Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Migalhas Filosóficas (1844) e Post Scriptum final não-científico às Migalhas filosóficas (1846)
Mariah de Olivieri

A obra de Kierkegaard Migalhas filosóficas foi publicada em 1844, escrita sob o pseudônimo de Johannes Climacus, famoso eremita do Monte Sinai. Este livro[1] é considerado no meio acadêmico como o mais importante escrito por Kierkegaard e é antes de tudo, um tratado de apologética cristã[2], embora Climacus[3] não discorra diretamente sobre o cristianismo, apenas apresenta um projeto de pensamento, supostamente inventado por ele mesmo e que teria por objetivo ser diverso do modelo socrático.

Climacus constrói um modelo de pensamento que se opõe ao socrático. Esta obra traz à tona a questão do que é compreender a verdade e como esta deve ser transmitida.  O indivíduo estaria na verdade, e a verdade estaria contida no indivíduo; contudo, a questão primordial está em recordá-la.

E, é através dos personagens de Sócrates e de Cristo, que o acesso à verdade (segundo os tipos de relação desenvolvida do discípulo com o mestre), que esses personagens são inquiridos. A interrogação é feita a partir da problemática socrática: em que medida a verdade pode ser apreendida e também ser ensinada? E por quais caminhos?

Kierkegaard, através de Climacus, confronta os pressupostos do socratismo e do cristianismo (embora não use diretamente este termo) acerca da verdade, com o intuito de apontar o ponto de ruptura entre os dois.

Seu objetivo é afirmar, diante das tendências hegellianizantes[4] daquela época, o caráter ultra-racional do cristianismo (postura que Kierkegaard era extremamente contrário). Kierkegaard quer com isso, ensinar os indivíduos a terem por único mestre o “deus no tempo[5]”.

Poderíamos indagar: onde a angústia se faz presente neste texto? Acreditamos que, ao questionar o caráter racional do cristianismo, e propor a cada indivíduo, ir a busca de sua verdade e, ao encontrá-la, “uma verdade que seja verdadeira para si”, ser modificado através desta como indivíduo; isto é um fator que o deixa repleto de questionamentos e acaba gerando angústia. 

O Post Scriptum definitivo e não científico às Migalhas Filosóficas, foi publicado por Kierkegaard[6] com o mesmo pseudônimo, neste livro[7] ele reconheceu ser o autor de todas as obras heteronímicas anteriores. Nesta obra, ele enfatiza a relação pessoal do indivíduo com o cristianismo, onde Climacus transpõe o problema teórico da necessidade da revelação, para o terreno da realidade concreta, onde a inquietante afirmação, a verdade é subjetividade[8] pode ser um choque para os espíritos cartesianos, acostumados a tudo medir e provar.

Verifica-se nesta passagem, um salto; salto este que permite a liberdade, pois “a decisão que conduz à verdade reside na subjetividade[9]”. Ao deslocar o lugar de Cristo, que não é visto por ele como o “salvador”, ao colocar a responsabilidade pela existência sob o prisma da verdade, e, ao se indagar o que seja ela, nota-se o quanto a angústia atingia a Kierkegaard e aos seus personagens.

Para Kierkegaard “A verdade não é mais do que uma aproximação” cujo alvo não se pode pôr de maneira absoluta por não haver acabamento[10].

Sua proposta[11] “remete o sujeito cognoscente ao conhecimento de si mesmo como subjetividade viva”, onde a própria existência traz a subjetividade como condição de possibilidade de uma tarefa objetiva; essa condição de possibilidade é um fator que gera a angústia e que indica a interioridade e a superioridade do sujeito sobre seus objetos, e onde a decisão reside na subjetividade. A angústia surge da ambigüidade desta relação do indivíduo com Deus, assim a possibilidade, a liberdade de escolha, reside no mergulho do indivíduo rumo ao desconhecido, rumo à sua verdade interior.

Para Kierkegaard, ser sujeito não é coisa ordinária. O cristianismo ensina (em contrapartida à ciência) que o caminho consiste em tornar o indivíduo subjetivo, isto é, verdadeiramente sujeito. Porém isso se constitui numa tarefa hercúlea, pois nada é mais difícil do que se alcançar a si mesmo como subjetividade, e isto só pode gerar desconforto e angústia, esta busca, muitas vezes infrutífera por “si mesmo”, tal como o cristianismo a entende. “O cristianismo quer propor ao indivíduo uma beatitude eterna, embora não a distribua de maneira coletiva, mas estritamente individual a cada um em particular.[12]” Assim é que, Kierkegaard é cristão só pela sua consciência de o não ser, mas de querer sem cessar tornar-se um cristão; pois ele quer desesperadamente encontrar sua verdade, encontrar o “caminho”.

A reflexão sobre a verdade e a subjetividade, nos descortina o paradigma da relação entre o sujeito e a verdade no ato de apropriação. Somente a paixão do infinito propicia o verdadeiro conhecimento; e esta é subjetividade. Assim, a subjetividade é verdade.

Cada indivíduo é convocado ao trabalho sobre si mesmo, a buscar a sua verdade. Para os gregos, a verdade estava contida no indivíduo; encontrar-se a si mesmo era encontrar Deus. Necessitava-se apenas recordar. Para Kierkegaard, o indivíduo necessita uma repetição dada por Deus e não a recordação; seria como que um renascer, porquanto a verdade divina não pode ser recordada, ela precisa ser vivida, intensa e de forma autêntica.

Sócrates (personagem) surge no livro como o melhor dos mestres; a recordação socrática, que remete ao esforço e a responsabilidade do indivíduo, são postas em contraste com a salvação ofertada por Deus[13] em Cristo. Em contrapartida a Sócrates, Climacus apresenta-nos o Mestre. Isso ultraja a racionalidade do indivíduo, pois corrobora que, devido ao pecado original, o ser humano é incapaz de perceber a revelação de Deus, não podendo encontrar a salvação, salvação esta que urge ser dada por Deus, que se tornou homem para fazer o religare[14]sobre o abismo existente entre Deus e o indivíduo.

O pensamento de Climacus traz o cristianismo histórico à luz. Inúmeros conceitos kierkegaardianos são debatidos nesta obra: a “existência” de Deus (rejeitado por Climacus), a questão da contemporaneidade com o Mestre, o problema da história, o ataque pungente ao hegelianismo e também o conceito de paradoxo.

Em contraposição ao pensamento sistemático, Kierkegaard vê no paradoxo cristão a expressão mais coerente da verdade existencial. “Enquanto que a ciência pretende ensinar que o caminho a seguir é fazer-se objetivo, o cristianismo ensina que o caminho consiste em tornar-se subjetivo, isto é, verdadeiramente sujeito.[15]” Entretanto, nada é mais difícil do que se alcançar a si mesmo como subjetividade, tal como o cristianismo a entende, pois o que ele estabelece é a articulação da finitude com a infinitude. O objeto da fé se apresenta como aquele que concilia a contradição; é a fé que permite efetuar adequadamente, a síntese entre finitude o infinitude. É ela que determina a relação entre a criatura e o Criador; é a promessa de liberdade ilimitada e de possibilidades infinitas que um saber racional não pode propiciar. A razão pode petrificar, mas só a fé pode por o indivíduo em movimento, a caminho. Climacus enfatiza que o paradoxo não se dirige à razão e sim ao indivíduo existente. A partir disso, Clímacus enfatiza que a verdade do paradoxo, não está na doutrina em si, em sua objetividade, segundo ele, ela acontece na interioridade da fé.

A especulação é objetiva e objetivamente não há para um ser existente nenhuma verdade, mas apenas uma aproximação, pois quando ele se torna inteiramente objetivo é impedido de existir. O cristianismo, ao contrário, é subjetivo. A interioridade da fé no crente é a decisão eterna da verdade. E objetivamente não existe aí nenhuma verdade, pois o saber objetivo concernente à verdade ou às verdades do cristianismo é não-verdadeiro. Saber de cor uma profissão de fé é paganismo porque o cristianismo é interioridade.[16]

Aqui Kierkegaard traz uma nova interpretação para o que é ser cristão. Para ele, tornar-se cristão não é outra coisa que, o indivíduo assumir a tarefa de apropriar-se de sua existência e compreendê-la, de vivê-la com paixão. Pois somente a paixão do infinito propicia o verdadeiro conhecimento, e é a verdade.

Para Kierkegaard[17] “a decisão reside na subjetividade”. Mas como o indivíduo pode não se angustiar, ante o fato de que deve tomar a sério à tarefa de existir? E o indivíduo ao nascer, já possui esta consciência de sua existência? Qual o peso e angústia que esta consciência representa?  Sabemos que a questão da subjetividade e suas implicações continuam ainda na pós-modernidade a serem um assunto complexo e obscuro. A existência de um Criador e a crença na salvação através do salto da fé suscita no indivíduo uma angústia de “vida”.  É bem verdade que, só através de um novo paradigma, o indivíduo poderá solucionar esta questão. É preciso descobrir a verdade “singular” do indivíduo.

A razão, por sua vez, tem que ser apaixonada, isto é, tem que ter uma carga “afetiva”, pois o indivíduo que não coloca paixão em sua existência para compreendê-la, não está segundo Kierkegaard, vivendo verdadeiramente. Kierkegaard afiança que a existência é muito preciosa para ser desperdiçada.


Referências bibliográficas:

FARAGO, France. Compreender Kierkegaard – tradução Ephraim F. Alves – Petrópolis, RJ: Vozes, 2006, 259p.

GOUVÊA, Ricardo Quadros. Paixão pelo paradoxo: uma introdução aos estudos de Sören Kierkegaard e sua concepção da fé cristã. São Paulo: Novo Século, 2000, 317p.

KIERKEGAARD, Sören Aabye. Textos selecionados. Tradução e notas de Ernani Reichmann. Reimpressão. Curitiba: UFPR, 1978, 587p.

_____________.  Traduction de Paul-Henri Tisseau ET Else-Marie Jacquet-Tisseau. Oeuvres Complètes, vol.x. Éditions de L’Orante, Paris, 1973, 280p.

Roos, Jonnas. Filosofia UNISINOS. Revista Semestral do Programa de Pós-graduação, vol.6, Nº 3. São Leopoldo: Universidade do vale do Rio dos Sinos, 2005, 368p.


[1] Cf. Gouvêa, 2000.p.235.

[2] Gouvêa, idem. p.235.

[3] Roos, 2005, p.330.

[4] Farago, 2006, p.181.

[5] Cf. OC X, p.5.

[6] Este livro foi é a última palavra de Kierkegaard em sua obra heteronímica, onde ele afirma ter se constituído o ponto de mutação de toda a sua obra como autor. Gouvêa, 2000, p.239.

[7] Kierkegaard ironicamente sugere que este volumoso tratado é um PS do Migalhas Filosóficas.

[8] Cf. OC X, p. 15.

[9] KIERKEGAARD, 1978, Post-Scriptum, p.246.

[10] OC X, p.175.

[11] Farago, 2006, p.182.

[12] OC X, p.122.

[13] Climacus usa o termo “deus” para manter o tom de um “projeto de pensamento” alternativo ao socrático.

[14] Religar, ligar de novo.

[15] OC X, p.123.

[16] KIERKEGAARD, 1978, Post-Scriptum, p.250.

[17] OC X, p.121

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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