Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

O indivíduo frente à existência: o caráter volitivo da angústia
Mariah de Olivieri

Conclusão

Travessia é o estado natural da carne humana.

Espiralar-se até alcançar o próprio umbigo, por dentro.

Fran

Intensa é a tarefa de escrever sobre a angústia, pois parece que jamais poderemos falar dela exclusivamente como meros espectadores, alheios à qualquer de seus efeitos. Mesmo assim, acreditamos que realizar tal incumbência é uma forma de reconhecê-la e até mesmo de agradecê-la, por estar aqui inspirando essas linhas. Poderemos por acaso supor que exista na face da terra algum indivíduo, que não tenha sido, em algum momento, acometido por esse pathos?

É desafiador pensar o quanto às palavras são carregadas de significados, ou melhor, de pré-significados; signos que possibilitam ser negativos ou positivos: tristeza, raiva, desconsolo. O mesmo acontece com a palavra angústia. Quando a ouvimos, não escapamos de pensar em algo que não é bom, que nos tolhe, nos reprime, nos limita.

Sabemos que existe uma certa diferença entre a angústia sentida pelo indivíduo primitivo e a que se encontra instalada em nossa cultura na atualidade; no tempo das cavernas, a angústia e a reação a esta, estava diretamente relacionada à noção de perigo imediato, a angústia era, digamos assim, palpável, concreta.

Na contemporaneidade, a angústia que invade o indivíduo, surge carregada de nuances, estando inúmeras vezes relacionadas a questões subjetivas, de cunho existencial; são interrogações que atordoam, confundem e para as quais, muitas vezes não encontramos resposta.

Angustiar-se é defrontar-se consigo, é a única condição existencial que permite ao indivíduo emergir do emaranhado de situações caóticas e que pode lhe proporcionar o verdadeiro encontro com sua real identidade.

O impulso de vida nos sugere  a angústia como  parte da natureza humana, porém, muitas vezes não temos noção do papel que essa expiação desempenha em nossa existência.

Essa sensação, considerada por muitos o abismo d’alma, afeta de maneira absurda a existência, de forma implacável, constante e enigmática, sendo seus meandros vastos e instigantes.

Na angústia o sentimento é difuso, obscuro, e a sensação é de perigo iminente, real ou imaginário. Existem indivíduos incessantemente dominados pela angústia e, para o indivíduo propenso, tudo é motivo de angústia, mesmo sentimentos prazerosos.

Voltemo-nos ao cerne da questão: a pouco falávamos sobre o significado da palavra angústia; acreditamos que as palavras trazem suas significâncias por motivos que muito pouco paramos para pensar, mas que estão aí para serem refletidos, enfrentados e vivenciados. Se os negarmos, estaremos abdicando da grande possibilidade de evoluirmos enquanto seres humanos.

Desse modo, por certo podemos indagar: qual o sentido da angústia em nossa existência?

Para darmos prosseguimento à nossa cogitação, levantamos a seguinte hipótese: será que sem a presença da angústia em nossas vidas, não seríamos engolidos pelo tédio de uma existência amorfa, isenta de sensações instigantes, que nos impulsionam? O frio na barriga, o arrepio na espinha, o coração na boca do estômago, tudo isso pode ser positivo, depende apenas do ângulo de que é visto.

Nossa sociedade, muitas vezes estimula a angústia no indivíduo, pois está sempre a lhe lembrar que algo lhe falta, geralmente um bem material: a tv de plasma, o tênis de marca, o último modelo de celular. O indivíduo fica então cada vez mais aflito para adquirir, para ter e não se ocupa em ser. Urge que adquiramos um olhar crítico à sociedade de consumo, que enseja e incita-nos a tornarmo-nos máquinas consumistas, isentas de qualquer discernimento.

A “resposta social” que nos é ofertada para apaziguarmos nossa angústia é consumirmos, cada vez mais. Nesse momento cabe perguntar: e o indivíduo que não tem condições de consumir?

Será que a violência exacerbada de certos indivíduos, considerados à margem da sociedade, que não podem aplacar sua angústia através do consumo, é o resultado  dessa dor?

O que nos causa um certo espanto, é que existe uma tendência paradoxal: por um lado o sentimento de angústia é estimulado (através de tudo aquilo que teoricamente nos falta) e, por outro lado, existe um esforço consciente no sentido  de negação da angústia.

Desde a mais tenra idade, somos compelidos a fugir de nossa angústia e não refletirmos sobre sua real missão, sua mensagem. Existe a tendência em fugirmos do sofrimento, que pode nos  incitar ao crescimento e que faz parte da vida; buscamos anestésicos, sejam eles bens materiais, relações afetivas ou mesmo barbitúricos.

Será esse sentimento tão desconcertante, que negamos sua importância  em nossa existência? É plausível afirmar que possamos ser beneficiados pela angústia?

Nosso objetivo ao discorrer sobre um assunto tão delicado e ao mesmo tempo aparentemente tão incômodo é trazer à luz da reflexão, a importância da angústia em nosso cotidiano, que mesmo causando estranheza, pode ser transmutada em um sentimento positivo, com a significância de crescimento pessoal.

A angústia pode ser a mola propulsora que incita e excita a vida; estamos convictos de que sem ela, não seríamos desafiados a buscar novas alternativas criativas, nem os artistas produziriam arte.

Ao analisarmos nossa história, observamos inúmeros exemplos de indivíduos que fizeram da angústia vivida, o ponto de partida, a matéria prima de manifestações internas, através de construções e expressões de sua criatividade, plásticas ou literárias. Muitos artistas não sabem claramente o que se passa em seu íntimo, apenas expressam através de suas elaborações a angústia que sentem, transformando dessa maneira, o lixo em luxo.

Trazemos à baila o exemplo do poeta Fernando Pessoa, em cuja obra, a angústia ocupou um lugar privilegiado; todo o dissabor vivido por ele e relatado através de seus personagens, tornou-se o mote de sua obra, servindo-lhe de inspiração; Pessoa deu voz à sua angústia, através de seus versos:

BICABORNATO DE SODA

SÚBITA, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma, [...]
20-6-1930

Estamos certos de que, não só aos artistas é dado o privilégio de usufruir a angústia de maneira positiva e produtiva. Essa oportunidade é um direito de cada indivíduo,  desde que ele compreenda e aplique em sua vida esse recurso.

Quem sabe, chegará o dia em que, sabiamente usaremos, como Fernando Pessoa, a angústia como uma aliada? Ao incorporarmos em nossa existência essa máxima (que é tornar o sentimento de angústia um aliado, já que este habita de forma inevitável nossas vidas), chegar-se-á ao âmago da questão; vislumbraremos que, dessa maneira, estaremos aptos a tomar impulso suficiente para emergirmos do limbo de nossa existência, e descobrirmos as benesses dessa fascinante experiência.

Encarar o paradoxo de fazer da angústia nossa parceira parece ser uma tarefa hercúlea, mas que talvez seja a única maneira de lidar com ela de forma inteligente e produtiva.

Dessa forma, é tarefa de cada um, incorporar e bendizer essa mensageira, com a máxima de que, quando a angústia irrompe das profundezas de nosso ser, está clamando e nos trazendo à consciência enormes oportunidades de crescimento, enquanto seres humanos.

A angústia faz parte do processo de amadurecimento de cada indivíduo. Afinal, sangrar é preciso, pois só assim, poderemos obter o paraíso.

Angústia: vamos dar a ela as nossas boas-vindas?

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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