

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
O
indivíduo-artista e a poética existencial
Mariah de Olivieri
Que estéril está minha alma e meu pensamento e quão freqüentemente sofrem, todavia, pesares sem moderação, doces e amargos! Se soltará alguma vez em mimo freio do espírito? Terei que falar sempre?O que eu necessito é uma voz penetrante como a vista do lince, terrível como o suspiro dos gigantes, constante como um grito da natureza, trapaceira como uma rajada gelada, traiçoeira como o indiferente engano do eco: que tenha um volume que vá desde o baixo mais profundo aos tons mais agudos, modulada a partir de um doce e leve sussurro até a explosão da fúria. È o que eu necessito para respirar, para comover as entranhas da ira e da simpatia. Porém minha voz é estridente como o grito de uma gaivota, ou suave como a benção nos lábios de um mudo
Kierkegaard
Se o indivíduo é um animal poético, um poema inconcluso, cada sujeito está incumbido no decorrer de sua existência em escrever o poema de sua identidade. Wagner sentencia que: a arte tem a função de lembrar ao ser humano o verdadeiro objetivo de sua existência, que é desenvolver a força criativa que reside em cada ser. Portanto, o mais alto objetivo do ser humano é a expressão artística.
Em uma sociedade que glorifica a massificação, onde cada um deve ser a cópia fiel, não de si e sim de seu vizinho, essa idéia é absolutamente subversiva. O conceito de massificação vai aniquilando a singular criatividade de cada ser humano, o transformando em um indivíduo castrado, apático e cordato, que não foge um milímetro do padrão vigente do politicamente correto, em suma, um indivíduo que carece de ousadia.
O século XXI nos traz a contra-cultura que rompe e destrói convenções, por isso, necessitamos buscar outros paradigmas. A expressão da criatividade é a versão pessoal do gênio da espécie, o modo de relação entre identidade e alteridade, onde a função criadora é intrínseca à existência humana. Duchamp menciona que: a arte é um caminho que leva a regiões que o tempo e o espaço não regem, ela é o território existencial, o abrigo poético onde pulsa a existência; é a racionalidade do inconsciente manifestada de forma comovente.
Essa é a trajetória do indivíduo-artista: a construção, expressão e criação de si. Resgatar a criatividade perdida que é uma pulsão vital constitui-se em apreender o humano em nós, exercitando o olhar e propondo uma nova ordem, a sua ordem, onde a criatividade pressupõe um sujeito criador, isto é, um ser humano inventivo, que produz e dá existência a algo inusitado. Newman afiança que: a característica essencial do indivíduo é a superabundância. Essa riqueza interior, essa abastança de potencialidades existe em todas as pessoas.
O indivíduo-artista é apenas aquele que tem a ousadia de expressar seus potenciais, por mais adversas que sejam as suas condições. O conceito elitista que separa os criadores das pessoas comuns não representa senão um dos tantos prejuízos culturais que, no fundo, reforçam a trágica dissociação do indivíduo e sua obra. A educação repressora massifica e consolida de maneira obscena a dissociação entre o que sentimos e o que expressamos. Nossa civilização de forma declarada reprime a função natural da criatividade humana, porém, o protesto frente à posição elitista está tomando força nesses tempos pós-modernos. Surge o conceito de educar através da arte, a criatividade como caminho natural do ser humano, uma função quase biológica.
A expressão criativa irrompe freqüentemente como uma ação convulsiva e incontrolável, não apenas como uma nostalgia de integração entre o indivíduo e sua obra, senão como um gesto desesperado de sobrevivência, sendo o impossível necessário onde viver é a arte da edificação de si, isso significa tomar-se como amante e fazer da sua existência uma autêntica obra de arte.
O ato criador possui muito de gestação, de grito, de orgasmo. É por excelência um parir-se a si mesmo, sendo o impulso visceral nato para expressarmos o que de mais sublime e genuíno possuímos. Dentro dessa perspectiva, o ato criativo tem semelhança com a expressão mais profunda do gênio da vida. Autopoyesis: aquele que cria e emerge da forma, extraindo das sombras o fruto iluminado.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.