Imaginário - Colaboradores
(coordenado Por Madalena Barranco)
e Com a colaboração de autores convidados.

S. MARTINHO (estória infantil)
Carlos Ricardo Soares

Era dia 11 de Novembro e decorriam, em Penafiel, as tradicionais feiras de S. Martinho, onde pontificam as castanhas que as vendedoras e os vendedores, nas esquinas e nos passeios, assam em panelas de barro sobre brasas de carvão vegetal, impregnando o ar da cidade do típico aroma.

Um rapaz, que ninguém dali conhecia, com um nariz tão comprido (mais longo do que os braços) que não conseguia assoar-se, (não, não era o Pinóquio) e com uma miopia ainda maior, andava pela cidade à procura de um elefante, reincidente, que se evadira do circo Equador, provavelmente, como da vez anterior, obcecado pelo cheiro e pelo sabor das castanhas.

Havia na feira um palhaço, de nome Filoxera, junto ao coreto onde actuava a banda dos Voluntários da Borga. Ao passar perto dele, o rapaz do nariz descomunal e da miopia ainda maior confundiu-o com a maçaneta da porta do circo Equador, que supunha ter localizado. Isto provocou gargalhadas hilariantes no público que se juntara para ouvir os Voluntários da Borga e assistir às pantomimas do Filoxera. Os elementos da banda também desataram a rir e, enfim, foi a desafinação total, com o regente a pousar a batuta e a tapar a cara com vergonha.

Filoxera estava fascinado pelo nariz daquele rapaz a quem tomava por patarata e, logo, quis fazer graça fingindo invejá-lo e ameaçando arrancar-lhe o nariz de qualquer jeito. Foi tal o embaraço que o rapaz lhe chamou “seu madraço” fazendo tenção de continuar a procurar o elefante, se outro não fosse o seu destino. As inúmeras pessoas que assistiam à cena pensavam que era tudo a brincar. O rapaz reclamava para que o palhaço largasse o seu nariz e quando se pôs a chorar, as gargalhadas não tinham fim.

Eis senão quando, um polícia corpulento, de cassetete em riste, se aproxima do Filoxera e grita «acabem já com essa chinfrineira». O palhaço olhou-o com uma expressão assustada e pôs-se em fuga, mas o rapaz do nariz comprido passou-lhe uma rasteira e o patife estatelou-se no chão.

-Vão ter de se identificar - disse o polícia encolerizado.

-Eu não existo - respondeu o palhaço. E fugiu por entre a multidão apinhada.

O polícia voltou-se, então, para o rapaz, mas este, sem dizer nada, subitamente, morreu.

Neste momento, toda a gente ria desbragadamente incluindo os elementos da banda.

-Está morto! - exclamou o polícia, incrédulo e assustado, de olhos postos na multidão ridente.

-Está morto! - repetiu, com semblante triste.

Mas ninguém o tomou a sério e as gargalhadas continuaram.

De lágrimas nos olhos, esforçando-se por altear a voz, o agente da autoridade perguntou:

- Alguém o conhe-nhe-nhece? Alguém sa-sa-sabe quem e-le-lé?

De súbito, todos se calaram.

A turbamulta abria alas a um cavaleiro que, em sua montada, se dirigiu ao local onde o rapaz jazia no chão empedrado.

Sem proferir palavra, serenamente, apeou-se do cavalo. A capa que trazia tirou-lha dos ombros um sopro de vento. O cavaleiro agarrou o vento com mão amigável e a capa solta estendeu-se sobre o cadáver. Quando ia tapar-lhe o rosto, os lábios moveram-se e ouviu-se dizer: «S.Martinho».

Carlos Ricardo Soares, português de Penafiel, advogado e professor por profissão e escritor e poeta por paixão, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, actualmente a elaborar uma dissertação de mestrado em Informática Educacional. Nasceu em 06-11-1957.

Tem editadas, todas pela Editora Almedina, de Coimbra, as seguintes três obras, versando matérias jurídicas:

- Rendas Livres e Condicionadas;

- Heranças & Partilhas;

- Contrato-promessa de compra e venda de fracção autônoma.

Além da escrita literária, que vai publicando um pouco em revistas, jornais e sítios da internet:

http://www.globoonliners.com/icox.php?mdl=pagina&op=dados&usuario=3702

http://www.luso-poemas.net/modules/news/index.php?uid=1700

Nota de Madalena Barranco   conheci o Carlos Soares no fórum lusófono da Ponto de Vista Literatura (atualmente inativo) há quase quatro anos, e desde então sou sua fã e leitora. Em sua prosa ele tem um estilo pitoresco, onde nos leva a viajar pelas cidades de Portugal com um enredo que prende o leitor pela originalidade, drama e um toque de humor na medida certa. Eu costumo dizer que o Carlos escreve sempre olhando para o mar desde sua bela terra.

 
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