Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

RENÉ DESCARTES
Mariah de Olivieri

Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os ter tentado abrir.

Descartes

Analisar uma obra é uma tarefa instigante. Expressar através da escrita, de forma concisa, ideias singulares e tão particulares de determinado autor, constitui-se, porém, em algo deveras complexo. Conjecturar sobre um momento de reflexão, sobre a ideia de outrem, que surge e que foi profundamente analisada, é invariavelmente uma missão de imensa responsabilidade; freqüentemente ao fazê-lo, nos indagamos: possuiremos sensibilidade e talento para traduzir em palavras o pensamento filosófico de determinado autor?

Com-pre-ender, isto é, a-pre-en-der um raciocínio, um conceito, pensado em um outro tempo e lugar, será viável? Poderemos dizer algo além, do já dito? Como, a partir de nosso entendimento, será possível transmitir com clareza, o que o autor ajuizou em priscas eras? Conseguiremos contentar aquele que nos lê? Essas e outras conclusões legaremos a você, caro leitor.

René Descartes foi um indivíduo sensível, delicado, repleto de questionamentos conflitantes. Viveu grande parte de sua existência diversando sobre a razão e o sentido lógico das coisas. Seu pensamento se mantém coevo, carregado de uma atemporalidade ímpar, sendo de extrema valia na vida humana.

Em um lugarejo nas cercanias de Ulm, na Alemanha de 1619, em uma noite de novembro, Descartes viveu uma experiência extraordinária: parecia haver descoberto os fundamentos de uma admirável ciência.

O arrebatamento prosseguiu durante o sono; foi durante esse, que Descartes recebeu a indicação da missão a que deveria consagrar sua existência: unificar todos os conhecimentos humanos a partir de bases seguras, feitas de certezas racionais. Coube a ele a tarefa de inaugurar, desde os fundamentos, o luminoso reino da fidúcia.

Por ser um indivíduo considerado de difícil acesso, como a grande maioria dos seres sensíveis, que se ocupam com coisas sérias, a saber: questões existenciais, profundamente intrincadas, que habitam os recônditos da alma humana, Descartes passava longos períodos recolhido em um pequeno cômodo, ocupando-se com suas ideias.

Nosso filósofo não se satisfez com as sobras das ruínas da visão do mundo medieval; ele começou tudo de novo, encontrou um ponto de partida e demarcou um novo itinerário, que o conduziu, de forma memorável, a certezas científicas universais; encontrou o caminho certo, o seu caminho.

Descartes foi considerado o pai, na moderna filosofia, da tradição subjetiva e idealista (como fora Bacon na tradição objetiva e realista). A ideia central de sua filosofia consiste no primado da consciência, daí a proposição de que o espírito conhece a si mesmo, mais direta e imediatamente, do que se pode conhecer qualquer coisa.

O espírito conhece o mundo unicamente através das sensações e percepções que o mesmo lhe proporciona. Conseqüentemente, para Descartes, toda a filosofia deve iniciar por um eu pensante individual.

Eu penso, logo existo; trata-se do Cogito, ergo sum. Descartes[1] utiliza essa expressão para salientar as exigências do pensamento humano, isto é, a clareza e a distinção, em que os outros conhecimentos devem se inspirar. O Cogito de Descartes desvenda o indivíduo, ou melhor, as exigências que devem assinalar o seu pensamento e as suas aquisições intelectuais e torna todo o resto problemático, no sentido de que, adquirida a verdade da própria existência, é necessário ir a busca da conquista do real diverso de nosso eu, acossando as características da clareza e da distinção.

Esse brilhante filósofo desejava submeter tudo no universo, (exceto Deus e a alma) a leis mecânicas e matemáticas. Dado o impulso inicial de Deus, tudo o mais na astronomia, geologia e, em todos os processos e desenvolvimentos não mentais, poderia ser explicado como que partindo de uma substância homogênea, que existisse a princípio como forma desintegrada; e, todos os movimentos do corpo humano e dos animais se tornariam movimentos mecânicos.

Descartes afirmava que tudo no mundo e todos os corpos eram máquinas, tudo é máquina, proferia ele. Fora do mundo, porém, Deus; e, dentro do corpo, a alma.

Na meditação primeira, concernente à primeira filosofia, Das coisas que se podem colocar em dúvida, a qual nos ocuparemos em discorrer, ele se interroga sobre as razões pelas quais podemos (ou devemos?) duvidar de todas as coisas. A dúvida, o ponto de interrogação, o real sentido dos sentidos, o falso, o “aparente” verdadeiro, para onde tudo isso conduz?

Essa meditação tem como peculiaridade o fato de não se tratar aí de estabelecermos verdade alguma, mas apenas de nos desfazermos desses antigos prejuízos. A dúvida, assim posta em ação, consiste, pois, em tratar como falso o que é apenas duvidoso, e como enganador, o que alguma vez já nos tenha enganado.

Ora[2], se bem que a utilidade de uma dúvida tão geral não se revele desde o início, ela é, todavia nisso muito grande, porque nos liberta de toda a sorte de prejuízos e nos prepara um caminho muito fácil para acostumar nosso espírito a desligar-se dos sentidos, e enfim, naquilo que torna impossível que possamos ter qualquer dúvida quanto ao que descobriremos, depois de verdadeiro.

Como ponto de partida, Descartes analisa e questiona a validade e a real utilidade da dúvida que, embora em um primeiro momento, possa não se revelar de extrema eficácia, pode ser considerada de grande valia, visto que, ao se duvidar de qualquer situação ou fato, essa conduta oportuniza a libertação de possíveis danos, fatalmente inerentes à qualquer forma de ilusão, seja a mesma concreta ou abstrata.

Sobretudo, com essa postura cética, o indivíduo prepara e treina seu espírito para indubitavelmente, se libertar de possíveis prejuízos, desligando-se dos sentidos, para não ser por eles ludibriados. Portanto, quando não nos iludimos a respeito de algo, quando questionamos o que quer que seja, treinamos nosso espírito para a busca da verdade.

Nessa primeira meditação, Descartes infere em questionamentos feitos a si, assim como quanto às falsas opiniões que recebeu e que lhe foram impingidas pela vida à fora. Ao checar tais informações, averiguou serem essas cavas e incertas, sem bases concretas e sustentáveis.

Descartes procurou despir sua mente de todos os conceitos armazenados até então, buscando no profundo de si a sua própria verdade. Para tal, esperou atingir uma idade na qual suas verdades fossem inquestionáveis para si mesmo.

Na solidão de seus aposentos, ele questiona e destrói suas antigas opiniões. Com isso ele não prova que suas opiniões são falsas, mas apenas o menor motivo de dúvida, basta para ele rejeitar todas as opiniões.

Como tudo em que acreditava partia dos sentidos, e esses já o haviam enganado uma vez, proferia com rara sabedoria: é prudente nunca confiar nem se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.

Desse modo, Descartes trata como falso o que é apenas duvidoso, e como sempre enganoso, o que alguma vez já o tenha enganado. Mesmo que os sentidos nos enganem em algumas ocasiões, existem fatos dos quais não podemos duvidar: a presença física aliada ao fato de cada indivíduo ser ele mesmo, na sua condição de vida real e não metafórica.

Descartes discorre sobre os sonhos e suas representações, comparando-os com os devaneios daqueles que sonham acordados. Temos aqui o segundo grau da duvida, onde ele estende à mesma a todo conhecimento sensível. Todavia, fazer a distinção entre a vigília e o sono, será possível? Quando estamos realmente acordados ou dormindo?

Descartes fica perplexo com tal pensamento, de modo que fica difícil para ele realizar a correta distinção entre um estado e outro: todavia, há muito que no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo não me pareça existir de maneira diferente daquela que vejo?

Nessa passagem, Descartes questiona se o Deus todo poderoso não o estará enganando mais uma vez. Serão os seus pensamentos verdadeiros ou enganosos?

Nesse ponto, supõe que não exista um Deus verdadeiro soberanamente dono da verdade, e sim, um certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que o todo poderoso, e que este, empregou todos os meios para enganá-lo. E, a partir disso, tudo o que existe é ilusão.

 A função de um Deus enganador e do gênio maligno é a mesma: impressionar a imaginação e levar a dúvida à sério. Quanto mais a dúvida for vivida de forma radical e arbitrária, mais as certezas que se impuserem se apresentarão inabaláveis. Portanto, tomar a dúvida levianamente, é expor-se a nada compreender.

Descartes enfatiza que, não há erro mais grave do que julgarmos a dúvida fingida, e não há erro mais comum, porquê são poucos os indivíduos que levam a dúvida a sério; ressalta que, ao surgir uma dúvida, devemos levá-la em consideração.

 Nunca devemos ignorar ou mesmo não dar importância a uma dúvida, pois, uma vez que ela surja, devemos prestar a máxima atenção e buscar a verdade indubitavelmente. Só dessa maneira restará somente a verdade, a certeza incondicional.

Quanto mais a dúvida for investigada, dessecada e vivida de forma radical, mais as certezas que se apresentarem se tornarão inabaláveis.

De forma brilhante, Descartes discorre que não é fácil libertar-se de todos os erros nos quais o indivíduo está imerso desde a infância, e principalmente que, é quase impossível fazer demasiado, exatamente o que não se duvida de modo algum ser necessário.

Algumas vezes, quando não em sua maioria, tomamos coisas falsas como verdadeiras e pouco nos importa que não as julguemos mais verdadeiras que outras, e estas, supostamente falsas.

Como saber quando estamos no mundo real? O que é ser verdadeiro? Como podemos provar verdades a nós mesmos? Onde se encontra o princípio e o fim de tudo?

Essas e outras questões nos levam à reflexão e certamente arriscaremos ao longo de nossa jornada, abstrações, artigos e tais, sempre em busca de respostas. Acreditamos, assim como Descartes que, na medida em que a dúvida seja questionada de maneira profunda, até sua máxima dimensão, (e por isso nos sentimos tão frágeis, inseguros e ameaçados), será justamente nesse instante que poderemos, ao capturar sua sutileza e ao testar seu limite, estar aptos à alcançar a sua superação.

A virtude, em última análise, é identificada com a vontade do bem e esta com a vontade de pensar o verdadeiro, que sendo verdadeiro, também é bem.

O indivíduo sensível e cônscio de suas incertezas deve buscar de forma incondicional, indubitavelmente, o tempo inteiro, até o fim, a sua verdade.

[1] REALE, Giovani & ANTISERI, Dario. História da Filosofia; 1990. São Paulo, Paulus, vol. II – Coleção Filosofia, 956p. 

[2] PESSANHA, José Américo Motta. Descartes – Vida e obra. 1991 -. São Paulo: Nova Cultural, 5º ed, 387p.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


Fale Comigo

voltar