

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Maquiavel, o príncipe?
Mariah de Olivieri
Bonito
Como os campos que não existem, mas insistem.
Como os peixes que vêem estrelas, e pérolas em concha de chumbo transparente.
Como não lamentar a infância.
Como derreter o inverno e acordar com os pais na porta.
Como gravatas vermelhas em calças rasgadas, e eu triste por muito, mas sem lamentar quase nada.
Como a varanda que não temos e já deitamos lá.
Como árvores aleatórias para ninguém, e plantas fora de moda que só acontecem ao entardecer.
Com os bêbados que parecem uma mobília tranqüila quando se assiste à novela no bar.
Bonito como eu esperava aos treze anos.
Mais do que palavras são as coisas que resistem para que elas voltem a viver.
Fran
A doutrina de Nicolau Maquiavel (filósofo e político que viveu na Itália, no período de 1469 a 1527), imortalizada na obra literária O príncipe, (que foi dedicada ao Magnífico Lourenço de Médici), almejava guiar os governantes, alertando-os sobre as armadilhas da “selva” política.
Este livro pode ser considerado um vade-mecum atemporal de autopreservação para os governantes e para os indivíduos detentores do poder e demonstra o modo cético do autor encarar o ser humano; sua “tese” parte da observação do comportamento dos indivíduos, ressaltando serem os mesmos fracos gananciosos e de caráter duvidoso.
O tema central do tomo gira em torno das “regras de ouro” com as quais o líder deve estar disposto a desrespeitar qualquer consideração moral para se manter no domínio, realizando com astúcia o que fosse necessário para este intento.
Maquiavel diversa sobre uma “ciência política”, apontando que as cidades estariam divididas por dois desejos (opostos entre si): o dos soberanos - de oprimir e comandar e o do povo – que desejavam a liberdade (com todas as nuances que o termo implica).
O discurso do príncipe é endereçado aos poderosos. Estes, a qualquer preço (ético, moral, lícito ou não), devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para conquistar e manter o domínio. Tudo vale: enganar, seduzir e até mesmo usar da boa fé alheia, desde que esse comportamento conduza os indivíduos a fazerem exatamente o que ele deseja.
Com acúmen, o príncipe deve manter os indivíduos submissos, não informados e sob controle. Sua concepção de poder pregava a “prática” acima da ética, onde “tudo era válido” (conquanto que o objetivo mor, a conquista e manutenção do domínio fosse garantido).
O príncipe, de acordo com Maquiavel, deve ser um indivíduo de virtù, ou seja, ele deve ser virtuoso e inteligente em seus atos e possuir grande capacidade em ser “flexível” frente às circunstâncias, dançando conforme a música, ou seja: ser astuto e ousado, volúvel e inconstante, para com isso, alcançar seu objetivo mor; ele pode não ter todas as “qualidades” citadas, porém é imprescindível aparentar possuí-las.
Este livro é em nosso entendimento, infelizmente, de extrema atualidade, um compêndio de um “modelo” da prática politicamente incorreta de governar, freqüentemente seguido à risca por uma grande maioria de políticos.
A célebre sentença os fins justificam os meios, é deveras atual devido à postura de alguns candidatos que desejam garantir esse argumento a qualquer preço. Será que os fins justificam os meios? Onde reside o bem e a verdade?
Observamos com espanto e injúria candidatos, políticos e toda uma “elite” agindo maquiavelicamente, com o objetivo de conseguir seu intento. Não importando se, para alcançar tal objetivo, o soberano tiver que ludibriar os incautos, induzindo os cidadãos a acreditar em suas balelas, impregnadas de “boas intenções”; os indivíduos desinformados e impotentes, continuam a insistir em crer nesse “indivíduo de bem”.
Desse modo, os “príncipes do poder” mantêm a massa humana desinformada e débil, se contentando com migalhas, continuando a respeitar e a obedecer a esse déspota, insistindo em confiar em seus argumentos; afinal, existe por parte do príncipe, uma preocupação “real” com os desfavorecidos e todos os ardis são “em nome e para o bem” da população.
Nossa reflexão prossegue: Será que só os candidatos e políticos agem de forma cruel e ilícita? Quantos indivíduos não usam a “filosofia” de Maquiavel em suas interações cotidianas? Em suas articulações e coligações políticas? Certamente esse não é um fato isolado e sim o reflexo de uma sociedade descrente e “contaminada” moralmente.
O príncipe foi escrito a mais de meio século e continua cada vez mais contemporâneo, pois de lá para cá pouca coisa mudou; as relações entre os indivíduos continuam nebulosas e muitas vezes não possuem um fim digno; sempre que houver a relação dominante/dominado haverá como conseqüência injustiça e desigualdade social.
Urge que cada cidadão examine seus atos através da reflexão incorruptível, estando ciente que a máxima do príncipe, que a tudo “justifica”, não é uma forma ética de conviver e nem de governar.
Quer seja na vida pública ou privada, é do seio familiar que parte o modelo de comportamento, o lar é o lugar onde os filhos aprendem precocemente com os pais a serem cidadãos de bem ou a manipular, mentir e seduzir de acordo com seus interesses.
Será que os fins justificam os meios? Onde reside o bem e a verdade?
Acreditamos piamente que só a partir de uma mudança interna dos valores individuais, a transformação externa poderá ocorrer na sociedade como conseqüência, e poderemos finalmente entender o real significado da palavra ética.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.