Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Ode à lucidez
Mariah de Olivieri

Não há relação de poder sem constituição correlativa de um campo de conhecimento, ou que não pressupõe e constitui, ao mesmo tempo relações de poder ...

Foucault

A hermenêutica do sujeito

Michel Foucault, renomado filósofo, centrou seu trabalho em uma arqueologia do saber filosófico, da experiência literária e da análise do discurso. Sua filosofia também se centrou sobre a relação entre poder e governamentalidade, na vida e nas diferentes práticas de subjetivação.

Apresentaremos doravante o resumo da aula de 27 de janeiro de 1982 proferida por Foucault, no College de France. Nesta cátedra, Foucault descreve alguns traços característicos da prática de si na antiguidade, ou seja, durante os séculos I –II, denominado por Foucault a arte de viver. Aqui, o cuidado de si não aparecia mais como uma espécie de condição preliminar ao que depois viria a ser uma arte de viver. Não era um tipo de juntura entre a educação dos pedagogos e a vida adulta, mas, ao contrário. Um tipo de exigência que deveria acompanhar toda a extensão da existência, encontrando o seu ápice na idade adulta; o que ocasionava algumas conseqüências.

Em primeiro lugar, uma função mais nitidamente crítica que formadora: tratava-se de corrigir mais que instruir. Nesse ponto, Foucault aponta uma semelhança bem explícita com a medicina, o que desvincula a prática de si da pedagogia. Enfim, uma relação elevada entre a prática de si e a velhice, consequentemente com a própria existência, pois que a prática de si toma corpo na vida, ou melhor, incorpora-se à própria vida.

Destarte, a prática de si tem por escopo a preparação para a velhice, um momento privilegiado da existência, o ponto ideal da completude do sujeito. Foucault dizia que para ser sujeito é preciso ser velho. O período helenístico e romano foi a emergência dos fenômenos descritos por Foucault, o ápice de uma evolução.

Um segundo traço: o cuidado de si é formulado como um princípio incondicionado, uma regra aplicável a todos, praticável por todos, sem condição prévia de status e nenhuma finalidade técnica, profissional ou social. Uma prática incondicionada que era na práxis, exercida sempre de forma exclusiva. A meta da prática de si é o eu. E isso, somente alguns são capazes, embora tal prática seja um princípio dirigido a todos. Os nãopraticáveis seriam os participantes de grupos fechados como o dos movimentos religiosos e os que praticavam o ócio cultivado, que representava uma segregação econômica e social.

Em síntese, essas eram as duas formas: um fechamento em torno de um grupo religioso ou a segregação pela cultura. Como exemplo, o grupo dos Terapeutas descrito por Fílon de Alexandria e entre os pitagóricos. Estas eram as duas grandes formas a partir das quais se definiam ou se forneciam os instrumentos para que certos indivíduos (e somente eles) pudessem acender pela prática de si ao status pleno e inteiro de sujeito.

A relação consigo surge nesse momento como o objetivo da prática de si. Esse objetivo se constitui na meta primordial da existência; ao mesmo tempo, é uma forma rara de existência. Meta terminal da vida para todos os indivíduos, forma rara de existência para alguns.

Passemos à questão do Outro ou de outrem, isto é, da relação com o outro. O Outro ou outrem é indispensável na prática de si. Para que a prática de si alcance o eu por ela visado, o Outro é indispensável. Tomemos com exemplo Alcebíades, mais propriamente, os diálogos socrático-platônicos. Através desses diálogos podemos reconhecer três tipos de mestria (tipos de relação indispensável à formação do jovem).

Primeiramente, a mestria do exemplo (o Outro enquanto modelo de comportamento, ex: os heróis, os grandes indivíduos conhecidos através da história). Segundamente, a mestria da competência (a simples transmissão de conhecimentos, princípios, etc. aos mais jovens). Em terceiro lugar, a mestria socrática (exercida através do diálogo através do embaraço e da descoberta).

As três se assentam todas sobre um jogo entre ignorância e memória. A grande questão é como fazer para que o jovem saia da ignorância. Para tal, ele necessita de exemplos que possa reverenciar e que lhe possibilitem viver como convém. Ele necessita saber que (como na mestria socrática) não sabe e, ao mesmo tempo, que sabe mais do que não sabe. Essas mestrias são movidas pela ignorância e pela memória, na medida em que se trata, quer de memorizar um modelo, memorizar e aprender uma habilidade ou de descobrir o que falta, pouco importando as diferenças entre suas categorias. Tal movimento não pode ser consumado sem o Outro.

Na prática de si aqui exposta por Foucault, que remete ao período helenístico e romano, no começo do Império, a relação ao Outro é tão necessária quanto na época clássica, mas evidentemente, de forma díspar.

A necessidade do Outro se funda, ainda e sempre, e até certo ponto, no fato da ignorância. Funda-se, principalmente, no fato que o sujeito é menos ignorante do que malformado (preso aos maus hábitos). Mesmo no ventre materno, o indivíduo (como diz Sêneca), jamais teve com a natureza a relação de vontade racional que caracteriza a ação moralmente reta e o sujeito moralmente válido.

O indivíduo deve tender para um status de sujeito nunca dantes conhecido em sua existência. Há que suprir o não-sujeito pelo status de sujeito, definido pela plenitude da relação de si para consigo. Há de constituir-se como sujeito e é nisto que o Outro deve intervir. De agora em diante, o mestre é um operador na reforma do indivíduo e na formação do indivíduo como sujeito; é o mediador na relação do indivíduo na sua constituição como sujeito. Pode-se dizer que, de uma ou outra maneira, todas as declarações dos filósofos, dos séculos I e II, dão testemunho disso.

Quando se trata de aprender algo, necessita-se sempre de um treino, tem-se sempre a necessidade de um mestre. Nesses domínios, não se adquirem maus hábitos, apenas se ignora. Para passar da ignorância ao saber, necessita-se de um mestre. É necessário que alguém estenda a mão e que alguém puxe o indivíduo para fora (da ignorância).

Quem ainda não desenvolveu o cuidado consigo encontra-se no estado de stultitia (aquele que não tem cuidado consigo mesmo, estando à mercê de todos os ventos, estando disperso no tempo, não tendo meta nem direção). Sua vida passa sem memória e sem vontade. Sêneca menciona que o objetivo primevo da existência é a completude de si na velhice. A vontade do stultus é fraca e não livre, é ambígua, muda várias vezes de objetivo.

Sair da stultitia (não relação consigo) e migrar para o indivíduo sapiens, necessita-se do Outro, é preciso que o Outro intervenha. O cuidado de si necessita da inserção do Outro, o Outro como necessário. Trata-se aqui de educere: estender a mão, fazer sair, conduzir para fora. Essa não é uma labuta no sentido tradicional do termo. É a ação que será operada sobre o indivíduo, ao qual se estenderá a mão e se fará sair do estado no qual se encontra.

Essa operação incide sobre o modo de ser do próprio sujeito. Esse operador é o Filósofo. Essa ideia está contida em todas as correntes filosóficas. Epicuro proferia que somente o Filósofo é capaz de dirigir (no sentido de orientar) os outros. Ele é o hegemón (guia), de todos os indivíduos. Dion de Prusa, na passagem do século I para o II, afirmava que é junto aos filósofos que se encontra todo conselho sobre o que convém fazer. Dion afirma que não é simplesmente a relação a si que compete ao filósofo, é a existência inteira dos indivíduos.

Portanto, o filósofo se apresenta como o único capaz de governar os homens. É ele quem governa os que querem governar a si mesmos e os que querem governar os outros. Esse é o ponto essencial de divergência entre a Filosofia e a retórica da época. Filodemo aponta que todo indivíduo deve ter um guia que lhe assegure uma direção individual, que era organizada em torno de dois princípios. Deveria necessariamente haver uma relação afetiva de amizade, uma ética da palavra, parrhesia (abertura do coração, necessidade entre os pares de nada esconder um ao outro).

Para os epicuristas havia duas categorias de indivíduos: aqueles para os quais basta serem guiados, e aqueles em que  é necessário puxá-los à força (empurrar para fora do estado em que estão). As duas grandes qualidades do Filósofo: refutar e mover o espírito do Outro, conseguir dirigir o Outro como convém (eticamente). Se não o conseguirmos, a falta é nossa.

Epicleto dizia que devemos nos apegar não às coisas que não podemos controlar, mas à representação que fazemos das coisas, pois é ela que efetivamente podemos controlar e dominar. Assim é o conselheiro da existência, que dá pareceres sobre circunstâncias determinadas, ou seja, à vida, às escolhas de existência e às representações.

 Quanto mais se precisa de um conselheiro para si próprio, mais se precisa recorrer ao Outro. Assim se firma mais a necessidade da Filosofia e do filósofo que, através de conselhos prudentes, orientará os indivíduos em sua existência.

2ª hora

A existência de filósofos profissionais, pregando que os indivíduos se ocupassem consigo, acarretava alguns problemas políticos. No círculo de Augusto, no começo do Império, surgia a celeuma de saber se a Filosofia, apresentando-se como uma arte de si mesmo e convidando as pessoas a se ocuparem consigo mesmas, era útil ou não. Mecenas buscava um equilíbrio entre a atividade política em torno do príncipe e a necessária vida de ócios cultivados. Eufrates não separava a prática filosófica e a vida política.

A prática de si vem vincular-se à prática social, a constituição de uma relação de si consigo mesmo e vem atrelar-se às relações de si com o Outro. A mesma coisa poderíamos demonstrar a propósito de Plutarco, que toda vez que intervém para dirigir alguém, dár-lhe conselhos, não faz mais que modular uma relação social, uma relação política; é a estas relações que ele atrela, enxerta a atividade de dirigir a consciência.

É na medida em que as relações sociais que Sêneca e Plutarco mantêm com um ou outro indivíduo (relações de amizade, clientelismo, etc.), implicam o serviço da alma e a possibilidade de fundamento de uma série de intervenções, que permitirão ao outro conduzir-se como convém.

Através do desenvolvimento da prática de si, (a prática de si enquanto espécie de relação social possível entre os indivíduos), desenvolve-se uma nova ética da relação verbal com o Outro, a prática da direção da consciência, a parrhesía. Portanto, para a prática de si, a presença do Outro se faz míster.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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