Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Nicolau de Cusa – idéias que envolvem sua filosofia
Mariah de Olivieri

O teu ver é amar ...

"Senhor, o teu ver é amar e assim como o teu olhar me contempla tão atentamente que jamais se desvia de mim, assim é também o teu amor. E porque o teu amor está sempre comigo, não sendo o teu amor diferente de ti próprio, que me amas, por isso tu, Senhor, estás sempre comigo. Tu não me abandonas, Senhor. De todos os lados me proteges, porque cuidas de mim com a máxima diligência. O teu ser, Senhor, não abandona o meu ser. Eu sou na medida em que tu és comigo. E porque o teu ver é o teu ser, assim eu sou porque tu me olhas. E se retiras de mim os teus olhos, de modo nenhum subsistirei. Mas sei que o teu olhar é a bondade máxima que não pode deixar de se comunicar a tudo o que a pode receber."

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa, cujo nome verdadeiro era Kryfts,  (na grafia modernizada Krebs), foi uma das personalidades de maior destaque, talvez o gênio mais dotado especulativamente de sua época. Alemão de origem, mas italiano por formação, teve uma infância prosaica, sendo educado junto aos Irmãos de vida comum, em Deventer. Teólogo, místico e filósofo humanista, cardeal da Igreja Católica Romana, foi considerado o pai da filosofia alemã da primeira metade do século XV (período da Renascença), considerado um dos personagens-chave na transição do pensamento medieval e um dos primeiros filósofos da Idade Moderna.

 Nicolau bebeu e fartou-se na fonte platônica e neoplatônica cristã,  sofrendo a influência do misticismo alemão. Sua filosofia representou uma transição entre os escolásticos e os humanistas modernos e apontava para uma direção agnóstica gnosiológica, além de um panteísmo metafísico; por tentar unir o divino e o profano, foi acusado de panteísta emanentista.

Nicolau sofreu ainda influência de outras  correntes de pensamento assim como da mística de Eckhart, porém, observa-se nitidamente a predominância do neoplatonismo na versão do Pseudo-Dionísio e Escoto Eriúgena.

Nicolau admitia, acima dos sentidos, dois graus do saber humano: a ratio e o intellectus. O primeiro conferiria ao indivíduo a noção mística de Deus e o segundo tinha por origem a sensibilidade; este dualismo era muito peculiar ao pensamento místico da época.

A ratio, também conhecida por intelecto discursivo, trata-se da faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais, formando a seguir os juízos e os raciocínios, para deste modo conhecer o finito e o multíplice. Acima da ratio está o intellectus, atividade supra-racional, iluminada pela fé ou pela mística, onde o objeto próprio é o Uno e o infinito, Deus.

Nicolau, em sua metodologia filosófica, utilizava de forma original, métodos extraídos dos processos matemáticos na forma de símbolos e analogias; destarte, não desenvolveu uma relação plausível entre a matemática e a filosofia.

Nicolau afiançava que o conceito de Deus não vinha da razão, pois sabia ser a razão limitada e não fornecedora da realidade (já que esta é comandada pelos sentidos) e estes, não são confiáveis; acreditava que o indivíduo só poderia conhecer verdades parciais, nunca a verdade suprema que é Deus (na qual coexistem os contrários), dessa forma o indivíduo assumia sua ignorância.

 A tomada de consciência e o tipo de conhecimento que obteve através desse método, Nicolau nomeou docta ignorantia (que veio a ser o título de sua obra principal, publicada em 1440); ao seu olhar, a docta era a única sabedoria possível, foi também autor de inúmeras obras, todavia, docta causou efeito impactante.

A docta demonstra a existência de uma desproporção qualitativa entre o conhecimento finito e o infinito. Este método é válido para as coisas finitas, impossibilitando o conhecimento do infinito. O infinito permanece desconhecido para o indivíduo, pois carece de provas palpáveis.

Nicolau enfatizava a existência no Absoluto de uma coincidentia oppositorum, que consistia no método pelo qual o indivíduo percebia que as coisas finitas não estavam em uma mera relação de antiética com o infinito, senão que ambas possuíam uma relação simbólica, que sendo contrária, as identificava.

A consciência dos opostos está contida no conceito de máximo. Máximo absoluto é o infinito, ao qual nada se opõe e com o qual o mínimo coincide. Portanto, ao infinito, os opostos coincidem. Desse modo, Deus é máximo absoluto e complicatio oppositorum et eorum coincidentia.

Nicolau parte de uma premissa poética para compreender Deus e o universo, cita que: O conhecimento verdadeiro vem do interior da alma. A alma se assemelha ao Espírito Divino da unidade divina, e é a partir dessa unidade que a alma deduz o conhecimento natural. Dizer que o universo é explicação de Deus, significa dizer que ele é imagem do absoluto. Cada ser resume o universo inteiro e Deus. Jamais o individuo entenderá Deus através de sua mente racional, pois Deus é O Todo de Tudo.

O indivíduo, no decorrer de sua existência, busca incessantemente uma resposta, uma verdade que acalme seus medos, um sentido para sua encarnação; e questões como onde está Deus (alguns inquirirão se ele existe), o que liga o ser humano a Deus, são indagações inquietantes, cada vez mais freqüentes e contemporâneas.

Onde está Deus? Quiçá o ser humano nunca  encontre uma resposta que o satisfaça inteiramente, pois é justamente na dúvida que reside o misterioso e fascinante segredo que move o seu prosseguir, nessa jornada que se chama vida.

Contudo, façamos como Nicolau: investiguemos, pois.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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