

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A peça Entre Quatro Paredes
(Uma introdução ao Inferno de Sartre)
Reinério
Simões
O inferno tem sido associado ao sofrimento eterno, aos tormentos físicos mais horrendos. Assim Dante retrata o inferno na Divina Comédia, grande painel medieval sobre as condenações e penitências do inferno, do purgatório e a benção do paraíso.
Partindo do mais profundo inferno dantesco, temos patamares por ordem de distância das divinas potestades espirituais. Assim, quanto mais baixo o número, mais longe de Deus estavam as almas, e obscuros e tenebrosos eram os lugares.
Assim estavam dispostos os dez círculos do inferno:
1 - Local onde morava o demônio
2 - Traidores da família, Pátria, Amigos e benfeitores
3 - Sedutores, aduladores, vendedores das coisas santas, fraudulentos,
hipócritas, ladrões, maus conselheiros, fundadores de seitas, falsários, e os
astrólogos.
4 - Violentos: com os outros, com si mesmos (suicidas) e com Deus
5 - Hereges e incrédulos
6 - Os irados
7 - Os avarentos
8 - Os gulosos
9 - Os sensuais
10 - O anti-Inferno: Almas nem aceitas por Deus nem pelo demônio. Os não
batizados. Também conhecido como Limbo.
De acordo com a teologia da época, os sábios do passado estavam confinados ao limbo dos degraus superiores. Dante e Virgílio encontram ali nada menos que Platão, Sócrates, Anaxágoras, Tales, Empédocles, Euclides o geômetra, Ptolomeu de Alexandria, Hipócrates (pai da medicina). A lista é grande. Apesar de Dante utilizar-se da cosmologia de Ptolomeu para o plano poético, o catolicismo do poeta não poderia colocar os antigos pagãos em outro lugar menos infeliz.
Diferentemente da tradição mitológica, o inferno de Sartre não mostra instrumentos de tortura, fornalhas e coisas do gênero. Trata-se de um salão decorado no “estilo Segundo Império”, com três canapés, uma lareira e uma estátua de bronze. O único indício do ambiente é o calor intenso, nada mais.
Entretanto, podemos descrever os círculos do inferno sartreano:
Primeira punição eterna: “a vida sem interrupções”. Não se pode fechar os olhos, dormir ou qualquer outra situação que nos permita a fuga do tempo presente. Assim como não há espelhos ou janelas nas paredes do salão, não há aberturas, passagens ou locais de refúgio na própria consciência.
Segunda punição eterna: a claridade eterna. “Vai ser sempre dia diante dos meus olhos. E na minha cabeça.” (Garcin) A claridade externa e interna obriga o homem a conviver diuturnamente consigo mesmo e com os outros. É a condenação ao sofrimento de ver e ser visto, ou seja, submeter-se ao olhar petrificante do outro, o sentimento de vergonha, o julgamento do outro que nos aprisiona. Nesse aspecto, os três personagens de Entre Quatro Paredes são literalmente protagonistas, do grego proto (primeiro, principal) e agonista (lutador). Os três combatem continuamente uns com os outros.
Terceira punição eterna: o cenário e os personagens. Alguns elementos do cenário e o caráter de cada personagem servem para intensificar o sofrimento:
a) A estátua de bronze, imagem solene de um herói, acusa impiedosamente Garcin do crime de deserção e covardia, além de representar a fixidez da morte e da ausência de liberdade, isto é, a impossibilidade de modificar nossa vida (“os atos que mudam os atos”).
b) Os canapés são dispostos de forma “angulosa” e possuem cores que incomodam a superficial Estelle, mulher de gosto refinado. A disposição espacial dos três canapés facilita a formação do triângulo dos conflitos, das arestas que cada um espeta no outro. Substituem as camas, que permitiriam dormir.
c) A lareira é completamente inútil, assim como o corta-papel e a campainha, objetos do cotidiano que recordam a existência na terra e reforçam a idéia da morte.
d) O criado, frio e impessoal, tão maquinal que nem sequer pisca os olhos, serve para criar a ilusão de uma sala de espera de um hotel, cenário ao mesmo tempo familiar – e mesmo aconchegante – mas completamente absurdo para o que se espera do inferno tradicional.
e) O caráter e o temperamento dos personagens é mais um fator multiplicador do tormento coletivo:
1. Estelle, bela e atraente, logo desperta o desejo de Inês, cujo crime foi seduzir a esposa do primo e provocar – direta ou indiretamente, tanto faz – a morte do trio. Inês diz trazer a condenação “antes de qualquer crime”, referindo-se ao lesbianismo. Estelle afasta Inês, dizendo não gostar de mulheres.
2. Narcisista a ponto de erotizar sua auto-estima, Estelle precisa se sentir desejada por Garcin, o único homem presente, que para seu desespero, não a quer.
3. Garcin busca aprovação por parte da sempre veraz Inês, como se o seu perdão bastasse para redimi-lo das covardias praticadas em vida, seja contra sua frágil mulher, seja pelo abandono de seu país durante a guerra.
Quarta punição eterna: o inferno são os outros! Segundo Sartre, a famosa frase denuncia duas situações interligadas. Primeiro, se dependemos unicamente dos julgamentos e das ações dos outros, abdicando de nossa liberdade essencial e intransferível, criamos nosso próprio inferno, queimamos na fornalha alimentada por nossos próprios medos, pela má-fé, pela incapacidade de autonomia. Os outros não são necessariamente os causadores do meu sofrimento. Eu mesmo faço do outro o carrasco de minha tortura. Em segundo lugar, a situação exposta na peça refere-se a pessoas mortas, a existências para sempre definidas e que se tornaram, desse modo, definitivas, imutáveis, fixas, congeladas como a estátua de bronze. Denuncia, portanto, aqueles que, ao negarem sua liberdade, preferem morrer em vida, como se pudessem coagular o sangue da existência. Estão mortos-vivos, penando no inferno ainda vivos. Para muitos, não é preciso morrer e muito menos sofrer a tortura dantesca para descer ao inferno...
Pior que tudo é saber que a condenação dos três personagens estende-se por toda a eternidade, mas o inferno sartreano é simbólico: somos homens e nossa condição humana é a liberdade. Negar tal fato é condenar-se voluntariamente ao inferno, sem haver o deus da absolvição e o demônio da tentação e da culpa. Em suma, não há desculpas, não há tábua da salvação. “Nenhum de nós pode se salvar sozinho; ou nos perdemos de uma vez juntos, ou nos salvamos juntos.” (Garcin)
O confinamento da má-fé
As biografias “inventadas” pelos personagens (a má-fé) e as biografias reais:
Joseph Garcin – Biografia Inventada
Redator de um jornal pacifista no Rio, recusou-se a lutar na guerra e foi
fuzilado. Confessa ter maltratado algumas vezes sua mulher. Considera-se um
homem viril e corajoso, um herói injustiçado. Aparenta aceitar a situação com
estoicismo.
Joseph Garcin – Biografia Real
Tentou fugir quando da convocação à guerra, mas foi interceptado na fronteira.
Preso numa cela, teve tanto medo que morreu de um “mal súbito” (ataque
cardíaco?). Na realidade, é um fraco e covarde, não um herói. Seus colegas de
trabalho consideram-no um sujo, um imoral e farão de seu nome a expressão
pejorativa “covarde como Garcin”.
Estelle Rigault – Biografia Inventada
Órfã e muito pobre, aceitou casar-se com um homem mais velho, rico e bondoso,
amigo de seu pai, para poder amparar seu irmão doente. Encontrou, certo dia, seu
verdadeiro amor, mas decidiu renunciar a ele pela responsabilidade com sua
família. Morreu, em decorrência desse gesto, de “desgosto amoroso”, ou seja, de
pneumonia. Estelle é uma santa, uma pessoa que se sacrifica para o bem dos
outros.
Estelle Rigault – Biografia Real
Traía o marido mais velho com freqüência. Teve um filho com um amante e, na
presença deste, matou a criança jogando-a em um lago da Suíça, O amante, em
desespero, suicidou-se. Estelle, ainda assim, teve novos amantes. Considera-se
superior, bela, sexualmente atraente. Ama o luxo e olha-se constantemente no
espelho, com exagerado narcisismo: precisa ver-se para estar segura de sua
beleza. É arrogante e superficial.
Inês
Serrano – Biografia Real
A única dos três a encarar a realidade de frente, com lucidez e coragem,
assumindo todas as suas culpas. Diz somente a princípio ter morrido devido ao
gás. É a primeira a reconhecer sua própria maldade e o merecimento da punição no
inferno. Empregada dos correios, seduziu a esposa de seu primo, convencendo-a a
morarem juntas. Florence era bela e loura, como Estelle. O primo morre em um
acidente de bonde (na verdade, suicidou-se?) e Florence mata-se abrindo o gás do
apartamento, levando Inês consigo. É sempre decidida, direta, com frases fortes.
Não esconde nada.
Depoimentos de Sartre e Camus sobre Entre Quatro Paredes
1.
Anotação de Albert Camus (Carnets, Tome 2, Gallimard, 1994):
Entre Quatro Paredes. A peça provocou-me um efeito extraordinário. Acredito que
um católico poderia tê-la escrito sem modificar grande coisa. O inferno é antes
de tudo não poder amar. Pouco a pouco, sentimo-nos tomados por um sentimento de
horror, devido à perfeita semelhança desta imagem com a punição eterna.
2.
Entrevista de Sartre sobre a peça Huis Clos (gravado em 1965):
Quando escrevemos uma peça, há sempre os motivos de ocasião e as preocupações
mais profundas. Os motivos circunstanciais começaram no momento em que escrevia
Huis Clos, no final de 1943 e início de 1944: tinha três amigos e gostaria que
trabalhassem em uma peça de teatro, uma peça de minha autoria, sem privilegiar
nenhum deles. Ou seja: queria que permanecessem juntos o tempo todo em cena. Meu
desejo era que não parecesse que a saída de um deles desse aos outros um papel
mais importante. Devia, portanto, mantê-los sempre juntos. Então me perguntei:
como por em cena três pessoas sem fazê-los sair, como se estivessem em cena até
o final da peça, por toda a eternidade?
Daí me ocorreu a idéia de colocá-los no inferno e considerar cada um o carrasco dos outros dois.
Havia, entretanto, naquela ocasião, preocupações filosóficas mais gerais e eu desejava expressar outras coisas na peça que simplesmente as razões circunstanciais. Pretendia dizer, por exemplo, que o inferno são os outros. Mas “o inferno são os outros” tem sido sempre mal compreendido. Muitos crêem que eu disse nesta fase que nossas relações com os outros são sempre envenenadas, são sempre relações infernais. Ora, o que pretendo mostrar é coisa muito diferente. O que quero dizer é que se nossas relações com o outro estão distorcidas, viciadas, o outro não pode ser senão o inferno. Por que? Porque os outros são, no fundo, o que há de mais importante em nós para o conhecimento de nós mesmos. Quando pensamos em nós, quando buscamos nos conhecer, usamos, no fundo, os conhecimentos que os outros já produziram sobre nós. Nós nos julgamos com os meios que os outros nos deram para nos julgar. O que quer que eu diga sobre mim, sempre o julgamento do outro vive em meu íntimo. (grifo nosso)
O que pretendo então mostrar é que se minhas relações são más, nocivas, coloco-me na total dependência dos outros. E assim, com efeito, estou no inferno. Há uma quantidade de gente no mundo que está no inferno porque depende em demasia do julgamento do outro. Mas isso não quer absolutamente dizer que não possamos ter um relacionamento diferente com os outros. Isso marca simplesmente a importância de todos os outros para cada um de nós.
O segundo ponto é que essa gente (da peça) não se parece conosco. Os três personagens que encontramos em Huis Clos não se assemelham a nós porque estamos vivos e eles mortos. Bem entendido aqui, “mortos”, simboliza muita coisa. O que quero indicar precisamente é que muitas pessoas estão incrustadas com uma série de hábitos, costumes, fazendo sobre eles mesmos julgamentos que as deixam infelizes. Sofrem porque querem e não buscam mudar. Estas pessoas estão como mortas, no sentido que não podem quebrar as amarras de suas preocupações, aborrecimentos, costumes arraigados e permanecem frequentemente vítimas dos juízos que temos sobre eles. A partir daí, é bem evidente que sejam, por exemplo, covardes, indolentes ou maldosos.
Se começarem a ser indolentes ou covardes, nada vai mudar o fato de serem assim. É por isso que estão mortos; é uma maneira de dizer que um morto-vivo está cercado, completamente envolvido pela inquietação perpétua dos julgamentos e das ações que não querem mudar. De sorte que, em verdade, como estamos vivos, quis demonstrar pelo absurdo, a importância de modificar os atos por outros atos. Qualquer que seja o círculo do inferno em que vivemos, penso que somos livres para quebrá-lo. E se as pessoas não o quebram, ainda assim permanecem livres e se colocam livremente no inferno.
Nota-se, portanto, que as relações com os outros, embrutecimento e liberdade, liberdade com o outro ainda que apenas sugerido, são estes os temas da peça. Gostaria que lembrassem tudo isso ao repetirem “o inferno são outros”.
(Tradução: Reinério Simões)
Prof. Dr. Reinério Luiz Moreira Simões - UERJ – UNIGRANRIO Rio de Janeiro-RJ. Brasil. (Centenário de nascimento de Sartre)
O ser humano não existe para filosofar, mas filosofa para ser humano.
