Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

UTOPIA
Mariah de Olivieri

Umas vezes penso que a vida é sonho-espaço alvo onde circulam os desejos, os espelhos, a dor. Labor inconseqüente procuro sentido, a verdade, um caminho. Nada existe. Nasci triste, nasci triste. Outras vezes penso que tudo é real-natureza como surpresa, sistema de acasos aleatoriamente organizados numa desordem de extremos, cadeia e revolução, presa e reação.

Umas vezes penso que a morte é sono-silêncio negro, ausência e nada mais. Outras vezes penso que é retorno-luz, mistério, paz. Redemoinho de rebentos, tempo rarefeito, vôo e libertação. Sossego e sagração.

Umas vezes sinto sono, mas quase nunca sonho. Outras vezes realidade, mas quase sempre engano. Umas vezes aspiro ao mito, outras vezes entendo o fato. Umas vezes rosa outras machado.

                             Rogério de Almeida

Thomas More[1] nasceu em Londres em 1478, era católico e deveras rigoroso em sua fé religiosa. Foi discípulo de Erasmo e, sem dúvida, um humanista de estilo elegante; exerceu cargos elevados e participou de forma ativa da vida política renascentista.

A obra que imortalizou More foi Utopia, um dos mais notáveis e conhecidos escritos da época, cujo mote trata de como o indivíduo desejaria que a realidade fosse. O termo utopia refere-se a um projeto irrealizável, uma quimera, com a significância de algo que não existe em lugar nenhum. Platão já havia excursionado por esse tema quando escreveu a célebre República, que descrevia a cidade perfeita, ideal.

A capital de Utopia chama-se Amauroto; termo que significa cidade que se esvaece como uma miragem. Toda a descrição da obra Utopia é baseada em reforçar o ideal de funcionamento de uma cidade. More estava convicto, influenciado pelo otimismo humanista, de que bastava seguir a sã razão e as leis da natureza, (que estão em perfeita harmonia com a razão), para que os males da sociedade fossem erradicados. Utopia não apresenta um programa social a ser realizado, mas sim princípios destinados à função normativa.

É pensando em felicidade e prazer que More caracteriza o sentido e razão da existência de Utopia. A filosofia de Utopia constrói toda uma lógica da busca de prazer, porém com muita lucidez. More enumera uma hierarquia e classifica os prazeres físicos, intelectuais e espirituais.

More almejava o bem comum, a igualdade, a ausência de orgulho mesquinho e a busca pelo prazer. Essa busca pelo prazer é que vai dar uma razão ideológica para essa sociedade igualitária, mas rigidamente controlada. A ética e a religião também estão ligadas à busca pelo bem-estar e felicidade.

Os habitantes de Utopia são pacifistas, seguem deleites sadios, admitem cultos diversos, honram a Deus de diferentes modos, sabendo se compreender e se aceitar reciprocamente nessas diversidades.

A felicidade tem que ser pensada coletivamente, pois um mundo de igualdade não teria sentido se não fosse pensado com o intuito de alcançar a felicidade. A labuta, assim como a riqueza, deveria ser distribuída de modo justo, isto é, com igualdade a todos os indivíduos.

Um dos principais apoios da obra de More, está baseado na ausência da propriedade privada; e parafraseando Platão em República, na inexistência de meu ou teu. O que existe é o nosso.

A força de trabalho fundamental de Utopia é a do homem livre, o cidadão de Utopia. Essa força de trabalho é rigidamente controlada pelo governo. A educação é oferecida a todos, e cultivada com esmero. Thomas More sabia da necessidade da difusão do conhecimento.

Neste país, vive-se um clima ideal, porém irreal (ideal, pois inexistem diferenças sócio-econômicas), contudo, irreal e ilusório, visto a situação da hierarquia social vigente, que primava pela desigualdade; e principalmente, a mentalidade e postura egoísta dos governantes, onde só o que é meu (deles), é o que verdadeiramente importava. More criticou sobremaneira a contenção da riqueza entre poucos, em favor do infortúnio de milhares.

More apóia-se em uma premissa frágil – a igualdade. Para ele, que acreditava na força da união, cada indivíduo deveria ser cônscio de seus deveres e respeitar o seu próximo como a si mesmo. O trabalho era digno, com horas para o lazer e demais atividades. Desaparecem as diferenças, de renda e de status social.

Chama-nos atenção em especial, nessa obra, o espaço garantido aos literatos, que poderiam dedicar-se às suas pesquisas e leituras e, que nem por isso, seriam alcunhados de desocupados, por quem não compartilhava dos mesmos interesses.

Em Utopia, observamos ainda a questão da singularidade, onde a cada indivíduo é dado o direito de cultivar suas particularidades; sejam crenças, mitos ou religiosidade, sem que seja agredido ou rejeitado por ser diferente; onde a compreensão e aceitação das diferenças fazem parte do cotidiano dos cidadãos.

Eis um escrito irrefutável contra a desumanidade, que reina soberana nesse século XXI. Em Utopia, More ensinou a fecundar consciências.

More sonhou com uma sociedade humana, isenta de injustiças, repleta de direitos individuais. Seu texto atravessou séculos e na contemporaneidade, não poderia ser mais oportuno. Sua obra remete à reflexão contundente sobre os valores que norteiam a vida dos indivíduos.

Em tempo de incertezas e desigualdades sócio-culturais, Utopia nos propõe um exercício de lucidez e tomada de consciência, frente à postura assumida por nossos governantes, isso sem dúvida, nos faz refletir:

Por onde andam a consciência dos indivíduos detentores do poder? Será que Utopia não é um estado de direito de todo indivíduo? O protesto frente às desigualdades não pode mais ser sufocado.

Até quando iremos conviver pacificamente com as abissais injustiças sociais, onde prevalecem as desigualdades e as misérias humanas?

 Absurdo e irreal tornou-se o nosso cotidiano, inundado de violência e iniqüidade. Urge buscarmos inspiração em More e em seu país utópico, para tornarmos nosso mundo mais digno e habitável.

[1] REALE, Giovani & ANTISERI, Dario. História da Filosofia; 1990. São Paulo, Paulus, vol. III – Coleção Filosofia, 950p.

Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e  Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.

Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.


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