

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Religião e cultura
Gaadeful
bör man ikke blot for André...
Mariah de Olivieri
A gente não deve constituir-se num enigma apenas para os outros, mas também para si mesmo. Eu estudo a mim mesmo; sabe Deus o que nosso senhor tem em mente mesmo a meu respeito, ou o que ele ainda vai fazer de mim.
Kierkegaard, in Alvaro Valls
Em tempos de busca por respostas, não podemos ignorar a estreita relação existente entre religião e cultura, já que ambas exercem papel significativo na vida racional-espiritual dos indivíduos.
Podemos definir cultura como toda a criação do espírito humano (formas artísticas e intelectuais, desde o modo mais primitivo, ao mais complexo). A cultura engloba diferentes aspectos da vida espiritual do indivíduo; assim, a religião encontra-se incluída nesse contexto.
O conceito de religião em contra-partida, possui igual abrangência universal, sem que em nada seja excluído da sua influência. A partir deste ponto, instala-se uma relação tensorial entre cultura e religião.
Existem três variantes que resultam da dialética entre cultura e religião: a cultura autonômica, a heteronômica e a teonômica.
A cultura autonômica nada mais é que a tentativa de criar formas culturais da vida social e individual sem referências anteriores, esta se baseia apenas nos exercícios racionais teóricos e práticos.
A cultura heteronômica é aquela que fundamenta a forma, a lei do pensamento e da ação, submetendo estes, a critérios autoritários de uma religião ou mesmo de uma ideologia (enquanto “quase” religião) política, muitas vezes vindo a destruir estruturas de racionalidade.
A terceira variante é a cultura teonômica, que expressa, em sua criação, algo que toca o indivíduo de forma incondicional, possuindo um sentido de transcendência (que constitui o fundamento espiritual dos indivíduos).
Devemos tentar entender religião e cultura inter-relacionando-as. Por sua magnitude e referencial próprio (o Absoluto), a religião não pode ser reduzida a uma área da cultura, ou ser simplesmente posta a seu lado. Em contrapartida, a cultura se apresenta à religião de forma reivindicatória, não podendo abdicar ou reduzir a si mesma, pois a religião é a substância da cultura e a cultura é a forma da religião. Portanto, todo o ato religioso, mesmo em nosso íntimo, assume forma cultural.
Paul Tillich, (teólogo alemão-estadounidense, filósofo cristão, um dos mais influentes teólogos protestantes do século XX), efetivou a análise religiosa da cultura, no âmbito do movimento chamado Socialismo Religioso (o qual auxiliou a fundar). De acordo com Tillich, o Socialismo Religioso seria um começo, rumando a uma nova Teonomia. Esta inédita Teonomia seria uma nova ordem econômica (socialista), e uma nova ordem global da existência, no sentido de imprimir um rumo novo à história da humanidade.
Este momento foi alcunhado como Kairós (que designa o instante oportuno para determinada ação). No Kairós, descobre-se determinada estrutura demoníaca e se passa a ajustá-la. Sabemos que os conceitos de demônio e de demoníaco foram fundamentais em toda a trajetória da história das religiões.
A eterna luta entre o bem e o mal, povoa nossas indagações existenciais, desde priscas eras. O demônio (espírito maligno) se apossa dos indivíduos, fazendo-os cometer insanidades e atrocidades. São denominados assim os deuses “caídos”, divindades “inferiores” que através da possessão do espírito humano, espalham o mal sobre a terra e os indivíduos; o socialismo religioso, em linguagem filosófica, denomina-os de estruturas destrutivas.
Foi a partir da Psicoterapia que surgiu a primeira fonte de experiência denominada estruturas destrutivas. Tem-se conhecimento que, principalmente na esquizofrenia, a consciência se bi-parte, levando o indivíduo a um estado de possessão, instalando-se aí uma estrutura destrutiva. E, diante dessa, a boa vontade de nada adianta.
Vivemos em uma sociedade, onde os indivíduos se encontram com sua estrutura emocional cada vez mais fraturada, onde a idéia de suicídio e o aniquilamento são quase que cotidianas, e a fragilidade humana inegável.
Karl Max, fez uma análise da sociedade ocidental, dentro do contexto social, salientando que em face das estruturas sociais, a boa vontade serve apenas para aprofundar a cisão entre as classes sociais. A desigualdade e a injustiça social imperam nessa pós-modernidade.
Desse modo, a superação do Demoníaco em uma situação histórica, não é viável, posto que a existência haverá de ser sempre ambígua sob todas as suas formas. A criação de uma situação teonômica da cultura, na qual o Divino se expressa, adveio do Socialismo Religioso ficando evidente, em toda tendência humana, a existência de um ponto de contato para a Teonomia.
Em todas as formas de expressões artísticas, existe certamente um ponto de contato, um sentido último, que exprime através dessas, manifestações criativas. A arte como movimento de religare, como fonte de expressão e cura de indivíduos enfermos emocionalmente. A arte como senda, rumo ao sagrado, para resgatar o divino no humano que nos habita.
Quando de fato, o indivíduo for tocado de maneira incondicional e, compreender e vivenciar o real sentido da transcendência, ele estará no caminho de encontrar a resposta para suas questões existenciais, assim como o verdadeiro sentido de sua estada nesse universo.
Vivenciamos tempos incertos, cada vez mais repletos de dores, inseguranças e medos de toda a espécie. Nossas certezas há muito desabaram. Entretanto, cada indivíduo necessita aceitar e compreender seu tempo, lutando por um mundo mais coerente e digno.
Certamente a busca por uma nova Teonomia, aponta um caminho onde seja possível resgatar a esperança de um universo digno de seres humanos.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.