Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Safo - A filha imortal de Afrodite
Rubens Antonio

O filósofo Heidegger afirmou que a poesia não é o sério da ação, sendo um sonho, um jogo de palavras inofensivo e ineficaz. Então por que a obra de Safo foi tão perseguida e violentada? Será que foi por ter sido mulher, inteligente, pagã, talvez homossexual e/ou por dizer o que quis dizer, sem medo? Segundo Latino Coelho, de todas as Artes, a mais bela, expressiva e difícil é a da Palavra. São as outras como ministras e ela, a soberana universal. O próprio Rui Barbosa foi taxativo ao afirmar que escrever com pureza e Arte é próprio de espíritos privilegiados. Assim foi, por certo, Safo, essa mulher, na qual a paixão atormenta e enleva, jamais envergonha, domando a mais sublime, expressiva e difícil das Artes. Podemos imaginá-la com uma lira na mão, a declamar a sua expressão mais famosa: "Amo... daí consumo-me..." O tempo levou seu físico e a intolerância muitas das suas obras, afinal, conforme ela mesma afirmou: "Como a Noite estrelada segue o Crepúsculo de róseos braços, espalhando suas trevas até os confins da Terra, assim a Morte persegue todas as coisas e, no fim, as apanha..."

Olhando o céu, podemos contemplar o cintilar majestoso da estrela Canícula, a nossa conhecida Sírius, assim como, em algumas horas de alvorecer ou verpertinas reluz soberano o planeta Vênus, também denominado Vésper ou Estrela d'Alva. Ligando estes astros, além da beleza tanto melancólica quanto efusiante, com que brindam o céu, há mais um ponto envolvido pelas cortinas da nossa fraca memória. Ambos serviram de referência para o culto à deusa do véu ligeiro, Afrodite, do Amor que pare, seduz, mata e devora, entre delícias e maldições. E a mortal Safo, das profundezas de seu momento agora tão longínquo, junto com os vapores dos seus incensos, aos céus elevou, algumas das mais belas preces a essa divindade de muitas faces e atributos. Conforme Prampolini, essa poetisa, associando paixão ardente e ternura suave, sempre melodiosa e de versos apurados, assegurou para si uma modernidade ininterrupta. Huizinga já definira a poesia como o meio mais apropriado para exprimir tudo aquilo que é vital, ordenando para facilitar a memorização e o prazer, e nessa arte Safo foi uma mestra, provavelmente, conforme Swinburne, a primeira que a Humanidade conheceu.... e quase esqueceu.

Bibliograficamente, sabe-se muito pouco sobre Safo (Em grego: Σαπφώ (Sapfó) - Em seu próprio dialeto: Ψάπφω (Psápfo)). Essa aristocrática nasceu em 618 aC, em Erésos, na ilha de Lésbos, viu-se órfã de pai aos seis anos, casou-se com o rico Kerkílos e teve uma filha chamada Cleides, tornando-se sacerdotisa, chegando a ser exilada duas vezes por questões políticas. No mais, as afirmações enveredam pelos caminhos imaginosos, assim como quando, apenas por ter sido encontrada na Sicília uma antiga imagem sua, lança-se que ali teria sido exilada. Mesmo seus retratos escultóricos, datados de, no mínimo, cerca de um século após sua morte, não têm qualquer veracidade, vindo os rasgos de descrição mais fidedignos de um papiro egípcio, que a desenhou baixa e algo amorenada, e do poeta Alcaios, seu contemporâneo, que, em liguagem envolta pelas brumas da poesia, lançou-a como
"Safo, das tranças violáceas, do doce sorriso."
Aparece também citada, noutra versão desse mesmo recorte:
"Pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso."

É fato que essa poetisa pertenceu ao primeiro período da poesia lírica grega, sucedendo a geração da epopéia, onde estão alocados Homero e Hesíodo. Aí, onde a tradição barda e a escrita se imbricam, ela lançou suas obras, declamáveis e cantáveis, tão belas que chegou a ser reverenciada, já na Antiguidade, como a Décima Musa. Iniciara-se no estudo de cantos articulados, mais conhecidos como líricos, por o bardo sempre se fazer acompanhar por uma lira, e, através de odes, elegias, cantatas, sonetos e madrigais, essa dama desvelou o Amor.
Em suas poesias-canções, decifrando nossas almas-esfinge, lavrou suas obras tecnicamente perfeitas em seu dialeto eólio, chegando a, para isso, criar sua original estrofe sáfica.

Safo se elevava em uma sociedade masculinizada, brandindo um Amor que vagava entre sublime e atônico, lírico e erótico, daí poder-se imaginar o quanto adentrou terrenos perigosos. Entretanto, ao trabalhar sobre temas tão explosivos, dizendo coisas que normalmente agrediam os ouvidos e espíritos mais conservadores, conforme Peter Green, calou suas bocas, pois o fez tão belamente quanto ninguém mais. De fato, ler o que restou das suas poesias fornece-nos um panorama enaltecedor, onde as linhas são expressão de segredos sinceros e profundos do eu, passeando através de infernos e primaveras interiores.
Aí entendemos o que La Fontaine quis dizer sobre a força da busca do natural e do seu galope irresistível, e é nele que encontramos Safo, com colorido linguístico e crueza de quem não sente qualquer culpa ou vergonha de sinceramente amar.
No auge da sua maturidade, fundou uma escola musical e poética, onde educou moças nobres que demonstravam sensibilidade artística, direcionando-as para o culto de Afrodite e das Musas. Aí, Safo cantou o amor e o companheirismo entre moças, gerando uma confusão mal resolvida até hoje, pois há uma homossexualidade conjecturada em sua obra "Epitalâmios". Se para os mais isentos as indicações são insuficientes para resolver essa pendência apaixonada, os mais convencidos indicam que sua amante teria sido Erini, sua discípula.
Também se evoca que teria tido uma amante chamada Cleis (Κλεΐς). Entretanto, é voz cada vez mais clara que essa, à qual dedicou versos, teria sido sua filha.
Em um fragmento aparece:
"Tenho uma preciosa menina
bela como as flores de ouro
Minha muito amada Cleis."

O que provocou, então, a visão de uma Safo homosexual? O problema está em que os primeiros a fazê-lo, buscando assim achincalhá-la foram os escandalosos poetas satíricos da Grécia do século III aC. Essa fonte de referências turvas transformou essa poetisa em uma homosexual ou em uma ninfomaníaca onívora, patética e risível, até mesmo, para reforçar seus argumentos, alterando as poesias dessa.
No final da vida, por volta de 565 aC, a Safo histórica deixara nove livros permeados pelo culto absoluto ao Amor. Pouco crível, certamente mais um passo do processo mitificante é a versão que conta que, apaixonada e repelida pelo barqueiro Faón (Φάωνα), precipitou-se ao mar.
Permanece uma questão séria.
Por que da totalidade da obra de uma poetisa tão respeitada pela qualidade do que disse, apesar do que disse, temos apenas migalhas? Sabe-se que entre os romanos a reverência aos seus versos foi elevada, com Horácio estudando sua obra no século I, mas sua citação ocorria cada vez menos, esvaía-se sua figura nas escolas, tornando-se, a partir do século III, uma raridade.
Não custa muito para entendermos o que aconteceu. No século II, o apologista cristão Tatianus atacara suas obras severamente, e, já no século IV, Gregório Nazianzus comandou a primeira grande queima de livros de Safo, mas a pancada final, que eliminou para sempre a imensa maioria das suas obras, deu-se em 1073, sob orientação do papa Gregório VII. Impunha-se um mundo de mulheres caladas e hipocrisia, no qual não cabia Safo, e, como conseqüência, em Roma e em Constantinopla, fogueiras de dimensões impressionantes consumiram suas obras, escapando desse holocausto apenas alguns poucos textos, que não chegam a expressar sequer um décimo da obra sáfica.

 

Fig 1 – Safo e Alcaios - Pintura sobre jarro helênico do século V aC.

Fig 2 - Safo e Cleides ouvindo Alcaios - Pintura de Alma Tadema -1881

Rubens Antonio Silva Filho - Mestre em Geologia, cursei Geologia, Artes Plásticas e História, entendo-me como um Historiador Natural, com aspectos também de Filósofo Natural. Ministrei aulas, na Universidade Estadual da Bahia - UNEB de: - Antropologia - Epistemologia - Metodologia do Trabalho Científico - Ensino de História - Elementos de Geologia - Paleontologia - Sedimentologia - História da Ciência * - Rubens Antonio - Curriculo Lattes -  Blogs  História da Ciência , Palestras e Cursos - Rubens Antonio - http://palestrascursos.blogspot.com/ , Geoarqueologia


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