Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

VIVER PARA SABER CONTAR

Michèle Sato, UFMT

 

Desde o começo do ano, estive envolvida com as reuniões do Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT) de Mato Grosso, e o que no início me pareceu ser pesado, com tantas amarguras ouvidas e testemunhadas pelas diversas comissões, hoje há um outro sabor. Quero dar este depoimento, pois creio que ajudaria a entender o que é este fórum, entre os encargos pesados, há uma brecha para suavizar com poesia.

 

Das pequenas comissões sobre presídios e o violento caso do Pomari; dos abusos sexuais de adolescentes e crianças; das agressões sofridas pelas mulheres em suas violências domésticas; de trânsitos, identidades e migrantes; de cruéis assassinatos indígenas; de invasões de terras quilombolas; de trabalho escravo; de desapropriação pelos atingidos pela Copa; de ameaças de mortes e de tantas outras comissões que reunidas de tempos em tempos, dava um retrato de total injustiça e descaso em Mato Grosso.

 

Sistematizar todos os dados e articular os sonhos para não se sucumbir ao cenário de terror foi uma das tarefas mais interessantes, pois havia o antagonismo simultâneo de padecer no sofrimento, mas também exaltar as mãos ali dadas pelas pessoas, militantes, apaixonados, religiosos, profissionais, estudantes e desempregados. E também de loucos e poetas. Lembrei da Clarice Lispector, quando dizia, na hora da estrela, que ficava “fruindo tudo que existe”, entre a dura realidade e meus desejos de sair dali. Ora descia no âmago de minha própria morte, e ora ascendia nas vozes trêmulas, mas esperançosas, de depoimentos sofridos.

 

Assim fui me desconstruindo e simultaneamente me construindo, desta vez com Cecília Meireles: aprendendo a me cortar, sangrar na ferida das injustiças, nas malditas chagas do mundo que se incidem aqui com tanta fúria, mas sobremaneira, a me voltar inteira. Foi um caminhar entre pedras pontudas, frias e escorregadias, e neste cenário inóspito não é fácil encontrar o ninho dos sonhos. Só se encontra porque a caminhada não é solitária, e é preciso saber dar as mãos com pessoas que teimam em assoprar a brisa em grandiosas extensões, levando algum acalento da alma até para territórios longínquos.

 

Aprendi a alimentar o nosso blog desta maneira: trazendo notícias cruéis de um mundo machucado, que tentamos colocar curativos, faixas ou bandagens, mas que ainda mostra a ferida sangrenta do golpe que insiste na crueldade, geralmente sempre por um motivo material, capital ou mercadológico contra vidas humanas, não-humanas, água, ar, planeta... Trago as notícias, mas tenho minimizar as dores por meio das poesias, frases, imagens ou arte que possam reverter as vísceras doloridas, expondo beleza. Acredito que a leitura do blog fica menos pesada, incitando no convite para uma próxima leitura, um próximo poema, ou um próximo sorriso.

 

Neste exercício constante, de chorar e de sorrir; de ter o compromisso ético em denunciar as injustiças, sem se sucumbir; entre as brumas e os nevoeiros destes polos opostos de sentimentos, aprendi a lidar com o cotidiano de lutas: arriscava a ler as notícias endurecendo os músculos, emocionando-me com elas (perder a ternura jamais!); e querendo reverter os cenários, encontrei amigos. Destes que sorriem, fazendo com que a magia da esperança possa acontecer nos encontros, nos desencontros, no canto ou na mística... Destes amigos que sabem que a vida é breve e que só valerá a pena ter vivido se conseguirmos ser fraternos. Um abraço, um toque no ombro ou até uma troca de olhar parecia desencantar a dor, dando lugar para um sorriso. Caminhar tateando em uma noite nas trevas, como uma lanterna que mal ilumina as vias, mas que encontra mãos presentes no sentido do “estamos juntos” nesta travessia, e se realmente formos fortes coletivamente, até o improvável pode acontecer.

 

Assim tem sido participar deste FÓRUM DE DIREITOS HUMANOS E DA TERRA, que lançou no dia 1 de setembro de 2011, vários documentos e documentários importantes, mas que hoje quero dar o foco no Relatório Estadual de 2011. Que a leitura do relato traga as emoções por mim vividas, mas que perdure sempre o acalento da esperança. E que o “direito ao devaneio” de Eduardo Galeano encontre com o “direito de sonhar” de Gaston Bachelard na celebração de nossos direitos e deveres, para que junto com Gabriel Garcia Marques, “saibamos viver, para saber contar”.

 

RELATÓRIO DE DIREITOS HUMANOS E DA TERRA - 2011

EBook:

http://issuu.com/michelesato/docs/relatdireitoshumanosmt

 

4shared em PDF:

http://www.4shared.com/document/ZQO7qkXy/RelatrioDHT_vf_02-09-11.html?

 

Blog do FDHT:

http://direitoshumanosmt.blogspot.com/

 

Michèle Sato
Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.


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