Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

O Elogio da Loucura
Mariah de Olivieri

Em nome da tolerância, decreta-se a intolerância intolerável. É-se intolerante.

Em nome da liberdade, proíbe-se a proibição, o que é falta de liberdade.

A voz da razão silencia a loucura, e contra o silêncio a razão nunca tem razão.

Só se cala quem sabe ou ignora. A voz nada sabe nem nada ignora.

É um barulho definido pelo silêncio.

Nada é real, tudo é convenção. Se o real é convenção e a convenção está dentro do real, a convenção também é real, assim como nada é convenção e tudo é real.

De onde a única razão a que a razão chega: o não haver razão.

Triunfo racional da loucura.

Rogério de Almeida

Erasmo de Rotterdam, filósofo humanista holandês, acatado como o principal mentor do humanismo, viveu na época da Renascença.

Erasmo escreveu o livro O Elogio da Loucura, dedicado a Thomas More;  obra que é considerada (em vários níveis e com várias acepções) como uma dimensão essencial do viver humano. No livro, Erasmo apresenta Loucura como uma deusa que origina a vida e que conduz as ações humanas, identificando-a em costumes e atos como o casamento e a guerra; afirma ser ela  (a Loucura) a mantenedora das cidades, governos, religião e justiça.

Loucura fala na primeira pessoa, defendendo sua imagem e pontos de vista, tecendo ferrenha crítica às diversas atividades humanas, coligando nelas mediocridade e hipocrisia.

Em analogia às crianças, Loucura afirma que a alegria da infância torna essa a idade mais agradável, pois a natureza imbui às crianças um certo ar de loucura:

Delirar, entontecer, não será este o encanto da infância? A criança que raciocina como um adulto é um monstro detestável. Bem o afirma o ditado: «Odeia a sabedoria precoce da criança…».   Elogio da Loucura, XIII

Em relação às mulheres, Loucura censura suas futilidades e a preocupação destas em serem objeto de desejo dos homens, gastando boa parte de seus “inúteis dias” com banhos, perfumes e enfeites. Com propriedade, afirma que só mesmo a Loucura para explicar a ascensão das mulheres sobre os homens:

O homem que confunde uma abóbora com uma mulher é considerado em todo o lado um louco, por tal loucura ser rara, mas aquele cuja mulher o engana com inúmeros homens, e que, orgulhoso, se vangloria da castidade da esposa, mais fiel do que Penélope, a este ninguém o chama louco, por este estado de espírito ser comum a muitos maridos.  Elogio da Loucura, XXXIX

Quando profere sobre o matrimônio,  Loucura afiança que se as mulheres raciocinassem sobre esse assunto, concordariam não ser o mesmo vantajoso, nem tampouco prazeroso. Justifica que, para contraírem núpcias, só mesmo estando loucas.

Sobre os filósofos, Loucura posiciona-se sarcasticamente, dizendo serem estes cegos de orgulho e presunção e não passarem de loucos ridículos; que suas idéias e teorias não possuem solidez nem seguridade.

Não vedes esses tristes, obcecados pela filosofia ou pelas dificuldades dos negócios, envelhecidos, a maior parte deles, antes de terem gozado a juventude, pois que os cuidados, a tensão contínua do pensamento, secaram neles progressivamente o sopro e a seiva da vida? Elogio da Loucura, XIV

Em analogia a igreja,  reside nela a maior crítica de Erasmo; que por longo período, seguiu assinalando o que aos seus olhos seriam os erros cometidos pela mesma . Apesar de se dizer cristão, Erasmo era ferrenhamente contra a hierarquia da igreja; possuía a consciência dos jogos de interesse e poder que incitavam os indivíduos às guerras, ridicuralizava  suas cerimônias e rituais excessivos e a discussão interminável acerca do mistério divino; enfatizava a urgência de uma verdadeira prática da caridade e do retorno à simplicidade perdida:

Se os actores estão em cena, desempenhando o seu papel, e um deles tenta arrancar as máscaras para mostrar ao público a sua verdadeira face, conseguirá apenas perturbar toda a representação e deveria ser expulso do teatro como um louco (…) Destruída toda a ilusão, a obra destrói-se. Era o travestimento e o disfarce que atraíam o espectador. O mesmo acontece na vida, que não passa de uma comédia, em que cada qual representa o seu papel, conforme a máscara que usa, até que o contra-regra o faz sair de cena. Elogio da Loucura, XXIX

Podemos observar nesta obra que a Loucura erasmiana extrai os véus, revendo a verdade e fazendo-nos ver a comédia da existência e o exato semblante daqueles que se ocultam sob suas máscaras; mas concomitantemente, delata o sentido do palco, dos disfarces e dos atores que procuram de certa maneira fazer com que se acreditem e se aceitem todas as coisas assim como elas são.

Erasmo foi contra Lutero e a favor do livre-arbítrio (no qual Lutero não acreditava). Criticava ferozmente a rigidez dos teólogos quanto à condenação por motivos fúteis, dos indivíduos considerados hereges. Não poupou a cúpula da igreja (os bispos), afirmando que suas “preocupações” não orbitavam senão em torno de interesses materiais e honrarias.

Quando aos monges, proferia que estes ocupavam seu tempo com mulheres e vinho. Dizia que os papas eram cruéis e desumanos por aprovarem a guerra e que os mesmos não obteriam a salvação da qual falava Cristo. Desaprovava a cobrança de impostos dos indivíduos para a obtenção da “salvação” de suas almas após a morte. Para Erasmo, milagres, duendes,fantasmas,feitiçarias e o inferno, eram apenas crendices dos ignorantes.

Sem dúvida, o ano de 1509, no qual publicou O Elogio a Loucura, marcou sobremaneira não só a Erasmo,  mas a outros pensadores dessa época;  quer seja por suas idéias contemporâneas ou por sua coragem em expor o que muitos conjeturaram, mas não  arriscaram  arrazoar, encanta-nos suas virtudes e sua ousadia. Seu aporte por essa obra foi ímpar e abalizou não só aos indivíduos de seu tempo; sobretudo, ainda hoje, arrebata e instiga aqueles humanos,  possuidores de sensibilidade e senso de justiça:

A verdadeira sabedoria consiste, visto que sois homens, em não procurar saber mais do que aquilo que está na natureza dos homens, em se submeter de bom grado à opinião da multidão ou em deixar-se arrastar nos seus erros. Mas, direis, isso é uma completa loucura! Aceito que o digam, conquanto que concordeis que é assim que se representa a comédia da vida. Elogio da Loucura, XXIX

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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