Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

O Panteísmo em Hegel
Mariah de Olivieri

(...) não devemos cair nas ladainhas das lamúrias, dizendo que, no mundo, muitas vezes ou quase sempre, os bons e piedosos são infelizes, ao contrário dos maus e perversos. Por felicidade entendem-se coisas bem diversas, como fortuna, honra mundana e coisas semelhantes. Mas quando se trata de um fim em si e por si, o que se chama ventura ou infortúnio deste ou daquele indivíduo particular não pode ser tomado como momento da ordem racional do universo. Aqui não é o interesse nem a paixão individual que exigem satisfação, mas a razão, o direito, a liberdade.

Hegel

 

Georg Wilhelm Friedrich Hegel foi um pensador estudioso, infatigável e metódico, considerado um dos expoentes do idealismo filosófico do século XIX. Cursou a universidade de Tübingen, enamorou-se de um certo socialismo aristocrático e entregou-se com vigor à corrente romântica na qual a Europa mergulhara naquele momento histórico; escreveu sua Lógica (1812-1816), obra que seduziu a Alemanha pela ininteligibilidade e o fez obter a cátedra de Filosofia em Heidelberg.

Hegel lecionou em Berne e Frankfurt; e a importância de sua contribuição filosófica foi reconhecida em todo o continente europeu. Até o fim de sua existência, imperou no mundo filosófico tão indiscutivelmente como Goethe no da literatura e Beethoven no da música.

Hegel definiu seu pensamento como uma tentativa de ensinar a filosofia em alemão e conseguiu-o. Na verdade, Hegel era simultaneamente hermético e prudente, um filósofo idealístico por excelência. Sua filosofia é a  filosofia da imanência absoluta, um verdadeiro retorno à antologia, onde a razão constitui-se na substância do universo e na realidade profunda das coisas, na essência do próprio Ser.

Em suas teorias, Hegel enfatiza que a verdadeira cultura incide em abstrair-se resolutamente de si e que a finalidade do mundo consiste na racionalidade absoluta. O mal existe para que ao transmutá-lo, o individuo atinja a perfeição e o bem.

No panteísmo moderno, uma das explanações mais interessantes é a de Hegel, que se apóia no pensamento lógico; Hegel defende o argumento ontológico e profere que relativamente a Deus, pensamento, existência, ser e noção são idênticos.

No entendimento de Hegel, Deus não é simplesmente o Ser em si. Deus não é pura natureza nem Idéia pura, é Espírito e Espírito absoluto; isto é, juízo plenamente consciente de si, pensamento que se conhece inteiramente a si próprio.

Como podemos observar, Hegel admite que só no espírito humano Deus toma consciência de si. Seja pela arte, pela religião ou pela filosofia e, principalmente por esta, pois é através da filosofia que se desenvolve essa consciência. Hegel afirma que, se Deus não é verdadeiramente, realiza-se dia-a-dia progressivamente na humanidade.

As provas da existência de Deus no panteísmo são extremamente simples, a maior parte dos panteístas insiste na prova ontológica de Deus, sendo que   a idéia filosófica de Deus está no universo. Para Hegel, o Deus dos filósofos é um Deus extremamente abstrato.

 Filosoficamente, a idéia de Deus é o ponto culminante da síntese metafísica.  Para além da cosmologia e da psicologia racionais, a idéia de Deus é o princípio de unidade do universo. Deus é o sistema de relações no qual todas as coisas se movem e têm seu ser e significação. Deus é imanente ao mundo e substancialmente idêntico, é a verdadeira alma do mundo, lei de suas transformações, substância única de tudo que existe, modo ou espírito absoluto, imanente ao espírito humano.

Quanto à prova cosmológica, Hegel a considera a própria expressão do processo pelo qual o pensamento se eleva do mundo sensível e finito à idéia de mundo infinito.

 Dessa forma, o espírito é o órgão indispensável para a percepção de Deus. A função do espírito consiste em descobrir a unidade que existe potencialmente na variedade de formas que se manifestam metafisicamente. É através do absoluto que se manifestam os contrários, estes se fundem numa única unidade, na qual a matéria e o espírito tornam-se unos.

No indivíduo o absoluto eleva-se até a consciência de si mesmo e torna-se Idéia Absoluta, que existe, embora se realize como parte do Absoluto, transcendendo as limitações e finalidades individuais e apreendendo, sob o conflito universal, a oculta harmonia das coisas.

Hegel se posiciona ferrenhamente contra o acosmismo (negação do mundo), segundo ele, o panteísmo é muito mais uma visão idealista, assim como para Fichte.

Destarte, outras dificuldades não se deliberam plenamente no panteísmo. O panteísmo repele a idéia de Criação, todavia, compreende-se melhor como  substância infinita e, ao invés de encerrar em si a capacidade produtiva, a manifesta e a desenvolve.

Nesse instante, podemos inquirir: como a natura naturante se desenvolve em natura naturata, constituída de seres finitos e particulares?

O panteísmo se recusa em reconhecer a personalidade de Deus, mas não  abdica ao que se pode denominar de função moral da idéia de Deus. Podemos observar que ao panteísmo une-se sempre um tanto de misticismo.

Hegel, indivíduo coeso em sua índole, tinha por guia a máxima bíblica, que encerra considerável sabedoria e verdade em seu conteúdo: procurai antes de Tudo alimento e vestuário – que a isso vos acrescentará o reino do Céu. Em seu brilhante e obscuro abstracionismo, pensamento e ser devem seguir a lógica e a metafísica, pois estas constituem uma unidade.

O espírito é o órgão mister para a percepção deste processo dialético e desta unidade na variedade. A função do espírito, e a  tarefa da filosofia, são descobrir a unidade que jaz potencialmente na variedade; a empreitada da ética é unificar o caráter e a conduta.

 A labuta da religião é atingir e sentir aquele Absoluto em que todos os contrários se resolvem em unidade, na grande totalização de seres, na qual a  matéria e o  espírito, o sujeito e o objeto, o bem e o mal, se tornam uma unidade.

A essência do espírito implica em tendência para um fim, primeiramente de configuração inconsciente, depois consciente e racionalmente prosseguido. Sendo o espírito a realidade primeira, sua finalidade  faz parte da essência do Ser; assim,  o mundo deve conceber-se como movido pelo espírito.

O Ser em sua totalidade é significativo e cada acontecimento no mundo só tem sentido em função do Absoluto, do qual não é mais do que um aspecto ou um instante. O espírito objetivo se realiza no que Hegel denomina mundo da cultura, onde ele se descobre com maior clareza nas consciências artística e religiosa, para só após então, apreender-se na Filosofia como saber absoluto.

Podemos considerar Hegel um filósofo panteísta, onde a idéia se manifesta como processo histórico, seu panteísmo identifica Deus com a História. Deus não é o que é – Deus é o que se realiza na Hístória. Por conseguinte, a História  é uma odisséia do Espírito Universal e o espírito humano pode ser considerado um espírito puramente subjetivo, uma sensação imediata. Depois o Espírito encarna-se e objetiva-se sob a forma de civilizações.

Em sua filosofia puramente imanentista, a civilização que triunfa a cada etapa da História é aquela que melhor exprime o Espírito, sem História Deus inexiste, pois  Deus só se realiza na História. A história é um movimento dialético, que se tornam o instrumento do absoluto. O absoluto, profere Hegel, só no final será o que ele é na realidade.

O absoluto que determinou a história por meio do Zeitgeist, foi substituído por Max pelos movimentos coletivos e forças econômicas as quais,  no entendimento de Hegel eram as causas básicas de toda mudança radical, quer no mundo das coisas, quer na vida das idéias. Dos frutos de Hegel, professor imperial”, brotaram os embriões do socialismo.

 Hegel começou a considerar o sistema hegeliano como parte das leis naturais do mundo, esquecido de que sua própria dialética lhe condenava as idéias à transitoriedade e ao declínio, pois o processo dialético muda o princípio cardinal da vida onde nenhuma condição é permanente: em cada fase das coisas existe uma contradição que só o conflito dos contrários pode elucidar. Por isso, a mais profunda lei política é a liberdade – o caminho aberto para as mutações.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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