
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Impressão estética
Mariah de Olivieri
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[...] Então, necessariamente, chegamos a considerar a arte como manifestação suprema e acabada de tudo o que existe, visto que, por essência, ela nos provoca a mesma coisa que aquilo que no mundo visível nos mostra, mas mais condensada, mais acabada, com escolha e reflexão, e que, por conseguinte, podemos chamar-lhe floração da vida, na plena acepção da palavra. |
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Schopenhauer |
Arthur Schopenhauer (filósofo do século XIX) diz em seu livro - O Mundo como Vontade e Representação que a beleza nos consola. Voltemo-nos, pois a analisar esse enunciado. Para que o belo seja visto e reconhecido como tal, devemos partir da seguinte premissa: existe um sujeito que conhece e uma idéia a ser observada e posteriormente identificada, cujo nome atende por objeto. Ambos são simultâneos e inseparáveis: sujeito – idéia – objeto.
Para que o prazer estético possa ocorrer necessitamos de uma calmaria da alma, de um puro e simples contemplar, liberto de todo desejo ou julgamento de nosso intelecto; onde o mundo seja visto como um singelo espetáculo e o olho, apenas como um espelho, onde nossa mente seja um simples receptáculo do instante sagrado.
A arte é o lugar onde o indivíduo pode vivenciar esse inominável e muitas vezes indescritível êxtase do instante sagrado da contemplação. Ela sim consegue esse intento. A arte é o ponto de partida, um modo de expurgo, a busca pelo transcendente, a liberação do caos.
A arte tem a função de libertar o conhecimento das garras da vontade, fazer o indivíduo esquecer de seus interesses materiais, erguendo o espírito à pura contemplação da verdade.
Só a arte é capaz de realizar os sentidos, pois possui a capacidade alquímica de ampliar horizontes, alargando a estreiteza do olhar; ela tem o intuito de libertar o indivíduo da vida ordinária e nula, da existência infame, de sua reduzida e obtusa realidade.
Por intermédio da arte contemplamos de uma maneira estética a natureza do belo. É o deleite de conhecer de uma maneira pura, independentemente da vontade.
Schopenhauer afirma, porém, que para contemplar o belo é preciso espaço. Esvaziar o pote da mente despir-se de conceitos e preconceitos.
Fica explícito que para desfrutar esse misterioso prazer, é preciso ceifar de modo implacável e impiedoso as raízes do mundo de nossas vontades, libertar-se das amarras do desejo: sair de si para estar consigo.
Para que tal deleite ocorra, urge que abandonemos nossos ditos quereres; que nos desapeguemos do individualismo egoísta, do universo aflitivo e neurótico que compõem a vida humana, esquecendo-nos por um instante as trágicas amarguras da existência.
E assim, cessando de ser si mesmo, que possamos transmutar-nos em todas as coisas. Dessa forma passamos a nos sentir como puro receptáculo, puro encanto; e experimentamos o mundo como puro espetáculo.
Cito Schopenhauer: Cada um é feliz, quando ele é todas as coisas; infeliz quando é apenas indivíduo.
Quando o indivíduo se fasta de seus interesses individuais, o mundo se transforma metaforicamente em um novelo de lã e, a medida em que ele desenrola, desaparece o egoísmo, restando a lucidez da mutação. Assim, essa totalidade do mundo é oferecida ao sujeito que, cessando de ser ele próprio, transforma-se em todas as coisas.
Ao indivíduo que consegue a magia deste instante supremo e fecundo, sobrevêm o prazer orgástico da contemplação. É deleite da alma encharcada em êxtase, a fuga momentânea do inferno de seus desejos: é a felicidade da libertação do querer das garras peçonhentas da vontade, que nunca se sente saciada, que é como um poço sem fundo, uma boca escancarada.
Como objeto da contemplação ou da representação estética podemos citar animais ou indivíduos: o prazer do deleite consistirá antes na intuição objetiva dessas idéias, que constituem as manifestações mais nítidas da vontade.
É, com efeito, em tais objetos que as formas são mais complexas, e as representações têm aí um sentido rico e profundo. A essência da vontade manifesta-se da forma mais completa, isto se observa particularmente no tema da pintura cristã, da mesma maneira que a pintura histórica e o drama consistem na idéia da vontade plenamente iluminada pelo conhecimento.
A contemplação estética é sem dúvida também o da tese do mundo como representação. O meio de escapar dos males do desejo é a inteligente contemplação da vida, mas esta só pode ocorrer para o indivíduo cuja vontade é mais tenaz e mais forte que a de outro sujeito.
Pela contemplação estética, o indivíduo dissolve-se enquanto indivíduo e sua representação do mundo passa a ser livre do princípio da razão; através desse espetáculo de puro deleite, a alma agradece com indizível alegria.
Schopenhauer então salienta que:
[...] neste grau, aquele que é arrebatado nesta contemplação já não é mais um indivíduo (visto que o indivíduo se aniquilou nesta mesma contemplação), é o sujeito que conhece, liberto da vontade, da dor e do tempo[...].
A função da arte é, pois, de acordo com Schopenhauer, proporcionar a libertação do conhecimento das garras da vontade; através da contemplação desinteressada, o indivíduo esquece de seus interesses puramente materiais e ergue seu espírito à pura e adequada contemplação da verdade.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.