Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Olhos para ver
Mariah de Olivieri

Tão abstrata é a idéia do teu ser/ Que me vem de teu olhar, que, ao entreter/ Os meus olhos nos teus, perco-os de vista/ E nada fica em meu olhar, e dista/ Teu corpo do meu ver tão longemente, / E a idéia do teu ser fica tão rente/ Ao meu pensar olhar-te e ao saber-me / Sabendo que tu és, que, só por ter-me/ Consciente de ti, nem a mim sinto. / E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto/ A ilusão da sensação, e sonho, / Não te vendo, nem vendo, nem sabendo/ Que te vejo, ou sequer que sou risonho/ Do interior crepúsculo tristonho/ Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa

Os olhos, um dos portais da consciência humana, falam. Eles são as janelas da alma, diz o poeta. É intrigante pensar o quanto um olhar é múltiplo de significados, ou, até mesmo, de pré-significados.

Um olhar é capaz de dizer tanto, pode dizer muito, e, até mesmo, dizer tudo. Ele pode ser reto, duro ou rígido; vir carregado de um oceano de possibilidades, promessas, inquietações ou angústias.

Os olhos captam as imagens e transmitem ao exterior a sua impressão, afinal, somos animais óticos, sendo que um terço de nossas vias nervosas são destinadas aos olhos. Através do olhar é possível perceber a realidade que nos cerca e observar o que se passa em nosso entorno. O olhar anuncia, proclama, implora.

Cada olhar é vasto em sinais que expressam, dialogam, sendo capaz de causar felicidade ou paradoxalmente, levar-nos ao “inferno”. Desta maneira, um olhar pode provocar efeitos avassaladores ou sublimes, pois, a todo o momento, vemos e somos vistos, e, quando olhados, temos a consciência de ser. Os indivíduos com olhos para ver estão em constante diálogo com o que seus olhos enxergam, pois  é através do olhar que podemos conhecer o outro e expressarmos nossos sentimentos, encorajando, consentindo ou até mesmo, negando.  O filósofo Sartre, em sua obra O Ser e o Nada (Vozes, 1997), dedica um capítulo inteiro a importância do olhar. Para Sartre, esse é o modo de captação mais estável, direto, profundo e individualizado que possuímos, onde compreendemos e apreendemos o outro em sua complexa individualidade e em toda a sua diferença. Vemos a nós mesmos pelo olhar do outro e é através desse olhar que estamos ligados ao mundo ao qual pertencemos, é por meio dele que olhamos além de nós mesmos.

Pelo olhar reconhecemos o outro e afirmamos nossa identidade, confirmando assim nossa existência. Quando percebemos o olhar do outro sobre nós, algo em nosso interior se agita, fazendo-nos viver uma alienação sutil de todas as nossas possibilidades. O olhar do outro na medida que o apreendemos, atribui a nosso tempo uma nova dimensão.

O olhar que os olhos manifestam nada mais é que a pura remissão a nós mesmos, à nossa individualidade; dessa maneira, nos enxergamos porque outra individualidade nos vê. Nos apercebemos que o outro existe para nós em primeiro lugar, através de nosso olhar. Pelos olhos nos apercebemos dos sentimentos de outra singularidade e buscamos descobrir o que existe para além desse olhar, o que se passa em seu interior. Desejamos ardentemente capturar sua essência. Muitas vezes, somos observados por olhos ávidos em desvendar nossos mistérios. Olhar, portanto, é perceber o outro e captar sua imagem, seus gestos e toda a grandeza de seus significados. Se não vemos ninguém em nosso campo visual, organizamos nossa realidade acerca de nós mesmos como centro. Porém, ao olhar o outro se estabelece à relação primeira, uma relação de consciências, somos nós o objeto do mundo alheio. E é no mundo e dentro dele que interagimos, que vimos e somos vistos.

Nós indivíduos, desejamos ser olhados, percebidos, reconhecidos; quem sabe até mesmo invadidos, porém, incontestavelmente aceitos por esse par de olhos. Que esse olhar repouse sobre nós e nos aprove, que nos dê respostas, que através desses olhos possamos alçar vôos imaginários e imagináveis para além de nós mesmos.  È através desse olhar  que fazemos o reconhecimento de nossa transcendência, somos os nossos possíveis, somos seres humanos. Nosso ser-para-outro é uma queda através do vazio abstrato em direção à nossa objetividade, Sartre diz que o outro me ensina o que sou.

A presença sem intermediários desse sujeito é a condição sine qua non de qualquer pensamento que tentamos formar a nosso respeito. Dirigimos, pois, nosso olhar para o outro e este, a nós retorna. Porém, aquilo que vemos e, em cuja realidade incontestável acreditamos, não existe de fato. O outro não vê através de nós, nem como nós. Nunca duas pessoas vêem um objeto da mesma maneira. Assim, enxergamos no olhar do outro, somente aquilo que supomos  ver.

Contudo, é somente provável que o outro me “olhe”, não podemos ter certeza de seu olhar, tudo são hipóteses, conjecturas. Pode ser que nos enganemos. Nossa percepção pode conter erros. Constatamos estarrecidos que estamos sós, cercados apenas por nossas imagens subjetivas.

Para sempre estaremos buscando através de outro olhar um sinal, uma resposta que seja nossa referência e que nos faça sentir vivos, que nos possibilite a chave para a compreensão da complexidade de existir.

Temos que exercitar o nosso olhar de turista, chega de vista cansada.

                                                Otto Lara Resende

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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