
Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
ZARATHUSTRA
Mariah de Olivieri
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“A grandeza do homem é que ele é uma ponte e não um término: o que pode ser amado no homem é que ele é uma transição e uma destruição. Eu amo aos que não sabem viver exceto em perigo, porque esses vão longe”. Nietzsche Friedrich Nietzsche[1] nasceu filho de Darwin e irmão de Bismarck. Pouco importa que haja motejado os evolucionistas ingleses e os nacionalistas alemães; era hábito seu denunciar os que mais o influenciavam – um meio inconsciente de liquidar dívidas. Nietzsche viveu em um período de grandes acontecimentos lastimosos e guerras; sua filosofia é uma extraordinária manifestação de sua personalidade e de sua existência, pois para ele, fazer filosofia era seu modus vivendi. Nietzsche enfatizava que se a vida é luta na qual apenas os mais aptos sobrevivem, então força é a virtude suprema e fraqueza o defeito único. Bom é o que sobrevive, o que vence; mau o que falha. Unicamente a covardia vitoriana dos darwinistas ingleses e a respeitabilidade burguesa dos positivistas franceses e dos socialistas alemães, podiam iludir o inevitável desta conclusão. Aqueles indivíduos eram bastante aguerridos para rejeitar o cristianismo e a teologia cristã, mas não ousavam ser lógicos e rechaçar também as ideias morais, a adoração da fraqueza, da suavidade e do altruísmo que haviam brotado dessa teologia. Cessavam de ser anglicanos, católicos ou luteranos, mas não cessavam de ser cristãos. Os indivíduos sensíveis que se ocupam com as coisas do pensar, cedo percebem o que os mais profundos cérebros de todas as eras haviam compreendido: que nessa batalha que denominamos vida, o de que necessitamos não é bondade, mas força; não é humildade, mas orgulho; não é altruísmo, mas resoluta inteligência; que a igualdade e a democracia se chocam contra a seleção natural e a sobrevivência dos mais aptos; que não as massas, mas os gênios, são o objetivo da evolução; que não “justiça” mas sim poder, é que se constitui no árbitro de todas as diferenças e de todos os destinos. Assim parecia a Nietzsche. Esse brilhante filósofo foi descendente de uma família protestante, alemã; uma longa estirpe de clérigos estendia-se em sua linhagem de ambos os lados e ele próprio permaneceu pregador até o fim. Nietzsche atacou o cristianismo porque em si próprio havia muito do espírito moral dessa fé; sua filosofia era uma tentativa para contrabalançar e corrigir por meio de violenta contradição uma irresistível tendência à suavidade, à bondade e à paz. O culto ao sentimento foi erigido no lugar do culto à razão. Nietzsche permaneceu piedoso, puritano e casto até o fim de seus dias; daí o seu ataque à piedade e ao puritanismo. Como ardia por ser um pecador! Ao perder a fé no Deus de seus pais aos dezoito anos, passou o remanescente de sua existência procurando uma nova divindade; julgou encontrá-la no Super-homem. Após refugiar-se na arte, abrigou-se na ciência – cujo ar friamente apolíneo lhe varreu da alma os ardores dionisíacos. Como Spinoza, procurou acalmar as paixões, examinando-as. Nesse tom, na solitária altitude dos Alpes, escreveu em 1883, Assim Falava Zarathustra; livro considerado sua obra prima; na realidade, foi um dos grandes livros do século XIX e nada foi ainda produzido com tal superabundância de força. A tese fundamental da obra, a idéia do eterno retorno, é a fórmula suprema da afirmação, e a mais alta que se pode idear. Se todo o espírito e toda a bondade das grandes almas fossem reunidos, a resultante não criaria uma só das falas de Zarathustra. Esse livro ficará só, escreveu Nietzsche mais tarde. Apesar de ter sido um dos grandes escritos do século XIX, Nietzsche, todavia, lutou muito para imprimi-lo e teve de pagar do próprio bolso, para que tal ocorresse. Apenas cinqüenta exemplares foram comercializados. Nunca um indivíduo se viu tão só. Sentei-me esperando-o por nada, gozando, além do bem e do mal, ora a luz ora a sombra; só havia o lago, o sol, o tempo sem fim. Então meu amigo, o um tornou-se dois – e Zaratrustra passou por mim. Nietzsche deparou-se com a inspiração em Zoroastro, seu novo mestre e em uma nova religião, a Eterna Recorrência: necessitava cantar: Eu posso cantar um canto, e quero cantá-lo, embora esteja só numa casa vazia e tenha de cantá-lo em mim para meus próprios ouvidos. (Que solitude há nesta frase). Vede! Estou cansado de minha sabedoria, como a abelha que colheu muito mel; necessito de mãos que para ela se estendam. Sua alma ergueu-se e derramou-se por todas as margens. Precisava cantar um canto – filosofia (que oferece um asilo onde nenhuma tirania pode penetrar), montada na poesia e esporeada pela inspiração. No livro em questão, Nietzsche relata a trajetória de Zarathustra, que aos trinta anos, desce da montanha para pregar às turbas, como fizera o seu protótipo persa Zoroastro; mas a multidão afasta-se dele para ver um saltimbanco que andava na corda bamba. O saltimbanco cai e morre. Zarathustra toma-o nos ombros e leva-o; porque do perigo tu fizeste a tua vida, enterrar-te-ei agora com minhas próprias mãos. Vive perigosamente, prega ele. Erige tuas cidades ao lado do Vesúvio. Manda os teus navios para os mares inexplorados. Permanece em estado de guerra. E lembra-te de descer, assinalava. Declinando da montanha, Zarathustra encontra um velho eremita que lhe fala a respeito de Deus. Mas quando Zarathustra se viu só, falou para o seu coração: Será possível? Este velho santo na sua floresta ainda não soube da morte de Deus? Mas era fato que Deus estava morto – todos os Deuses estavam mortos. Que hilariante ateísmo! O que poderia ser criado se houvessem Deuses. Se houvessem Deuses, como ele poderia suportar ser não-Deus? Conseqüentemente, para Nietzsche, não há Deuses. Zarathustra anseia por fé e lamenta a todos que, como ele, sofrem do desgosto de não haver nenhum Deus novo no berço, no momento em que o velho Deus morre; então pronuncia o nome do novo Deus. Mortos estão todos os Deuses; Nietzsche quer apenas o Super-homem vivo. Nietzsche parece prever que cada indivíduo, ao ler sua obra, se julgará o Super-homem; e procura resguardar-se disso, dizendo que o Super-homem ainda não nasceu; afirmava que podemos apenas ser os seus precursores na terra. Nada queirais além da vossa capacidade. Não sejais virtuosos além da vossa medida; e nada peçais a vós mesmos contrário à vossa probabilidade. Para o indivíduo não se destina a felicidade, somente o Super-homem a conhecerá; nossa melhor meta é o trabalho. Nietzsche proferia que por longo tempo havia cessado de lutar pela sua felicidade; agora lutava pelo seu trabalho. Nietzsche não se contentou de haver criado Deus à sua própria imagem e semelhança; precisava fazê-lo imortal. Depois do Super-homem vêm a Eterna Recorrência. Todas as coisas voltam, com os detalhes precisos e por um número infinito de vezes. Certamente, Assim falava Zarathustra é uma terrível doutrina, porém, a última e mais corajosa forma de sim e de aceitação da vida; e como poderia não ser? As possíveis combinações de realidade são limitadas e o tempo é infinito; algum dia, inevitavelmente, vida e matéria voltarão à forma que já uma vez tiveram, e nesta repetição, toda história se desenredará novamente de seu curso tortuoso. Não admira que Zarathustra receasse enunciar sua última lição; receasse, tremesse e recuasse, até que uma voz lhe disse: Que é isto Zarathustra? Fala tua fala e rompe-te em pedaços. O livro Assim Falou Zarathustra, não deixa de ser um belo poema; em nosso entender, bem mais poema que filosofia. Sabemos que há utopia em sua fala, mas o que seria de nossa existência se não houvesse utopias? Sabemos que o homem foi deveras longe na tentativa de convencer-se e corrigir-se, mas nossa trajetória não implica em incessante busca pela perfeição? Podemos perceber o sofrimento de Nietzsche em cada linha lida e isso choca. Em nossa existência, existem fases em que nos cansamos de ilusões e ansiamos por um pouco de dúvida. Muitas vezes denegamos o óbvio, nos negando simplesmente à aceitar e compreender a dura realidade da existência; Nietzsche surge então como um bálsamo, uma janela aberta em uma sala repleta. Quem sabe respirar nos meus escritos reconhece que é ar das alturas. Um homem precisa construir-se para suportá-lo; de outro modo às chances são de que tal ar o mate. De todos os livros de Nietzsche, Zarathustra é o mais resistente à crítica, porque ele é o mais obscuro e porque todo o seu inexpugnável mérito inibe a crítica; foi considerado o maior poema em prosa do século XIX, conduzido por suas mãos sábias. A ideia da eterna recorrência das coisas, deste dionisíaco ser, clama como um esforço de última hora para recobrar a fé na imortalidade. Nota-se a contradição entre a intrépida pregação do egoísmo e o apelo ao altruísmo e ao sacrifício, no preparo para o nascimento do Super-homem. Quero o que aspira à criação de algo além de si mesmo e depois perece, proferiu com amargura, mas com preciosa sinceridade Zarathustra. Aquele que na verdade pretende ser um criador em bem e mal precisa primeiro ser um destruidor e despedaçar todos os valores. Assim, o mais alto mal é parte da mais alta bondade. Mas isso é bondade criadora. Vamos falar daqui por diante, nós, homens sábios, por mau que seja. O silêncio é uma impropriedade. Silenciar é pior; a verdade não enunciada torna-se venenosa. E o que quer que irrompa de nossas verdades – que irrompa. Muita casa tem que ser construída ainda. Ninguém permanece mais o mesmo após ler Nietzsche. |
[1] DURANT, Will. História da Filosofia – Vida e idéias dos grandes filósofos. Tradução de Godofredo Rangel e Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editorial Nacional vol.1, 6ª ed., 1945, 519p.
Mariah de Olivieri - É Bacharel em Comunicação Social, Mestre em Filosofia e Terapeuta-Especialista em Essências Florais. Mantém uma coluna mensal no Jornal Varanda Cultural – Porto Alegre.
Participa do Núcleo de Estudo, Pesquisa e extensão em Educação Estética Onírica – NUPEEO na FURG, em Rio Grande , trabalhando a linha de pesquisa Educação estética onírica no despertar dos sonhadores.