Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

A Náusea
Reinério Simões

         “Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

         Macbeth, Act 5, Scene 5
         William Shakespeare(1)

1. Introdução

Primeiro romance de Sartre, A Náusea foi escrita em 1931 sob o título inicial de Melancolia. A sugestão veio de um quadro homônimo de Albrecht Dürer, pintado em 1514. Filha de Saturno, Melancolia simboliza as qualidades introspectivas e intelectuais.(2)

A associação do filósofo com o temperamento melancólico, isto é, meditativo, imerso no universo da reflexão e não necessariamente triste ou depressivo, foi apontada na antiguidade por Aristóteles. Melancolia deriva do grego mélas kolé, “humor negro”, considerado o estado psicológico típico do temperamento atrabilioso – de atrabilis ou bílis negra – estabelecido por Hipócrates. Aristóteles define a melancolia como a natureza (physis) e o hábito (ethos) do filósofo, não como doença. O que torna o filósofo melancólico é a conjunção de coragem e sensibilidade: coragem para enfrentar a noite, isto é, a escuridão que simboliza o desconhecido que a tudo abarca e ameaça; sensibilidade para mergulhar no abismo da noite, ou seja, no nada, na provocação do mistério. A inspiração de Sartre é evidente, já que o tema do romance é a vivência de momentos indefinidos – ou dificilmente definíveis – de melancolia, de lampejos agudos de consciência.

O intuito maior de Sartre era apresentar sua concepção de absurdo e contingência, empregando a literatura como um meio de expressão do conhecimento e da difusão mais ampla dos conceitos filosóficos.

Durante uma estadia em Berlim, em 1934, quando estudou a fenomenologia de Edmund Husserl, Sartre concluiu uma segunda versão do livro. Por sugestão de Simone de Beauvoir, abandonou a meditação mais abstrata sobre a contingência, dando ao personagem central Antoine Roquentin uma dimensão literária.

Em 1936, considerando a obra terminada, remeteu o manuscrito de Melancolia à editora Gallimard, que embora ressaltasse algumas qualidades, negou-se a publicá-la. A insistência de amigos de Sartre convenceu o editor Gaston Gallimard a editá-la em 1938, com a modificação do título para A Náusea. A primeira edição traz a dedicatória “Ao Castor”, nome que Sartre se referia à sua companheira de sempre.

Desde então foram inúmeras reedições e traduções para o mundo inteiro.

2. A Cidade da Lama

O cenário do romance é a cidade de Bouville, onde o protagonista pesquisa sobre a vida do Marquês de Rollebon. O texto é apresentado como sendo os cadernos encontrados entre os papéis de Antoine de Roquentin, que decidiu “escrever os acontecimentos dia a dia,”(3) na forma de um diário, com a intenção de ordenar e clarificar suas experiências.

Algumas descrições de Bouville permitem identificá-la com a cidade de Havre, onde Sartre residiu e lecionou filosofia. Se Bouville é composta de boue, que significa lama, lodo, e figuradamente baixeza, infâmia, a “cidade da lama” ou Lamápolis na construção portuguesa, simboliza o aviltamento da hipocrisia burguesa, a má-fé dos homens que acreditam no teatro social e vivem o cotidiano sem questionamentos metafísicos. Acusados por Roquentin de safados (salauds), são até capazes de inventar um deus que os justifique. Pior: cultivam no museu os nascidos célebres de Bouville, como se a importância histórica justificasse a existência. São “pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhados por um redemoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia.” (A Náusea, p. 89)

Roquentin sente-se de “outra espécie” ao viver a experiência da náusea, ou seja, do absurdo e da contingência absoluta. Os safados acreditam – ou fingem acreditar, o que dá no mesmo – no mecanismo universal que rege todos os fenômenos. Tudo está perfeitamente explicado e a existência plenamente justificada. Impressiona a descrição dos “imbecis”, na verdade as pessoas que se consideram mutuamente “normais”, vivendo a pseudo normalidade dos hábitos cotidianos, submetendo-se às normas sem indagações e críticas:

“Como me sinto longe deles, do alto deste outeiro! Parece-me que pertenço a outra espécie. Vão sair dos escritórios, depois de um dia de trabalho; olham para as casas, para os jardins dos largos, com um ar e satisfação; pensam que estão na “sua” cidade, uma “bela urbe burguesa”. Não têm medo, sentem-se em sua casa. Nunca viram senão a água domesticada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas, quando se liga o interruptor. Têm a prova, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismo, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem todos à mesma velocidade, o jardim público fecha todos os dias à dezesseis horas no inverno, às dezoito horas no verão, o chumbo funde a 335º, o último bonde sai às vinte e três horas do Largo da Câmara Municipal. É gente sossegada, um pouco taciturna; pensa no dia de amanhã, isto é, simplesmente um novo hoje.”

Eis todos os ingredientes de uma confortável alienação cotidiana: a rotina, a explicação fácil, os hábitos não questionados, a consciência “limpa” dos que se atolam (Lamápolis...) na hipocrisia burguesa, a crença na imutabilidade das leis naturais e sociais. Nenhum deles sabe ou suportaria saber que “todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto.” (A Náusea, p. 168)

3. Personagens Principais

Antoine Roquentin – Protagonista da novela, é também o narrador, escrevendo suas observações no formato de um diário. Após viajar pela África e pelo Extremo Oriente, voltou a Bouville para completar suas pesquisas históricas sobre o Marquês de Rollebon. Entretanto, não apenas perdeu o interesse na pesquisa como começou a se aborrecer com a maneira de lidar consigo próprio e com o mundo exterior. Quer esteja segurando uma pedra ou um copo de cerveja, sente-se confrontado com a existência vazia de todas as coisas. O resultado é o que ele denomina de náusea. Compreende rapidamente que a náusea vem do fato de que a existência precede a essência: o absurdo é o absoluto, já que toda a realidade é contingente, inclusive e principalmente ele mesmo. Tudo é “a mais” (de trop), ou seja, sem razão ou necessidade. Percebe que as características físicas dos objetos e as pessoas são somente uma fachada reconfortante para mascarar o nada da existência. Ao fim do romance, repudia o passado, abraça sua existência e descobre não haver propósito em existir. Ao invés de render-se ao desespero, decide afirmar sua liberdade e mudar-se para Paris com o projeto de escrever um romance “que fizesse vergonha às pessoas da sua existência.” (A Náusea, p, 221)

Marquês de Rollebon – Apesar de não ser um personagem em si mesmo, é o tema das pesquisas de Roquentin. Foi um misterioso aristocrata nascido em Bouville e que se intrometeu na política durante e após a Revolução Francesa. De início, Roquentin acredita que pode aprender tudo sobre ele, mas rapidamente compreende estar conjeturando sobre quem foi na verdade o Marquês e também usando-o para justificar sua própria existência. A rejeição de Roquentin é, portanto, a rejeição de viver no passado, ou de buscar no passado a causa determinante do presente.

Anny – Uma antiga amante de Roquentin, residindo em Paris. Apesar de insistir com Roquentin para encontrá-la, está mais interessada no homem que ele era. Admite viver de recordações do passado, lendo os mesmos livros e recordando os “momentos perfeitos” de sua vida. Recusa-se a recomeçar seu relacionamento com Roquentin.

Autodidata – Denominado numa nota de rodapé Ogier P..., era um ajudante de tabelião que Roquentin conhecera na Biblioteca de Bouville. Sempre solitário, pretendia aprender tudo que se possa saber lendo toda a biblioteca em ordem alfabética. Roquentin zomba de seus propósitos. O autodidata é defensor do humanismo, acreditando que todos os homens e mulheres estão unidos pelo vínculo comum do amor. Acaba expulso da biblioteca por acariciar um rapaz em público.

Françoise – Proprietária da pousada onde se hospeda Roquentin, mantendo com ele um contato meramente sexual. Mantendo hábitos isolados, vivendo na biblioteca, no museu e passeando pelos locais públicos de Bouville (principalmente praças e jardins), Roquentin não se interessa por ninguém. Os encontros com Françoise são narrados de maneira fria e distante.

Bouville e seus lugares – A cidade é, sem dúvida, um personagem fundamental do romance. As experiências mais intensas da náusea, comparáveis a uma revelação mística, ocorrem nas ruas e nas praças de Bouville. No jardim gradeado, defronte as raízes do castanheiro, Roquentin desvela o sentido final da existência: “a náusea sou eu”, diz ele.

4. Trechos comentados de A Náusea

O romance traz uma epígrafe do escritor Louis-Ferdinand Céline: “É um rapaz sem importância coletiva; um indivíduo, nada mais”. Uma das preocupações do existencialismo é valorizar o indivíduo, as características únicas de cada ser humano, sem perdê-lo na abstração e na generalidade. O intuito de Sartre é mostrar o inverso: o fato de sermos indivíduos é o princípio da existência concreta. Nenhum de nós pode ser sacrificado aos universais da abstração intelectual, seja um conceito científico, seja um dogma religioso. Daí o trabalho de Sartre em escrever biografias, como a de Flaubert, na tentativa de compreender o projeto existencial de um homem.

“Tenho de dizer como é que vejo esta mesa, a rua, as pessoas, a minha bolsa de tabaco, visto que foi isso que mudou. Tenho de determinar exatamente a extensão e a natureza dessa mudança”. (página 7) Na primeira página, Roquentin já demonstra sua aflição: anotar diariamente suas experiência para tentar entender as transformações que o incomodam. Algo está mudando nele mesmo e nas coisas.

“Aconteceu-me qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco.” (página 11) Não se trata aqui de uma dúvida meramente intelectual, de uma incerteza lógica, a exemplo de Descartes à procura do fundamento inabalável da metafísica. Lembre-se o título inicial de melancolia, que melhor descreve um estado emocional. A náusea, como veremos, manifesta-se de modo psicossomático, atingindo tanto a psique como o “estômago” de Roquentin.

Ao encontrar diversas pessoas em um café, Roquentin diz: “Fazem um barulho inconsistente que não me incomoda. Também estes, para existir, precisam se reunir uns com os outros.” (página, 14) De hábitos solitários e quase misantrópicos, Roquentin parece prescindir dos outros para existir. É uma das tantas mentiras que inventa - a famosa má-fé sartreana - já que o estudo sobre a vida do Marquês de Rollebon significa que precisa dele para existir. No decorrer de suas anotações, Roquentin reconhece o “truque” inútil de falar de alguém como forma de justificar a si próprio. Abandona suas pesquisas históricas, ou seja, liberta-se simbolicamente do apego ao passado e decide registrar o presente em um “livro de aventuras”.

“Quis que os momentos da minha vida se seguissem e se ordenassem como os duma vida que se rememora. O mesmo, ou quase, que tentar apanhar o tempo pelo rabo.” (página 56) Organizar os eventos da memória é mais uma tentativa de justificar a existência. Tudo em vão: não se pega a fugacidade do tempo como se agarra um cão pelo rabo...

A vivência da náusea vai crescendo, vai cercando lentamente o atônito Roquentin. Há várias passagens que se assemelham a uma experiência mística, onde tudo continua o mesmo e ao mesmo tempo tudo mudou, sem palavras para precisar o ocorrido: “Nada mudou e, entretanto, tudo existe de outra maneira. Não posso descrever; é como a Náusea, e afinal é exatamente o contrário; enfim, sucede-me uma aventura e, quando me interrogo, vejo que me sucede que sou eu e que estou aqui”. (página 72)

Os burgueses de Bouville representam a pretensão de dominar a realidade humana: “O doutor tem experiência. É um profissional da experiência: os médicos, os padres, os magistrados e os oficiais conhecem o homem como se o tivessem feito”. (página 88-89) Eis um trecho que antecipa as críticas de Foucault às pretensões das ciências do homem em estudá-lo e consequentemente libertá-lo. Ocorreu o inverso, desmentindo a ideologia iluminista: quanto mais conhecimento se acumula, mais se manipula o homem.  Roquentin não perdoa a acomodação e o refúgio dos “doutos” em noções gerais: “As idéias gerais são mais reconfortantes. (...) A sabedoria recomenda que façamos o menos barulho possível, que vivamos o menos possível, que nos deixemos esquecer. As suas melhores histórias são as de imprudentes, de originais que foram castigados”. (página 91) Dura realidade histórica: é de perder a conta os perseguidos, assassinados, proibidos, rotulados de loucos que foram punidos por afrontarem o estabelecido. De Sócrates e Nietzsche, a humanidade tem métodos às vezes grosseiros, mas em outros momentos muito sutis de anular os pensadores, os independentes.

“E era verdade, sempre me tinha parecido: eu não tinha o direito de existir. Tinha aparecido por acaso; existia como uma pedra, uma planta, um micróbio”. (página 108-109) Por que julgamos sermos nós os únicos merecedores do privilégio da existência? E qual a razão da existência em geral? Como indaga uma canção de Caetano Veloso: “existimos, a que será que se destina?”. 

Mais uma alfinetada de Roquentin: “Só restavam nele ossos, carnes mortas e o Direito Puro. Um verdadeiro caso de possessão, pensei. Uma vez que o Direito se apodera dum homem, não há exorcismo que possa expulsá-lo”. (página 113-114) Ainda que os juristas peçam data venia a Sartre, quem conhece os advogados sabe da função sacerdotal que exercem no “templo da justiça”, como se fossem as pitonisas da verdade...

A frase famosa de Descartes Penso, logo existo, ganha na situação de Roquentin outra conotação: “O meu pensamento sou eu: por isso é que não posso deter-me. Existo porque penso... e não posso deixar de pensar. Neste momento preciso – é odioso – se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu (grifo do texto) que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela”. (página 127) Se Descartes afirmava a certeza da consciência, a evidência do pensar (se duvidar que penso continuo pensando), Sartre “existencializa” o criador do racionalismo moderno: se penso ou não em existir, permaneço cumprindo a existência.  A frase também ganha dupla direção: penso, portanto existo; existo, portanto penso. Daí um dos ditos de Sartre: toda existência consciente existe como consciência de existir.

A fé nos homens é expressa pelo personagem denominado Autodidata: “Eu não creio em Deus; a sua existência é desmentida pela ciência. Mas, no campo de concentração, aprendi a crer nos homens”. (página 144) E logo a seguir: “Ia à missa todos os domingos. Nunca fui crente. Mas não se poderia dizer que o verdadeiro mistério da missa é a comunhão entre os homens?” (página 145) O Autodidata considera-se humanista e cita dois exemplos extremos de solidariedade: na única reação possível à violência desmedida e na aspiração à salvação religiosa. Roquentin discorda: “é tão impossível odiar os homens como amá-los”. (página 149) O Autodidata não aceita a misantropia de Roquentin: “No fundo, o senhor ama-os, ama-os como eu: só estamos separados por palavras”.  (página 153) A reação inicial de Roquentin é concordar com a necessidade de amar os homens, que são dignos de admiração. Mas sente “vontade de vomitar, e bruscamente ela chega. Cá está ela: a Náusea”. (página 154) Se a náusea é o sentimento indefinido do vazio da existência, não é o amor aos homens (a outros existentes) que vai justificar a minha ou a existência em geral. Falta apenas a revelação final: a existência é absurda, eu sou (nós somos) a náusea.

Nas páginas 165 a 168, lê-se o trecho mais dilacerante e de um vigor literário que impressiona. Roquentin está em um jardim, defronte de uma árvore. São seis horas da tarde, conforme anotação do narrador. Se pensarmos no significado religioso da hora, quando a tradição católica reza a oração de ave-maria, o que está para acontecer é em tudo semelhante a uma iluminação espiritual. Selecionamos algumas passagens, tentando não cortar a sensação de sem fôlego que leitura provoca:

“Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; pelo contrário, estou esmagado. Somente, atingi o meu fito: sei o que queria saber; compreendi finalmente tudo o que vem me sucedendo desde janeiro. A náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a náusea sou eu.

Estava então há bocadinho no jardim. A raiz do castanheiro mergulhava na terra, mesmo por baixo do meu banco. Não me lembrava, porém, que era uma raiz. As palavras tinham se evaporado, e, com elas, o significado das coisas, os seus modos de emprego, os pálidos pontos de referência que os homens lhes traçaram à superfície. Estava sentado, um pouco curvado, cabisbaixo, sozinho em frente daquela massa negra e nodosa, completamente em bruto e que metia medo. E depois tive aquela iluminação.

Fiquei sem respiração. Nunca, antes destes últimos dias, eu tinha pressentido o que queria dizer “existir”. Era como os outros, como os que passeiam à beira-mar nos seus trajes de primavera. Dizia, como eles: “O mar é verde; aquele ponto branco é uma gaivota”; mas não sentia que essas coisas existiam, que a gaivota era uma “gaivota existente”; geralmente a existência esconde-se. Está presente à nossa volta, em nós, somos nós; não se podem dizer duas palavras sem falar dela, e afinal não lhe tocamos. Quando eu julgava pensar nela, é de crer quer não pensava em nada, tinha a cabeça vazia, ou quando muito uma palavra na cabeça, a palavra ser” (páginas 159-1690)

“E depois sucedeu aquilo: de repente, ali estava, ali estava, era claro como a água: a existência dera-se subitamente a conhecer. Perdera o seu aspecto inofensivo  de categoria abstrata: era a própria massa das coisas; aquela raiz estava amassada em existência.” (página 160)

De mais: era a única relação que eu podia estabelecer entre aquelas árvores, aquelas grades, aquelas pedras. (...) De mais, o castanheiro, ali, na minha frente, um nadinha à esquerda. E eu – molenga, langue, obsceno, digerindo, misturando pensamentos sombrios – eu também era ali de mais. (...) Pensava vagamente em suprimir-me, para aniquilar ao menos uma daquelas existências supérfluas. Mas até a minha morte teria sido a mais.” (páginas 161-162)

“Vem-me agora à pena a palavra “absurdo”; há bocadinho, no jardim, não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: ia pensando sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma idéia na minha cabeça, nem um sopro da voz, mas aquela longa serpente morta a meus pés, aquela serpente de madeira. Serpente ou unha de carnívoro ou raiz ou garra de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nenhum pensamento, eu compreendia que tinha encontrado a chave da existência, a chave das minhas náuseas, da minha própria vida. (...) Absurdo: outra palavra, afinal; debato-me com palavras; no jardim cheguei a atingir as coisas. (...) Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo. Aquela raiz, não havia nada em relação a ela que não fosse absurdo. Oh! Como poderei fixar isso com palavras?” (página 162)

“Mas, diante daquela espessa massa rugosa, nem a ignorância nem o saber tinham importância: o mundo das explicações e das razões não é o da existência. Um círculo não é absurdo; explica-se muito bem pela rotação dum segmento de reta em torno de uma das suas extremidades. Mas também um círculo não existe. Aquela raiz, pelo contrário, existia na medida em que eu não podia explicá-la.” (página 163)

“Existir é estar presente, simplesmente; os existentes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca se podem deduzir. Há pessoas, creio eu, que perceberam isso. Somente, tentaram dominar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão de ótica, uma aparência que se possa dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito, este jardim, esta cidade e eu mesmo. É o sentimento disso, quando acontece que ele entra em nós, que nos dá volta ao estômago, e começa tudo a rodas. (...) Aí está a náusea; aí está o que os safados tentam esconder a si próprios com s sua idéia dos direitos. Mas a mentira é pobre: ninguém existe por direito.” (página 165)

“Quanto tempo durou aquela fascinação? Tinha-me tornado na raiz do castanheiro. Ou melhor, reduzira-me inteiramente à consciência de sua existência.” (página 165)

“A existência não tem memória; não conserva nada dos desaparecidos – nem sequer uma saudade.” (página 167)

“Só as melodias é que podem trazer consigo, orgulhosamente, a sua própria morte, como uma necessidade interna; mas também as melodias não existem. Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso.” (página 168)

Do momento da revelação do absurdo em diante, todos os projetos de Roquentin perdem o sentido: inútil a pesquisa histórica, já que o passado não justifica o existente, ou seja, a existência no presente; inútil reatar com Anny, também presa ao passado e à idéia vã dos momentos perfeitos repetidos ad aeternun; inútil e sem sentido o sonho humanista do Autodidata, se o amor à humanidade é uma abstração e todas as noções abstratas são, no mínimo, mentiras consoladoras. Embora os “imbecis tirem consolações das belas-artes” (página 216), Roquentin escuta em um café, durante seus últimos momentos da estadia em Bouville, uma negra que canta o verso some of these days you’ll miss me honey. É um velho disco arranhado, que se ouve repetidas vezes. O disco está riscado, gasto, a própria cantora talvez já tenha morrido. A música provoca Roquentin a criar alguma coisa tão durável como a canção:

“A negra canta. Pode-se então justificar a nossa existência? Um pouquinho, muito pouco? Sinto-me extraordinariamente intimidado. Não é que tenha muita esperança. Sou como uma pessoa completamente gelada, depois duma longa viagem na neve, que entrasse de chofre num quarto aquecido. Essa pessoa ficaria imóvel ao pé da porta, ainda fria, e lentos arrepios lhe percorreriam todo o corpo. Não poderia eu tentar...É claro que não se trataria de compor uma música... mas não poderia um gênero diferente?” (página 221)

Se a música parece oferecer uma saída, a escolha de Roquentin recai sobre a literatura:

“Tinha de ser um livro: não sei fazer outra coisa. Mas não um livro de história: a história fala do que existiu – nunca um existente pode justificar a existência de outro existente. (...) Outra espécie de livro. Não sei bem qual – mas era preciso que se adivinhasse nele, por trás das palavras impressas, por trás das páginas, alguma coisa que não existisse, que estivesse acima da existência. Uma história, por exemplo, uma aventura. Era preciso que fosse bela e dura como aço e que fizesse vergonha às pessoas da sua existência.” (página 221)

Assim Roquentin conclui o seu diário. Exatamente desse modo Sartre dedicou sua vida a escrever, empregando a literatura, o teatro e mesmo o jornalismo como atividades de resistência e denúncia. Hoje se lê A Náusea como um “clássico” da literatura do século XX, retirando grande parte do poder avassalador que sua leitura pode provocar. Não importa a crença religiosa, a convicção política ou qualquer outra “noção geral” que nos oriente e console. Como diz Heidegger, mais angustiante que a experiência da angústia é jamais sentir angústia...     

Prof. Dr. Reinério Luiz Moreira Simões

UERJ – UNIGRANRIO

 

(1) "Apaga-te, apaga-te breve candeia! A vida é apenas uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e agita em sua hora no palco e depois não é mais ouvido; é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada.” Este trecho parece ter saído da pena de Sartre ou Camus, não do bardo inglês...

(2) O quadro pode ser viso em vários endereços da internet. Sugestões:
     http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/durer/engravings/melencolia-i.jpg (visão geral)
     http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Durer2.htm
(em detalhe)

(3) A Náusea, p. 7. A edição empregada é de 1976, Editora Publicações Europa-América, Mira-Sintra, Portugal.

Prof. Dr. Reinério Luiz Moreira Simões

UERJ – UNIGRANRIO Rio de Janeiro –RJ- Brasil

O ser humano não existe para filosofar, mas filosofa para ser humano.

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