

Imaginário - Textos
A-MAR... FANTASIA DO RIO
Madalena
Barranco
O ônibus sacolejava na via Dutra e a escritora paulistana de histórias fantásticas estava ficando da mesma cor do papel de seus livros. Marylua optara por viajar à noite para amanhecer junto com o Rio de Janeiro, onde consumiria seu sonho de trinta anos de conhecer aquela cidade em apenas três dias.
- Mary, acorde! A lua ficou para trás!
- O que faz aí? Surpreendeu-se Marylua.
O guia de turismo, solícito, perguntou à moça pálida se precisava de algo. Ela olhou para a poltrona vazia ao lado e disfarçou, dizendo-lhe que pensava alto.
Silêncio! Já não basta o quanto você, seu gnomo comedor de morangos e as outras criaturas se metem em minhas histórias, que também tem que me perseguir nas férias?!
A minúscula criatura rosada ficou vermelha e pulou de volta para a bolsa de Marylua. Naquele momento, o Mar se mostrou através da janela e o cheiro verde do Rio invadiu-lhe os sentidos. A fantasia de adentrar aquela cidade de a-mar-e-viver a fez perder a realidade.
- Agora você é Marysol! Disseram três criaturas em coro com as cabeças para fora da bolsa. Ela empurrou-as para dentro e deu um grito de dor. A quarta criatura, Bruxauva, mordera-lhe o dedão.
Marysol enfiou os abusados num saco vazio de biscoitos e quando ia arremessá-los à praia, ficou sem ação ao perceber o quanto aquelas águas eram verdes. Naquilo, a sereia Algalinda cortou o saco com suas nadadeiras afiadas e disse que salvaria a fantasia de seus amigos, que também queriam conhecer o Mar. Aí, o gnomo Rosado, a sereia Algalinda, Platinho, o filósofo e Bruxauva, se amarraram à bolsa salva-vidas e seguiram viagem com a escritora.
O ônibus parou no hotel dos Navegantes e o guia avisou aos turistas que viria buscá-los logo para o primeiro passeio no Rio.
- Bah! Passeio! O que eu quero é caçar sapos cariocas para convidá-los a conhecer o mar do meu caldeirão... Eles já vêm com sal! Chega de comer sapos com gosto de garoa. Vociferou Bruxauva.
Mais tarde, Marysol entrou no bondinho do Pão de Açúcar seguida de quatro criaturas que somente ela enxergava. Quando o submarino começou a deslizar pelo cabo de aço em direção ao topo do único rochedo doce do mundo, a escritora constatou que o Rio era um Mar, como muitos diziam e até então ela não acreditava. Na paisagem, peixes de todas as cores e de escamas brilhantes sambavam sorridentes à beira da areia mais branca que existia, deixando-se tocar pela alegria e sabedoria do sol. À distância, viam-se morros de corais, sendo que alguns, os mais altos, eram cinzentos, cobertos por frágeis telhados, que mal protegiam os moluscos que sobreviviam nas encostas, como os representantes mais humildes do Mar. Aos pés dos corais, estendiam-se obeliscos purpúreos e casas de algas neutras.
Platinho perdeu a filosofia no topo do Pão de Açúcar, Bruxauva, fã da feiúra, foi manietada por tanta beleza, e o Rosado, lambia a rocha para saber se era mesmo agridoce como um coração de morango verde.
No dia seguinte, o passeio continuou dentro de uma serpente marinha com alma de trem, que subia uma colina desgastando os trilhos aos poucos.
- A pressão obriga os mergulhadores a subirem devagar para não explodirem, porque ao alcançar o cume, Netuno já se esqueceu do tridente e recebe todas as criaturas, salgadas ou não, com os braços abertos. Disse Algalinda com mares de sereia.
- No mar também há anfíbios... Filosofava Platinho, enquanto Algalinda cantava para atrair Netuno aos seus domínios, mas não conseguia. O sorvete de morango que ganhara de Rosadinho deixara-a rouca. Naquele momento, Netuno permitiu-se tomar pelo Cristo Redentor e o crepúsculo dourou-lhe os braços pétreos, ao mesmo tempo em que os raios filtravam-se através de seu peito, caracterizando um farol a guiar os cardumes.
- Está bem, pessoal! Vamos guardar as câmaras fotográficas e descer à praia, para aproveitarmos bem o último dia da excursão. Disse o guia.
Daquela vez Algalinda não precisou cantar para atrair Marysol à realidade, porque descer ao fundo do Mar foi mais fácil. Netuno oxigenara-lhe as guelras.
Enquanto o ônibus sacolejava de volta a São Paulo, Mary despediu-se em silêncio do sol sobre o Mar de turmalinas verde azuladas e, discretamente, guardou as guelras e abriu os pulmões. Algalinda, rendeu-se ao canto de um camarão e resolveu ficar no Mar, o gnomo Rosado, dormia sonhando em voltar um dia e Platinho, com as conchas dos ouvidos atentos à própria fala, discursava sua conclusão sobre o Rio:
- as estrelas do Mar: fazem os peixinhos e até os tubarões sorrirem mais;
- os moluscos dos morros: provam que só o trabalho honesto molda os corais do oceano;
- as pescadinhas: dão ao Rio o tom sábio do a-Mar e alegram os carnavais;
- em resumo: a fantasia da Água do Mar é pertencer sempre à cultura do seu Rio.
Inesperadamente, uma gargalhada de quem tem verrugas até nas cordas vocais interrompeu o filósofo e Mary olhou para a lua refletida na janela do ônibus. Marylua viu Bruxauva pescando sapos lunáticos no Mar da Tranqüilidade. De repente, a bruxa malvada jogou a vara de pescar para a Terra, mas sua isca não funcionou... O anzol ficou enroscado nos braços cariocas de Netuno, que pelo Cristo Redentor amava as criaturas de todos os mares.
Vaninha: esses “peixinhos” visitaram a cidade natal da Vânia Moreira Diniz!
Magalena: ah, é que eu e as criaturas fantásticas nos lembramos de uma viagem que fizemos ao lindo Rio de Janeiro e resolvemos colocar tudo no papel. Afinal, o Rio é importante cenário brasileiro de sonhos e vida, e devemos acreditar e falar nas coisas boas, para atrair a paz para o mundo.
Visitem também o espaço dos escritores convidados (colaboradores) do Canal Imaginário e leiam suas histórias fantásticas. Obrigada!
Madalena Barranco, 43 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.