
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
SANTO AGOSTINHO
Mariah de Olivieri
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E dizer que os homens vão admirar as encostas das montanhas, os vastos fluxos do mar, as amplas correntes dos rios, a extensão do oceano, o girar dos astros, e abandonam-se a si mesmos. Confissões – Santo Agostinho Aurélio Agostinho[1] nasceu em 354 em Tagasta, pequena cidade da Numídia, na África; tendo por progenitor um pagão e por genitora uma fervorosa cristã, sofreu influências antagônicas. Tornou-se professor e lecionou em Tagasta, em Cartago (de onde veio a mudar-se em função da turbulência estudantil) e Roma. Foi em Milão, ainda no cargo de professor que, através de profundas reflexões espirituais, converteu-se ao cristianismo. Em meio às tormentas antecedentes à sua conversão, experimentou em si o capricho dos instintos aos decretos da vontade; sabia que a alma dá ordens ao corpo e é obedecida imediatamente; porém, ordena a si mesma e encontra resistências. Nesse mesmo período, demitiu-se da função de catedrático e prosseguiu sua existência ao lado de seus familiares. No ano de 387, Agostinho recebeu o batismo e retornou à África, depois de passar um período em Roma. De volta a Tagasta, fundou uma comunidade religiosa, adquirindo grande notoriedade pela santidade de sua vida. Em 395 foi consagrado bispo. Através de suas obras literárias, determinou uma reviravolta na história da Igreja e do pensamento do Ocidente. Faleceu em 430, época em que vândalos sitiavam a cidade. Todas as fases da vida de Agostinho e os acontecimentos a elas relacionados mostraram-se decisivos para a formação espiritual e a evolução de seu pensamento filosófico e teológico. Sua produção literária, ao longo de sua existência, foi imensa. Agostinho foi profundamente influenciado pela firme fé de sua genetriz. As verdades saídas de seus lábios constituíram o ponto de partida de sua evolução espiritual. Embora contrário por anos a fio aos princípios da religião cristã católica, acabou sucumbindo às verdades de sua mãe. Outra figura de peso da vida de Agostinho foi Cícero, que abalizou sua conversão à filosofia. Cícero foi um verdadeiro marco em sua vida espiritual; através da obra Ortensio, Agostinho afirmou ter mudado seus sentimentos e tornado diferente suas preces, seus votos e seus desejos. A reflexão de Agostinho mostra-se cuidadosa em esclarecer, tanto quanto possível, as verdades reveladas; volta-se para Deus e para a alma com vistas a seus acessos à Deus. Agostinho acredita firmemente de que a alma, no mais profundo de si mesma, deve sua existência a Deus. A fé tornou-se substância de sua vida e de seu pensamento, configurando-se em seu horizonte existencial. É significativa a maneira pela qual ele aborda a questão da alma, sendo levado a descobrir através de seu espírito mutável, a eternidade verdadeira e imutável da alma. Agostinho enfatiza que o conhecimento do indivíduo, por si mesmo, está envolvido no ato de conhecer; e que é a alma que se procura conhecer, sobretudo, como sujeito que procura. Podemos observar que sua psicologia emerge constantemente do âmago de uma metafísica intensamente vivida. Metafísica essa, inspirada, sobretudo em Plotino, mas um Plotino evidentemente ordenado pelo dogma da nova fé. Essa correção da fé exige especialmente a rejeição da alma como Alma do mundo e do ciclo de reencarnações. Deus, todo poderoso, onisciente, criou tudo através do verbo, na própria matéria e no tempo em que se desenvolve sua obra. O pecado original é admitido por Agostinho com trágica seriedade e sua psicologia deve ser entendida, em constante referência, explícita ou implícita, à esse evento que interessa, como dogma trinitário, a todas as etapas de suas elucubrações, quando trata do psiquismo humano. Em 373, Agostinho abraçou a maquineísmo, encontrando uma doutrina de salvação no nível racional e um espaço para Cristo. O dogma maquineísta afirmava a existência de dois princípios diversos e adversos entre si: o bem e o mal. Infinitamente justo e bom, o mal não lhe poderia ser imputado, devendo-se atribuir sua existência à desobediência inicial do gênero humano. Se sua atitude a respeito do pecado original sofre flutuações, não podemos duvidar de que se tenha chegado finalmente, no ardor de sua reação contrária ao pelagismo, a reduzir em teoria o paradoxo papel da cooperação humana com a obra da salvação, para salientar sempre mais o papel da graça, dom gratuito de Deus, socorro ao qual o indivíduo deveria a fé que o anima e o amor do qual se mostra capaz. Entregue a si mesmo, o indivíduo não poderia, portanto, encontrar salvação, e nem a redenção nascida do sacrifício de Cristo, seria capaz de assegurá-la. Diz ele: Ninguém pode atravessar o mar do século se não for carregado pela luz de cristo. Em relação à graça, Agostinho afirmava que a revelação cristã gira essencialmente em torno da necessidade da graça. Ao se colocar contra Pelágio, argumentava ser a boa vontade e as obras, suficientes para a salvação do indivíduo (desprezando assim a necessidade da graça). Sua tese obteve tanta força que veio a triunfar no Concílio de Cartago, propiciando ao papa Zózimo condenar o pelagianismo. Minuta Agostinho: pretendem que a concupiscência da carne (...) seja uma substância contrária (...) e que duas almas e duas inteligências, uma boa e outra má, lutem entre si no homem, ser único, quando a carne tem desejos contrários ao espírito e o espírito desejos contrários à carne. Nessa passagem, fica claro a eliminação da necessidade da fé, que explica a realidade, pura e simplesmente pela razão. Todavia, a partir de um colóquio que Agostinho teve com o bispo Fausto, foi convencido da insustentabilidade da doutrina maquineísta; mesmo assim, o bispo não encontrou respostas para algumas argüições de Agostinho. Em 383 Agostinho se afastou do maniqueísmo e envolveu-se com a filosofia da Academia Cética, que admitia ser possível ao indivíduo de tudo duvidar, já que este não possui o conhecimento de nada. Não satisfeito, por não encontrar o nome de Cristo nessa filosofia, Agostinho partiu em busca de outras verdades. Ao fazê-lo, defrontou-se com o materialismo e o dualismo, onde finalmente achou explicações para os conflitos internos que assolavam seu espírito. Foi em Milão, com o bispo Ambrósio, que aprendeu a maneira correta de interpretar a bíblia. Através do texto de São Paulo, resgatou o sentido da fé, da graça e de Cristo. Compreendeu que uma verdade para ser adquirida, requer revolução interior, não de razão, mas de fé. E que Cristo crucificado é o caminho para operar essa revolução. Agostinho dizia que o verdadeiro grande problema não é o do cosmos, mas sim o do indivíduo, e que o verdadeiro mistério não é o mundo, mas nós para nós mesmos: que profundo mistério é o homem! O final da existência de Agostinho foi marcado por debates polêmicos e pelas batalhas contra os heréticos. Empenhou-se contra as idéias e teorias de Donato, que afirmava e defendia a necessidade de não aceitar na comunidade cristã todos aqueles que, durante as perseguições, haviam cedido aos perseguidores. Agostinho entendeu o equívoco de Donato: fazer a validade do sacramento depender da pureza do ministro e não da graça de Deus. Por sua posição adotada diante da fé cristã, Agostinho não possui uma teoria psicológica de articulações precisas. O tormento de seu grande espírito busca esclarecer as contradições do pensamento cristão. Agostinho exerceu uma singular atração, influenciando os espíritos tendentes a um misticismo intelectual, pela idéia da inferioridade espiritual que transparece em sua filosofia, na qual a inspiração é o sentimento de Amor que está além das divergências de doutrinas, no rumo da certeza vivida, de que nada ultrapassa em excelência as virtudes teológicas da fé, da esperança e da caridade. Agostinho foi uma personalidade que, sem dúvida, influenciou a igreja de seu tempo. Sua ascendência se estendeu para além dos domínios da filosofia, da dogmática, da teologia moral e da mística, ultrapassando os comandos da vida social, caritativa, política, eclesiástica e do direito público, sendo um dos marcos da cultura ocidental da Idade Média. Essa grande persona deixou como legado um importante e reflexivo pensamento: o de que podemos amar o que jamais vimos ou que pouco o tenhamos visto, embora à muito o conheçamos em sua essência, pois o amor habita a alma de cada indivíduo. Assim, muitas vezes, amamos o que ou quem pouco conhecemos, pois o essencial, é invisível aos olhos. Que rara sabedoria habita essas palavras! |
[1] REALE, Giovani & ANTISERI, Dario. História da Filosofia. 1990. São Paulo, Paulus, vol.1, 3ªed. Coleção Filosofia, 693p.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.