Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

PEDRO ABELARDO
Mariah de Olivieri

Assim como a sensação não é a coisa sentida, para qual se dirige, assim também a intelecção não é a forma da coisa que ela concebe, mas a intelecção é uma certa ação da alma, pela qual é chamada de inteligente, e a forma para a qual se dirige é uma certa coisa imaginária e fictícia, que o espírito elabora para si quando quer e como quer, como são aquelas cidades imaginárias vistas durante o sono ou como aquela forma de um edifício a ser construído.

Pedro Abelardo

Pedro Abelardo[1] nasceu em Le Pallet na França em 1079 e foi uma das figuras mais prestigiosas do século XII. Sua vida inquieta e atormentada propiciou nele o fomento literário de obras ricas, de conteúdo crítico e de novas metodologias, abrindo um caminho autônomo e inovador de investigações filosóficas. Em suas obras, pululavam fermentos críticos, inovadores e contestadores da cultura humanista. Suas idéias complexas foram definidas como a outra vertente da Idade Média.

Filho de um militar que amava as letras recebeu incentivo intelectual desde a mais tenra idade. Foi discípulo de Roscelin em Loches, de Guilherme de Champeaux em Paris e de Anselmo de Laon. Porém, mais do que humilde discípulo, Pedro Abelardo se mostrou sempre insatisfeito e crítico em relação às doutrinas apresentadas por seus mestres, principalmente em relação à natureza dos universais e ao uso da dialética.

Por seu descontentamento com seus mestres, abriu uma escola na colina de Santa Genoveva, em Paris, que logo transbordou de estudantes e admiradores.

O período mais significativo de sua trajetória acadêmica seguiu-se de 1114 a 1118, quando ocupou a cátedra da escola de Nôtre Dame. No concílio de Soissons, em 1121, algumas de suas teses sobre o mistério da Santíssima Trindade foram condenadas. Houve um repúdio às suas idéias, que foram consideradas desvios, assim como as teses relativas à lógica e ao papel confiado a ratio na investigação das verdades cristãs.

Nessa mesma época, Abelardo vivenciou uma célebre e dramática aventura amorosa com Heloísa, jovem literata; ao fim do romance, Heloísa adotou o véu e Abelardo se fez monge. Quando Heloísa morreu em 1162, vinte anos após a morte de Abelardo, foi enterrada na mesma tumba que seu venerado amor, a quem nunca deixou de amar.

Em sua existência, Abelardo dedicou sua obra a investigação de três áreas: lógica, teológica e ética.

Em Lógica Ingredientibus, enunciava o seguinte princípio: que sob o estímulo da dúvida empreende-se a pesquisa e, por meio dessa, chega-se ao conhecimento da verdade. Temos aqui a dúvida como ponto de partida, o caminho para a pesquisa. Esse enunciado trata de esclarecer o caráter problemático do pensamento, tanto filosófico como teológico, constituindo-se na premissa de qualquer investigação crítica.

Abelardo impôs algumas normas para a compreensão exata de um texto, independente de sua natureza. A primeira norma impõe a análise do significado dos termos de um texto, com todas as suas implicações históricolinguistas. Para esse inquieto filósofo, o entendimento de um texto poderia ser obstaculizado pelo uso incomum de um termo, bem como pela pluralidade e variabilidade de seus significados.

A segunda norma remete à comprovação da autenticidade do texto, tanto no que se refere ao autor, como no que diz respeito a possíveis e eventuais corruptelas e interpolações deste.

A terceira norma diz respeito à exigência do exame crítico de um texto pouco claro; para tal, deve-se confrontá-lo com texto original. Por fim, Abelardo propõe que não se deva confundir as opiniões citadas com a opinião pessoal do autor, e, sobretudo, que não se interprete como solução, aquilo que o autor apresenta como problema.

Abelardo fazia-se valer dessas normas para dar um caráter científico à investigação, porém, tinha consciência de que nem sempre essas regras o conduziriam a penetrar no real significado de um texto; como por exemplo, os textos bíblicos.

Afirma: É próprio das palavras significar ou revelar, e das coisas, o serem significadas.

No entendimento de Abelardo, era de vital importância a distinção da dialética versus a simples habilidade discursiva. Pois a dialética auxilia a discernir o verdadeiro do falso, à medida que no plano lógico-formal (com base em regras lógicas), fica estabelecido se o discurso científico é verdadeiro ou falso.

 A dialética, no entender de Abelardo, seria uma espécie de filosofia da linguagem, através da qual se controla a relação entre os termos e a realidade expressa; isso serve para impedir que se digam coisas inexistentes ou que se mencione mais do que seja efetivamente conhecido e que possa ser comprovado.

Abelardo se ocupou ainda com o problema dos Universais. No quadro das normas lógicas e do realismo moderado, afirmava que a dialética é a ciência que obriga o indivíduo a vigiar quem escreve ou todo aquele que lê, para que este não se entregue às ilusões sedutoras e a evasivas posições universalistas, nem que se abandone a julgamentos estritamente analíticos.

 Abelardo enfatiza que é necessário que se chegue a autênticas sínteses doutrinárias, para que se torne mais compreensível o mistério cristão, para que esse não seja profanado nem degradado; ele não pretendia ensinar a verdade, apenas propor algo de verossímil, que fosse acessível à razão humana e não contrário à Sagrada Escritura.

Em relação à ética, Abelardo dedicou à questão da vida moral, um tratado de bases socráticas, onde a consciência é o ponto de irradiação da vida moral. Distinguiu com maestria o plano de instintividade do plano consciente e racional. Para ele, o instinto era constituído de inclinações, impulsos e desejos naturais pré-morais.

O plano racional era o plano tido como verdadeiramente moral, onde o indivíduo manifesta suas intenções e propósitos. A acentuação da intencionalidade como fator determinante da vida moral, também chamado de subjetivismo ético tem três objetivos alicerçados na consciência individual que se constitui em norma imanente e absoluta da moralidade.

O primeiro, diz respeito à necessidade de o indivíduo interiorizar uma vida moral (que reside na alma, onde se cumpre o bem e o mal), antes que esta se manifeste em atos.

O segundo objetivo, relata a convicção de que o corpo não é poluído estruturalmente pela concupiscência, nem está tomado pela presença inevitável do mal; não havendo por isso necessidade de se desprezar a vida humana. Abelardo salienta que o indivíduo é inteiramente responsável por seus atos e que as paixões humanas não são malévolas nem pecaminosas em si mesmas. É, sobretudo, a adesão voluntária às solicitações dessas paixões que as tornam nefastas.

O terceiro escopo tem por base o não julgamento do próximo, sem antes conhecermos seus objetivos e fins; pois somente Deus (que não julga as ações cometidas e sim o estado de espírito em que são praticadas), está apto para examinar as ações do indivíduo.

Em nosso entender, a expressão que melhor define o pensamento de Abelardo é intelligo ut credam (entendo para crer, creio para entender). É a filosofia voltada para a razão, que busca compreender da melhor maneira as verdades da fé, não pelo simples crer e sim pela dialética, pois através do “diálogo” racional, pode-se chegar a conclusões consistentes e não fantasiosas.

De todos os enunciados de Abelardo, o que nos parece mais árduo de seguir é a questão do julgamento. A todo o momento e a tudo julgamos; cegamos nossa razão, amordaçamos sua voz e nos deixamos guiar tolamente por nossas emoções (na maioria das vezes equivocadas), não procurando investigar os reais motivos que determinam as atitudes de nosso próximo.

Não julgar. Deixemos essa tarefa para Ele, que tem bondade e misericórdia para compreender e aceitar nossos tolos limites:

Os homens individuais diferenciam-se uns dos outros, tanto pelas essências como pelos acidentes. Isso significa que todas as coisas existem enquanto são coisas individuais. Cada um dos homens, distintos uns dos outros, embora difiram tanto pelas próprias essências quanto pelas formas, se reúnem naquilo que são homens. Não digo no homem, já que nenhuma coisa é homem, exceto uma coisa distinta, mas no ser homem. Ora, ser homem não é homem ou coisa alguma.

[1] REALE, Giovani & ANTISERI, Dario. História da Filosofia. 1990. São Paulo, Paulus, vol.I, 3ªed. Coleção Filosofia, 693p.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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