
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Mito e razão
Mariah de Olivieri
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É loucura a sua razão e sem sentido o seu saber. Rogério de Almeida |
No início do século XX, o contato direto de pesquisadores com as tribos das Ilhas do Pacífico na África e com algumas no interior do Brasil, tornou evidente que o Mito vivo é muito mais rico e expressivo do que podemos supor.
O Mito é a forma mais rudimentar de conhecimento e sua aceitação, de base totalmente irracional, é o resultado da pressão do grupo social sobre cada um de seus indivíduos; essa coação é exercida majoritariamente com base nos valores, crenças e tradições culturais, herdados dos seus antepassados.
As raízes do Mito não se encontram em explicações exclusivamente racionais, e sim na realidade subjetiva e pré-reflexiva das emoções e da afetividade.
Apesar de ser um conceito não definido de modo preciso e universal, o Mito constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele representa uma explicação sobre a origem do indivíduo e do universo, traduzindo em símbolos ricos de significados, o modo como a civilização entende e interpreta a existência.
Enquanto processo, o Mito surge como uma verdade, não uma verdade lógica expressa pela razão, mas uma verdade intuída, que dispensa a necessidade de provas.
Nesse sentido, o Mito é uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espontânea usada pelo indivíduo para se situar no mundo.
O processo de reflexão que insiste em negar o Mito mostra-se prejudicial ao indivíduo, pois se funda em um exercício puramente racional, não levando em conta os fatores ocultos que existem na origem do Mito; essa rejeição crítica faz surgir à discriminação.
O homem primitivo desempenhava papéis que o distanciavam da percepção de si como sujeito propriamente dito. Não que ele reprimia sua ação, pois sua experiência não se separava da vivência da comunidade, sobretudo, fazia-se por meio dela.
O princípio de individuação se faz presente em alguns sujeitos, porém, o equilíbrio individual se dá de forma diferente, mediante a preponderância do coletivo sobre o particular.
A primeira consciência social, portanto, está atrelada e submersa à massa comunitária. É uma consciência em situação extrínseca e não intrínseca, onde a individualidade se faz presente como um nó, no complexo tecido das relações sociais e o ego se afirma pelos outros indivíduos, onde ele não é pessoa e sim personagem.
Na atualidade, a nova forma de compreensão do mundo desacratiza o pensamento e a ação, retirando desse o caráter de preponderância, fazendo surgir à filosofia, a ciência, a técnica e a religião.
Contrário ao modelo positivista, urge darmos ao Mito, um lugar de fundamental relevância de todo viver humano, pois o Mito é a primeira leitura do mundo. O advento de outras abordagens do real, não expulsa do indivíduo aquilo que constitui a raiz de sua inteligibilidade, isto é: o mito como ponto de partida à compreensão do ser.
Estamos cônscios de que, tudo o que desejamos e pensamos, se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base a toda posterior labuta da razão.
Até a mais racional adesão a uma corrente de pensamento, supõe o não justificado e o injustificável, no qual o indivíduo movimenta-se em direção a um valor que o arrebata e, só a posteriori, busca explicação na razão.
Nesse sentido, Mito e razão são complementares. O mito propõe, cabe a consciência dispor.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.