborar com esse pensamento, podemos exemplificar essa situação: onde a criança se dá conta de que é ela mesma, quando se vê em relação aos outros membros de sua família.

           Acompanhando nossa linha de raciocínio, podemos inferir que Descartes, em sua investigação filosófica, fez uma aguda distinção entre a mente e o processo do pensamento, por um lado e do corpo por outro. Segundo ele, o pensamento tem intenção enquanto expressão, e o corpo e a natureza têm extensão.

Esta dicotomia entre mente-corpo foi nos séculos seguintes, segundo nosso entendimento, um dos pontos centrais na problemática da angústia existencial, trazendo para essa questão a afirmação cartesiana, de que o corpo e toda a natureza física, eram compreensíveis e controláveis através da função de leis mecânicas e matemáticas.

     Desse modo, estava apto o terreno a afirmação categórica de que os fenômenos eram passíveis de tratamento matemático e mecânico, segundo leis mecânicas e para a crescente supressão das experiências não mecânicas ou chamadas de irracionais.

A supressão de tudo que não podia ser racionalizado foi embasada e afirmada como causa e como efeito, com as necessidades da nova Era Industrial, subseqüente ao Renascimento. Tudo o que se podia calcular e medir tinha utilidade prática e, no prosaico mundo industrial, o que não era racional não tinha lugar, nem desfrutava de reconhecimento.

          Destarte, acreditava confiando cegamente na premissa de que o corpo e a natureza física eram matematicamente controláveis; esta máxima teve efeitos transcendentes enquanto dissipação da angústia no indivíduo naquele período e forneceu esperanças de dominação das ameaças reais advindas da natureza física, assim como também a promessa de uma enorme expansão das capacidades humanas em conseguir satisfazer as necessidades materiais dos indivíduos.

 Ambos postulados seriam amplamente justificados mais tarde com o grande advento e conseqüente progresso das ciências físicas e da industrialização.

Em suma, abria-se um caminho para liberar o homem de todos os temores irracionais, e para dissipar as angústias que aterrorizavam o indivíduo (demônios, bruxas e magia), que haviam sido fonte de crescente tormento e angústia nos últimos séculos da Idade Média, assim como durante o período do Renascimento. Um claro exemplo disso é que as perseguições às bruxas, que ocorreram ao longo do período do Renascimento até o início do século XVIII, superaram-se diante as formulações cartesianas.

          Spinoza deu o passo final no século XVII: tratou de fazer controláveis as emoções humanas através da razão matemática. Desse modo, brindou o indivíduo com uma ética em forma de geometria. Não nos atrevemos aqui a discorrer sobre a aguda compreensão psicológica de Spinoza, apenas assinalamos que ele antecipou quase palavra por palavra alguns conceitos psicanalíticos e psicossomáticos que surgiram mais tarde. Em troca, consideraremos a sua crença em que a angústia poderia ser superada através do uso correto da razão. Descartes acreditava que a angústia era essencialmente um problema subjetivo: Vi que todas as coisas que temia e as que por mim eram temidas não tinham nada de bom ou mal em si mesmas exceto a medida de como elas afetavam a mente (afirmava que o temor e a esperança sempre vêm juntos): O temor não pode existir sem esperança, nem a esperança sem o temor. Ambos estados são característicos do indivíduo que aprendeu o uso correto da razão.

O temor escreveu, surge de uma debilidade da mente e, portanto não permite o uso da razão. Em conseqüência (conclui), quanto mais nos esforçamos por viver sob a escolta da razão menos pretendemos depender da esperança, mais nos liberamos e nos tornamos livres de nossos temores; vencemos o destino na medida do possível e dirigimos nossos atos segundo os ditames certos da razão.

Observamos que as direções apontadas por Spinoza para vencer o temor eram compatíveis com a ênfase na razão de sua época, onde a máxima era de que as emoções não se reprimem, elas estão sujeitas à razão.

Na verdade, Spinoza sustentava que uma emoção poderia ser vencida com uma emoção contrária mais forte, e isso poderia ser realizado atendendo as ordens de nossos pensamentos e imagens. E, da mesma forma que devemos pensar usando a coragem como meio para superar o temor, devemos enumerar e imaginar os riscos comuns da vida e o modo que melhor podemos superá-los e vencê-los por meio da coragem. (A palavra certeza é a que se sobressai na obra de Spinoza a respeito do temor – a eliminação da dúvida – a esperança e o temor são possíveis se o indivíduo for guiado pela certeza da razão).

Será que acreditamos hoje, como Spinoza acreditou em sua época, que podemos obter uma certeza intelectual e emocional de forma racional? – Se podemos, por exemplo, ter tanta certeza a respeito de um problema ético como a respeito de uma proposição geométrica – isto pode resultar em uma insuspeitada segurança psicológica.

 A confiança na razão nos parece um tanto frágil e pouco sustentável aos indivíduos do angustiado século XXI. Portanto, para compreendermos a fé de Spinoza na razão, devemos recordar que o clima cultural em expansão no século XVII era radicalmente diverso da época de Kierkegaard, Kafka e Freud, nos subseqüentes séculos XIX e XX.

      Outro motivo da crença de Spinoza na razão é que o fundamento amplo e profundamente ético e religioso de seu pensamento lhe salvou das dicotomias do coletivo racionalismo do século XVII; porém, não podemos esquecer que Spinoza falava em temor e não em angústia. Suas análises se detiveram no umbral do problema da angústia.

Algumas vezes, o raciocínio de Descartes, aponta-nos para a angústia, como quando discorre que a esperança pode justapor o temor, mas não atravessa o umbral, nem aprofunda esse tema. Descartes parece capaz de enfrentar o problema ao nível do temor e, portanto, o problema central da angústia não é desenvolvido em seu raciocínio. Contudo, dada à situação cultural em que viveu, a fé de Spinoza na razão lhe serviu a contento.

     Avançando em nosso artigo, encontramos outra voz dissidente do século XVII: Blaise Pascal. Ainda que semelhante em brilhantismo, aos líderes intelectuais contemporâneos quanto à genialidade matemática e científica, Pascal foi excepcional para sua época, embora não participasse da confiança predominante na razão individual. Pascal experimentou assim como Kierkegaard, diretamente o problema da angústia.

Pascal não acreditava que a natureza humana, com todas suas variantes e contradições, poderiam se resolver apenas com a razão matemática, nem tampouco que o indivíduo pudesse alcançar a certeza racional no campo das emoções humanas, em sentido semelhante, apenas com a certeza racional da geometria da física.

Pascal foi um profundo e contundente questionador da absoluta confiança na razão, pois segundo ele, esta não era suficiente para abarcar toda a complexidade do poder que as emoções exercem no indivíduo. Sua clássica frase: O coração tem razões que a própria razão não compreende, seria uma admirável antecipação do problema desenvolvido por Freud e pela psicanálise nos séculos vindouros.

Pascal tinha um profundo respeito pela razão e, certamente, acreditava que esta era à base da moral; porém afirmava que a razão no indivíduo é, na prática, manipulável em todos os sentidos, e que esta, é empregada com bastante freqüência em racionalizações, por motivos banais como vaidade, interesses pessoais e injustiças.

Pascal esteve muito diretamente interessado no tema da angústia não só em sua própria, como também na que observava em seus semelhantes. Citava como evidente a constante inquietação que certos homens passam em suas vidas. (Afirmou ainda que os indivíduos tentam incessantemente escapar de suas angústias através de diversões, para não terem que pensar a respeito de si mesmos). Relacionou o sentimento de angústia com a contingente e precária condição humana, pois possuía grande conhecimento a respeito desse dilema. Por isso, suas idéias parecem, tão eloqüentemente modernas, refletindo de forma direta, a condição do indivíduo na atualidade.

       Temos exposto até aqui, nosso parecer de que a fé na razão, tal como foi interpretada pelos líderes intelectuais do século XVII, serviu de apoio para dissipar a angústia existencial. E uma prova desse argumento é que Pascal, o único que não pode participar desta confiança na razão individual, o único, em realidade, que não absorveu verdadeiramente a confiança renascentista no indivíduo, foi o único que, ao mesmo tempo, não pode evitar a angústia.

      A despeito da refutação de Pascal, a confiança na razão individual triunfou e serviu como conceito central e unificador durante os séculos XVII e XVIII. O problema de nossa investigação histórica vem a ser agora o seguinte: como foram capazes estes pensadores de superar a tendência que havia ao isolamento psicológico inerente a natureza individualista da razão?

 Descartes, como porta-voz de sua época, encontrou sua verdade pessoal enclausurado em sua redoma de vidro de seu jardim de inverno, se colocando a pensar: Como poderia ser capaz de relacionar-se com sua comunidade e seus semelhantes? Como escapar dos profundos sentimentos de solidão e conseqüente angústia? Se Leibniz fez de seu conceito central - a mônada- uma realidade discreta, sem comunicação com outras mônadas; como poderia ele e como a época por ele representada, poderiam escapar do sentimento de isolamento individual?           Na realidade, esses sentimentos de solidão e isolamento, estavam disseminados no individualismo que surgiu no Renascimento e deveria ser solucionado para que fossem adquiridas a comunicação interpessoal e dissipada a constante ameaça do sentimento de angústia.

    No século XVII, deu-se uma clara resposta a esse problema, ainda que sobre a base na crença da harmonia preestabelecida. Em seu aspecto econômico, esta crença era a de que se cada indivíduo perseguisse seus próprios fins econômicos individuais e se esforçasse competitivamente por suas próprias ambições pessoais, seu esforço redundaria simultaneamente, em benefício ao seu grupo social. Esse era o famoso conceito laissez-faire da economia vigente.

Ao nível psicológico, acreditava-se que a livre prática na razão individual, automaticamente conduziria a harmonia do indivíduo com seus semelhantes e, em conseqüência, a harmonia do indivíduo com a sociedade. Ao nível filosófico, Leibniz expressou muito claramente, em sua afirmação, que cada mônada estava em estado de harmonia preestabelecida com outras mônadas e com a realidade universal.

Assim, teoricamente, o indivíduo que com grande coragem perseguia a razão individual, não teria porquê sentir-se isolado nem angustiado. Esta teoria era um cabal reflexo da situação cultural dos séculos XVII e XVIII; o esforço econômico individual tipo laissez-faire, os estados de expansão do capitalismo, incrementaram enormemente a capacidade para satisfazer as necessidades materiais do indivíduo.

 Houve um assombroso e transcendente progresso da ciência, na difusão do conhecimento e na ampliação dos direitos políticos básicos do indivíduo, em relação com a crença na razão individual e seu corolário de harmonia.

         No meio cultural que Spinoza e Leibniz viveram, parece-nos que a confiança na razão individual lhes serviu satisfatoriamente, visto que era uma época paralela, no geral em comparação ao século V, na Grécia antiga – em que a cultura se desenvolvia calcada em seus símbolos básicos. Sendo assim, os indivíduos buscavam na sociedade, e em particular na religião e na educação, maior apoio psicológico.

Porém, uma crescente discrepância se produziu a partir da segunda metade do século XIX, que logo se tornou mais evidente e muito mais ampla no século XX.

Esta discrepância se deu concomitantemente ao grande progresso que se obteve com a aplicação da razão matemática e as leis mecânicas na natureza física. As ciências físicas, com a promessa de colocar a natureza a serviço do indivíduo, junto com o vasto progresso da era industrial, e em sua promessa em satisfazer as necessidades biológicas do indivíduo, deram amplo sustento a grande fé que se colocou na intenção de compreender e controlar a natureza por meio das leis mecânicas.

Em meados do século XIX, a primitiva confiança na razão individual relacionada com todos os aspectos da vida, se transformou em ênfase na técnica e na aplicação da razão.

      Desse modo, no século XIX a crença na autonomia da razão, com sua conseqüente confiança na harmonia automática, começou a enfraquecer. Os pensadores proféticos deste século – Kierkegaard, Nietzsche e Max – perceberam isto e descreveram as fissuras da cultura daquele momento, que gerariam mais tarde angústia difusa.

Max assinalou que embora o esforço econômico individual houvesse incrementado a prosperidade da sociedade durante os estados expansivos da era industrial, este servia agora a um propósito contrário, pois o monopólio capitalista propiciava a alienação e conseqüente desumanização do indivíduo. Nietzsche previu a respeito da transformação da ciência em fábrica e temia as conseqüências niilistas que caracterizaram o século XIX, como a era das ciências autônomas.

O comentário de Nietzsche a respeito do século XIX era de que cada pensador individual dava sua própria imagem à natureza humana, visto que cada imagem se baseava na experiência empírica; cada teoria se transformava em leito de procusto, em que os indivíduos empiricamente, eram forçados a adaptar-se a um molde preconcebido; Nietzsche acreditava que este antagonismo de idéias constituía uma grave ameaça a totalidade da vida ética e cultural do indivíduo.

           A progressiva desagregação e compartimentalização da cultura no século XIX podem ser observadas claramente em seu aspecto psicológico. Esta consiste na tendência a ver o indivíduo como um ser que possui diferentes faculdades, por exemplo, inteligência, emoção e vontade.

Supunha-se que o indivíduo do século XIX, como um indivíduo de negócios ou um industrial de êxito, tomava decisões mediante a racionalização prática e logo as reforçava por meio de sua poderosa vontade. Assim, vemos esse indivíduo do século XIX, tratando de resolver seus problemas psicológicos pessoais, com os mesmos métodos que foram tão efetivos para dominar a natureza física e que tanto êxito tiveram no mundo da indústria.

 A dicotomia mente-corpo do século XVII tomou a forma de uma radical separação entre razão e emoção, com os esforços voluntários da vontade introduzidos como agentes da decisão, e isto geralmente culminava na negação das emoções.

A crença do século XVII, do controle racional das emoções, se transformou no hábito de reprimi-las. Esta desintegração cultural e psicológica produziria dissociação e traumas internos e, portanto angústia, em muitos indivíduos do século XX e também determinou o duplo aspecto do problema da angústia para Kierkegaard e Freud: Como pode se superar a dicotomia da razão e da emoção, e como pode comunicar-se com seus semelhantes, o indivíduo isolado em si?

   Assim, Kierkegaard tanto quanto Nietzsche e Schopenhauer trataram de redescobrir, de diferentes maneiras, a dinâmica reprimida do inconsciente, chamado motivo irracional da conduta humana e reuni-la com as funções racionais do indivíduo. A compartimentalização da personalidade tornou-se a marca do indivíduo do século XIX, com os descobrimentos de Freud relativos ao inconsciente e suas técnicas destinadas a orientar o indivíduo a uma nova postura.

A psicanálise e os novos métodos psicológicos se originaram dessa necessidade; certamente o grande aporte da psicologia a partir de Freud foi auxiliar o indivíduo a descobrir uma nova unidade dentro de si. Do mesmo modo, neste contexto histórico, podemos entender as críticas severas à psicologia e à medicina acadêmica dessa época; ambas disciplinas se ocupavam dos elementos da conduta que poderiam ser analisados, tabulados e medidos de acordo com os métodos tradicionais da matemática racionalista. Essas críticas não eram meramente a expressão de pré-juízos ou mesmo do mau humor de Freud, senão que representavam um problema real: A urgente necessidade de superar a dicotomia entre a razão e a emoção.

    Para dar continuidade a nossa pesquisa sobre os fundamentos históricos da angústia trataremos de recorrer a Sören Aabye Kierkegaard, filósofo existencialista de meados do século XIX, reconhecido como um dos maiores psicólogos de todos os tempos, que dissecou este tema com profundidade e maestria incomparáveis.      

Necessitamos comparar Kierkegaard com Spinoza para entender quão diferente era o clima cultural do século XIX do que reinava no século XVII. Tanto Spinoza quanto Kierkegaard possuíam ampla base religiosa em seu pensamento, porém ambos eram especialmente dotados de compreensão e intuição psicológicas.

Spinoza investigou com considerável êxito a certeza racional das evidências geométricas e sua relação com o temor. Kierkegaard escreveu: [...] Na mesma proporção em que a qualidade das evidências aumenta, a certeza parece diminuir.

Quem aja observado a geração contemporânea, seguramente não poderá negar que a incongruência é a causa da angústia e da inquietude; enquanto por um lado à verdade progride em extensão, em volume, e em parte também em clareza de abstração, por outro lado à certeza diminui de forma constante.

A certeza era uma qualidade interna, acessível só para o indivíduo que podia pensar, sentir e atuar como uma unidade psicológica e ética. Kierkegaard rechaçou enfaticamente o racionalismo tradicional por sua artificialidade. Sustentava com veemência que o sistema hegeliano, que identificava o pensamento abstrato com a realidade, era uma forma de confundir os homens, mediante a fuga da realidade de sua condição humana. Kierkegaard pregava que o indivíduo deveria afastar-se da especulação, apartar-se do sistema e se voltar à realidade. Insistia em que o pensamento não poderia separar-se do sentimento e da vontade, que a verdade só existe para o indivíduo particular na medida que ela produza a ação.

 Kierkegaard enfatizava que o homem só pode experimentar a realidade como um indivíduo total, como um organismo emotivo, tanto em ação quanto em pensamento.

Assim que, de maneira semelhante a Schelling, Nietzsche, Feuerbach e Max, em sua aproximação sociológica, Kierkegaard pretendia superar a dicotomia da razão e da emoção voltando a atenção do indivíduo em direção à realidade de sua experiência imediata, que era sustentava pela por sua vez pela subjetividade e pela objetividade.

Ao abordar especificamente o problema da angústia, Kierkegaard observou que o indivíduo sente angústia até o momento que consegue se libertar como indivíduo e, concomitante adquira o sentimento de comunicação com seus semelhantes.

Para Kierkegaard, a liberdade individual deveria distinguir-se radicalmente da mera liberdade de restrições e objeções, que foram à concepção dominante de liberdade desde o Renascimento; e também que, deveria distinguir-se da fatídica e mecânica pseudolibertação do típico participante da rotina burguesa comercial e industrial.

             Kierkegaard admitia que a liberdade significava uma expansão do autoconhecimento e da capacidade para atuar de forma responsável com um eu. Isso significava uma crescente capacidade para ampliar as possibilidades tanto no desenvolvimento individual como também no aprofundamento das relações com os demais indivíduos, junto com a realização dessas possibilidades.

O intento de edificação de tais possibilidades alude aventurar-se continuamente em novas áreas, enfrentando novos reptos, como podemos exemplificar com clareza, no caso do desenvolvimento do indivíduo em crescimento.

Kierkegaard sustentava que a liberdade implica sempre em angústia potencial. A angústia, como expressava epigramaticamente, era a vertigem da liberdade. Desejamos assim enfatizar que para Kierkegaard esta angústia era normal e não neurótica; seu conceito foi o que mais tarde Otto Rank descreveu como a angústia inerente à individuação, e o que Kurt Goldstein delineou como a angústia normal, que indivíduo enfrenta ante o inevitável sobressalto perante seu crescimento e experiências de vida.

Um elemento essencial para compreendermos a angústia humana é que o grau de possibilidades de desenvolvimento humano é muito maior do que nos animais. Como Kierkegaard sustentava, e o que podemos deduzir disso é que: quanto maior é liberdade potencial do indivíduo, tanto maiores possibilidades criativas têm o ser humano individualmente, maior sua angústia potencial.

 Assim, uma característica marcante do indivíduo é sua capacidade para ser consciente de suas próprias possibilidades. Este pensamento conduziu Kierkegaard ao seu importante conceito da relação do conflito com a angústia. Kierkegaard acreditava que a angústia de uma criança pequena era ambígua e inconsciente, pois a criança não era consciente da separação que havia entre ela e o seu meio ambiente.

Porém, com o desenvolvimento da consciência de si, a criança estaria apta a eleger conscientemente, através de sua maturidade intelectual, de seu desenvolvimento e amadurecimento emocional.

O processo de individualização, isto é, tornar-se si mesmo, segundo Kierkegaard, é unicamente obtido ao preço de enfrentar a angústia inerente do ato de assumir uma posição contrao meio social. É a autoconsciência que possibilita o desenvolvimento individual autodirigido. Esta autoconsciência é, no indivíduo em crescimento, a base responsável do conflito interno e do sentimento de culpa, que irá gerar, por sua vez, a angústia.

       Não é nosso objetivo introduzir aqui o penetrante e frutífero, embora difícil e polêmico tratamento que Kierkegaard deu ao conflito, a criatividade e a culpa. Podemos apenas rapidamente mencionar, e talvez baste dizer que ele pensava que o conflito interno e o sentimento de culpa eram sempre uma conseqüência da criatividade.

Por esse motivo, os indivíduos não deveriam ser classificados de neuróticos nem serem considerados como tal. O indivíduo, segundo Kierkegaard, poderia enfrentar suas crises criativas e resolvê-las através da experiência da angústia, agraciando um maior desenvolvimento ao eu.

Podemos exemplificar que, cada possibilidade criativa, em se tratando de desenvolvimento individual, implica certa destruição do passado, certa ruptura de formas de agir relativas a este passado; avançar implica inevitavelmente o aspecto de morte e separação das idéias próprias com as de seus semelhantes; o indivíduo se sente muitas vezes tentado a permanecer no que lhe é familiar e seguro, preferindo assim, não se aventurar.

          Porém, o sentimento de individuação só se adquire avançando, a despeito de conflitos, culpas, sentimentos de solidão e angústia inerentes a essa situação.

Se não avança, o resultado é a angústia neurótica.

Pensando seus significados, Kierkegaard atribui que a raiz da angústia neurótica é o resultado do bloqueio, que tem lugar quando a pessoa tem medo da liberdade. Este cerco implica o bloqueio de áreas de liberdade ligadas à experiência e ao livre arbítrio. Este embaraço implica na constrição de áreas de liberdade, de experiência e da consciência. Temos aqui uma primitiva formulação do processo que mais tarde Freud chamou repressão e Sullivan dissociação.

Semelhante a esses pensadores estudiosos da personalidade humana, Kierkegaard pensava que quando o indivíduo trata de evitar o confronto com um temor real ou com uma experiência que implica em ansiedade normal, ele se compromete em um bloqueio da consciência e da experiência, que produz como conseqüência à angústia neurótica.

Kierkegaard utilizava o termo verschlossenheit (fechado em si) em alemão, para designar a neurose. O  indivíduo fechado, não está fechado consigo mesmo, senão de si mesmo e dos demais. Esta personalidade se caracteriza por diversas formas de rigidez, falta de liberdade, vazio existencial e tédio.

O indivíduo fechado em si carece de comunicação, pois segundo Kierkegaard, liberdade é comunicação contínua.

  Estamos cientes de que os círculos concêntricos, a expansão e o aprofundamento do eu, implicam simultaneamente em círculos expansivos de relações significativas com os demais.

 Para Kierkegaard, as duas fontes de angústia neurótica – a desunião dentro de si e a falta de harmonia com outros indivíduos – seriam superados através de processos simultâneos; superar um era superar o outro ao mesmo tempo. Destarte, nenhum dos dois processos poderia ser obtido, a menos que o indivíduo tivesse a coragem de enfrentar e afrontar as obscuridades de seu interior, levando a cabo as ameaçadoras experiências de solidão e angústia que são normais, no sentido de que não se pode evitar senti-las; só assim o indivíduo realizaria a aquisição de si mesmo.

  É então compreensível que Kierkegaard visse a angústia como uma mestra; por vezes rigorosa e implacável, porém, sem nunca deixar de sê-lo. Com sabedoria sustentava que a angústia é melhor mestra que a realidade, visto que esta pode ser evitada temporariamente, através de fugas ilusórias, ao passo que a angústia é uma educadora que sempre carregaremos em nosso interior, e a qualquer momento descortina sua formadora face.

     Delineamos os problemas em nossa exploração histórica: a dicotomia entre razão e emoção, o isolamento do indivíduo de sua comunidade. Assinalamos que estes problemas foram e são fundamentais para o problema da angústia na atualidade.

 Indicamos como eram tratadas essas questões e como a angústia inerente às mesmas era em medida considerável, dissipada mediante diversas formas de crença de que se um indivíduo perseguia com energia seu próprio desenvolvimento econômico e seus motivos próprios, ganharia ao mesmo tempo uma harmonia automática com seus semelhantes e com o mundo metafísico.

Descrevemos como esta crença perdeu sua eficácia no século XIX, quando a razão individual se tornou repressão intelectual e o laissez-faire da economia política se transformou em uma racionalização da des-humanização e mecanização do indivíduo.

        Em conclusão, só podemos sugerir de que forma estão relacionadas estas questões com o problema da angústia no século XXI.

 Primeiro queremos propor uma hipótese, que é a de que quando os pressupostos, os supostos inconscientes acerca dos valores são geralmente aceitos em uma sociedade, o indivíduo pode enfrentar as ameaças sobre a base destes pressupostos; relaciona então as ameaças com o temor, e não com a angústia.

Porém, quando os pressupostos de uma sociedade são eles mesmos considerados como ameaça, o indivíduo necessita de um fundamento pelo qual se poderá guiar, quando enfrentar uma ameaça específica. O resultado, para o indivíduo, é uma profunda desorientação, uma confusão psicológica, e, em conseqüência, pânico e angústia.

 Não será esse o estado de nossa cultura no século XXI?

  Acreditamos que a desintegração dos pressupostos de nossa cultura histórica está intimamente relacionada com a difusão da angústia em nosso século, assim como com as dificuldades particulares do dilema humano que enfrentamos em nossa época.

 Em um período em que a sociedade não provê ao indivíduo uma adequada orientação psicológica e ética, este se vê forçado, por seu desespero e angústia, a buscar profundamente em si e assim, descobrir uma nova base de orientação e integração.

A psicanálise e a psicologia dinâmica se originaram desta necessidade; certamente, o grande aporte da psicologia a partir de Freud é ajudar o indivíduo a descobrir uma nova unidade dentro de si mesmo.

O enfrentamento com esta necessidade do homem moderno, de encontrar o significado mais profundo dentro si mesmo, originou o desenvolvimento do existencialismo.

          Porém, no que representa uma abordagem mais ampla deste problema – a criação de novas formas de comunicação psicológica e ética – para que o indivíduo possa relacionar-se significativamente consigo e com os demais, expandindo sua criatividade e sua afetividade, nos mostra que ainda estamos muito distantes de uma situação ideal.

Acreditamos que enfrentar este desafio, para desta maneira superar a fonte primeira da angústia, requer um trabalho conjunto não só de psicólogos e psicoterapeutas, mas, sobretudo, dos trabalhadores de todos os campos das ciências sociais, da religião, da filosofia e das artes em geral.

Salientamos que em um período em que os valores de uma cultura têm unidade e vigência moral, o indivíduo tem meios para enfrentar e vencer sua angústia. Quando os valores estão em contradição, o indivíduo, que se sente sem respaldo, tende a evitar e reprimir sua ansiedade normal, com a qual forma as bases para o desenvolvimento da angústia neurótica.

Desse modo podemos afirmar que os valores e o sentimento de angústia estão inter-relacionados de modo muito estreito. Temos consciência que a dicotomia entre a razão e emoção e o isolamento do indivíduo de sua comunidade, foram e são de fundamental importância para a exacerbação do problema da angústia em nossa atualidade.

Urge desvendar esse intrincado problema. O indivíduo necessita resgatar seus valores mais profundos, para assim tornar-se um indivíduo singular e encontrar a paz de seu espírito; sabemos que só sendo verdadeiros em nossa essência e em nosso querer, nos tornaremos o sujeito de Kierkegaard, e assim, fiéis aos nossos sentimentos e valores, estaremos prontos a abandonar a angústia.

[1] MAY, Rollo. SCHATER, Stanley et al. La angustia normal y patológica. V. 196. Buenos Aire: Piadós, 1ª edición, 1968, 285p.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


Fale Comigo

voltar