

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Natureza humana - razão versus
emoção
Mariah de Olivieri
Retornar a mim tem um caminho dobrado. O abandono inventou uma capa com a qual minhas intensidades, de idílio assustado, mas perseverante, não conseguem colaborar. Tenho pavor do meu coração. Mas para biografar-se, é preciso muita biologia.
Fran
O racionalismo clássico afirma que o indivíduo, através da razão, pode galgar verdades de valor absoluto, sua lógica e sua exigência se impõem como se fosse expressão de uma naturalidade necessária e inevitável. Inúmeras vezes, vemos o ser humano ser sacrificado por sistemas “ideológicos”, que o reduzem à nulidade; esta é, podemos assim dizer, uma das tantas “grandes obras” da sociedade moderna.
Percebemos na cultura ocidental, uma maneira de agir abalizada pela repressão dos instintos vitais e pela negação do prazer, existe uma dificuldade em aceitar e compreender o indivíduo em sua totalidade, ou seja: um sujeito dotado de sensibilidade e racionalidade. No pensamento reducionista, o indivíduo encara a existência pelo olhar da lógica e da ciência, e repudia tudo o que se mostra incerto, misterioso ou irracional. Ao colocar todo o sentimento em suspenso, ao indivíduo, resta “apenas” obedecer unicamente à razão.
A razão tornou-se razão técnico-instrumental porque só pode identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos e meios adequados para alcançar fins estabelecidos controlados pelo sistema; desse modo, a razão tornou-se o contrário de suas pretensões e, ao invés de libertar, aparece como ideologia, colocando o indivíduo a ponto de ser aniquilado por sua supremacia.
Por fidelidade ao racionalismo clássico, o indivíduo faz da razão um absoluto, uma faculdade essencialmente diferente do mundo empírico. Porém, o enunciado que prenuncia ser o mundo racional, superior ao mundo sensível, é uma concepção deveras discutível.
O indivíduo, ao ser guiado exclusivamente pela razão, torna-se subjugado, robotizado, escravo de sua racionalidade; perde sua identidade, sua liberdade, esgotando-se nesse agir, toda a possibilidade de conciliação entre o sentir e o obrar.
Nesse ponto de nosso raciocínio, surge o seguinte questionamento: uma concepção de vida independente de qualquer dogmatismo metafísico, baseada apenas na concepção da razão, não implica em um próprio dogmatismo?
Em diversas situações que se apresentam na existência, sabe-se que a teoria não se encaixa na realidade e que, por mais que o indivíduo busque realizar seus atos regidos exclusivamente por sua razão, suas emoções abrem caminho a fórceps; quando cai em si, a pessoa agiu exatamente ao revés do qual se tinha proposto. Isso prova que sensibilidade e razão, fazem parte da natureza humana, não há como separar uma da hora.
Se o ser humano é, na maior parte de sua existência, muito mais sensibilidade e emoção; sendo guiado em suas ações, muito mais por seus instintos, e os seus atos motivados em grande parte, por seu inconsciente; como exigir que ele aja sempre baseado em uma “lei”, que tem por alicerce incondicional a razão? Pode o indivíduo fugir de suas emoções, e agir racionalmente e apenas assim? De que maneira ele pode obter a isenção emocional necessária, para conduzir de forma racional suas ações? Como conciliar razão, sensibilidade e emoção?
Esta é, sem dúvida, uma circunstância que nos convida à cogitação. No entanto, refletir sobre essas questões, exige de cada cidadão uma posição crítica, apta a não admitir que mais esse ponto fique em suspenso e sem resposta em sua existência.
Cabe aqui, a necessidade de questionar uma cultura onde impera a racionalidade, que castra no sujeito o processo transbordante de afirmação da existência, e que submete esse impulso vital, ao constrangimento do mundo racional.
O indivíduo carece criticar as perspectivas de sua racionalidade, não apenas de sua ideologia. Urge que ele desconstrua sua ingenuidade e busque sua verdade incondicionalmente. Ao abandonar a postura convencional de racionalizar a existência, o sujeito adota uma postura existencial fundamentada em sua individualidade, adquirindo uma posição que busque os fundamentos de sua singularidade, que o possibilite vislumbrar outras possibilidades, diferentes modos de entrever suas necessidades.
Trata-se de adquirir uma posição filosófica e conciliatória entre o sentir e o agir, que possua fundamentos mais profundos do que aquilo que ele possa perceber somente por seu intelecto. Talvez seja exatamente essa conduta que venha salvá-lo e afirmar sua condição de ser humano.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.