Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Sistema e Liberdade - A fundamentação metafísica da ética em Hegel
Mariah de Olivieri

Cada uma das partes da Filosofia é um todo filosófico, um círculo rodeado e completo em si mesmo.

G.W.F. Hegel

As estruturas inteligíveis da ação humana têm por pressuposto (o que permite simultaneamente pensá-las e ordená-las desde Platão a Hegel) a unidade de um pensamento que engloba o todo da realidade, onde a escritura da unidade da metafísica e da ética consistem em um dos muitos pontos que aproximam esses dois filósofos.

Recentes pesquisas mostram de maneira enfática a presença da liberdade e do princípio da razão prática (ética) no centro da estrutura fundamental da navegação platônica e da estrutura lógica do sistema hegeliano. Dessa forma, a metafísica da liberdade, o Absoluto como princípio da ordem das razões é o ponto comum e se torna o cerne da questão que os envolve e que os une, tanto no início como no final da filosofia ocidental.

A filosofia julga, demonstra, ordena e unifica o mundo das coisas, o chamado mundo humano à luz do logos. Depois de Hegel, a filosofia morre na teoria para renascer na práxis, o indivíduo histórico é o ponto convergente da trama da ética hegeliana.

 Hegel parte, fundamentalmente, da síntese a priori de Kant, em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é amortizada ao âmbito da experiência.

Na filosofia greco-cristã, o indivíduo descobre os fins do seu agir referindo-o a um fundamento, assim, o agir humano (racional e livre) é pensado pelo sujeito da ação e referencia-se fundamentalmente em suas normas.

Os conceitos modernos de indivíduo e de natureza apresentam-se como pontos pertinentes à linha de ruptura da razão clássica greco-cristã. Cabe assim ao eu assegurar a unidade biopsíquica e espiritual do indivíduo, a forma de sua relação com o mundo, com o outro e com o absoluto. A ruptura com o conceito grego de natureza faz com que o conceito de Deus-criador vá se dissolvendo no universo mental do homem moderno. A nova idéia de razão manifesta-se na constituição de um tipo de ciência que se funda na relação técnica do fazer dos indivíduos com o mundo.

A revolução científica galileana e as revoluções filosóficas protagonizadas por Descartes e Hobbes impuseram um duplo desafio à metafísica e a ética moderna: pensar a constituição e a estrutura cognoscitiva do sujeito, dando um novo rumo à razão: pensar a natureza da realidade construída pela poíesis humana.

A revogação da forma da objetividade do útil é um fato consumado; dessa combustão interior desponta (atualmente) a revolução efetiva da efetividade – a nova corporatura da consciência, a liberdade absoluta. O que se revela presente não é nada mais que um vazio aspecto da objetividade, apartando da posse a consciência-de-si. Mencionamos Hegel na célebre definição § 142 da sua Rechtsphilosophie:

"A eticidade é a Idéia da liberdade [die Idee der Freiheit] como bem vivo, que tem o seu saber e o seu querer na autoconsciência [Selbstbewußtsein], e a sua efetividade pela sua operação [Handeln], assim como esta ação tem a sua base em si e para si e o seu fim motor no ser ético [an dem sittlichen Sein seine an und für sich seiende Grundlage und bewegenden Zweck hat], - o conceito da liberdade que veio a ser mundo presente e natureza da autoconsciência".

O espírito é o retorno da idéia para si mesma e está coevo como liberdade absoluta. Hegel afiança que a determinação absoluta do espírito consiste em ter a liberdade como seu próprio objeto, onde a consciência-de-si se compreende de maneira que sua certeza de si mesma é a essência de todas as massas espirituais, quer se encontrem no mundo real ou do supra-sensível, ou de modo inverso, onde a essência e a efetividade são o saber da consciência sobre si mesmo; a essência é consciente de sua pura personalidade, e de toda a realidade espiritual: pois toda a realidade é só espiritual.

No sistema hegeliano a vida do espírito culmina efetivamente no estado, pondo dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto, em que, através de uma última hierarquia ternária de graus (arte, religião, filosofia), o espírito realiza finalmente a consciência plena da sua infinidade, da sua natureza divina, em uma plena adequação consigo mesmo.

Dessa maneira regressou a essa deliberação simples – como a seu fundamento e espírito – em unânime, toda a subsistência e vigência dos membros determinados da disposição do mundo efetivo e do mundo da fé.

 Todavia, essa determinação simples nada mais tem de próprio para si; é antes de qualquer coisa, pura metafísica, pura apreciação ou saber da consciência-de-si. A respeito do ser-em si-e-para-si do útil como elemento, a consciência sabe de certo que seu ser-em-si é fundamentalmente ser para Outro.

Desse modo, urge pensar a história como tarefa propriamente humana na perspectiva do dever-ser inerente à inteligibilidade do ethos, segundo a estrutura teleológica da própria história.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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