Imaginário - Textos

As Fantásticas Nozes de Natal
Madalena Barranco

Havia duas criaturas na janela de uma linda casinha iluminada para a noite de Natal: uma delas estava do lado de fora e tinha lindas asas e a outra, estava sentada no parapeito da janela vestida de vermelho e usava barba branca. Talvez elas estivessem lá para ouvir o feliz tilintar de treze taças transbordantes de amor refrescante na ceia daquela família tão especial. Enquanto isso, dentro de casa, as três crianças mais novas deliciavam-se com confeitos de amêndoas e ao ouvirem o sininho do Papai Noel eletrônico, sentado na janela anunciando a meia-noite, as crianças saltaram das cadeiras e correram até a árvore de Natal, pois cabia a elas a distribuição das nozes para os adultos.

- Esta é da Mamãe! Gritou a menina de seis anos, metida num vestido vermelho, para a mulher delicada de grandes olhos cor de mel, que se umedeceram ao ouvir seu nome; - esta é do Papai! Falou o menino de sete anos para o homem alto de longos cabelos cinzentos, que se ajoelhou e beijou a criança; - esta é do Cuco... E dizendo aquilo, a menina de cinco anos correu para os braços do Irmão mais velho.

E assim as crianças foram cantando os nomes até que todos tivessem recebido suas nozes. O anjo que assistira tudo do lado de fora da janela estava satisfeito. Porém, o anjo teria que agir rápido antes que os outros convidados chegassem... Aquela família era considerada muito especial pelos anjos, pois mesmo antes de trincar as cascas das nozes para merecer os frutos, a família já sabia que o “Papai Noel” seria bem representado pelas três crianças.

O anjo translúcido adentrou aquela ceia Natal e deixou seu presente no centro da mesa: um pequenino quebra-nozes.

O Pai quebrou sua noz e surpreendeu-se com o relógio de ouro que havia dentro - assim, ele veria o tempo dourado da humanidade girar em doze ponteiros e olhou para sua mulher, Maria Madalena, enxergando nos olhos dela o décimo terceiro elemento, que assim como os diamantes do relógio, eram eternamente belos; a Mãe, ao quebrar sua noz, sorriu ao sentir em sua pele o óleo com essência de mirra, que ela usaria como ungüento para curar as dores de os filhos do mundo; Cuco, o Filho mais velho, que insistia em cultivar um cavanhaque aloirado, com várias pedras de incenso de olíbano nas mãos, que encontrara dentro de sua noz, achou que ao acendê-las teria a inspiração necessária para prosseguir seus estudos e transformar-se no mais conhecido antropólogo da humanidade, depois de seu Pai.

O anjo foi embora satisfeito após ter cumprido sua missão. Mas, antes, recolheu o Papai Noel eletrônico que havia derrubado para fora da casa ao entrar e ajeitou-o de novo em seu local de honra: no parapeito da janela. Afinal, pensou o anjo, janela também tinha peito quando se abria para mostrar as belas lendas da humanidade e para receber aqueles que já estavam chegando. O Papai Noel era mais do que uma lenda viva de amor, fosse eletrônico ou de palha! Além do quê, sussurrou o anjo para o Pai com um sorriso maroto:

- Um décimo quarto elemento à ceia poderia acrescentar aquele algo que todos sempre buscam e dificilmente encontram. Quem sabe a solução para muitas coisas está na Fantasia?

O bom velhinho eletrônico, animado, surpreendeu a família quando tornou a anunciar a meia-noite, tocando os sinos totalmente fora de horário. Naquele ponto, o Pai achou que seu relógio de tempo de ouro já estava funcionando magicamente correto. Aí, o Pai, a Mãe e o Filho mais velho pediram às três crianças que abrissem as portas da casa para as pessoas que não tinham onde passar aquela noite fantástica, onde conheceriam o Papai Noel milagroso. Os convivas se multiplicaram treze vezes treze, por mais dois mil anos, e continuaram compartilhando suas nozes e quebrando-lhes as cascas, fazendo-as soar como sinos em busca dos presentes guardados em seus corações.

Fim.

Comentários das criaturas fantásticas:

Gnomo Verde: snif, snif, snif! Há mais de seiscentos anos eu vivia sob uma nogueira na Floresta Negra. Quando minha casa foi serrada eu peguei carona no navio de Cabral e vim morar nas florestas brasileiras... Vocês sabiam que naquela época eu era considerado tão bonitinho, que o papai Noel tinha cara de Gnomo? E que ele era feito de frutinhas vermelhas, assim como framboesas e morangos?

Dona Fantasia: é isso, meu querido Gnomo Verde. As lendas atuais sempre têm uma ligação com as mais antigas, inclusive com aquelas esquecidas pelos homens. Vamos aproveitar essa época preciosa e distribuir nossas nozes fraternalmente, para depois quebrar-lhes as cascas num grande coro de amor fraterno.

Bruxauva: mas... Eu odeio nozes! Porque vocês não gostam de patinhas de sapos fritas? Já comprei muitas delas presentear e eu quero reclamar...

Magalena: ora dona Bruxa, seja bem-vinda ao Portal Ecos da fada Vânia Moreira Diniz, que está hospedando um pedacinho de nosso mundo da fantasia em seu lindo portal! Porque não experimenta comer nozes? No dia em que você fizer isso, gostará tanto delas, que deixará seu hábito, digamos, um tanto malvado, de comprar sapos-presentes!

Dona Fantasia: deixe a Bruxauva. Um dia ela entenderá que comprar tantos sapos no Natal nunca lhe devolverá as nozes, que ela ainda não ousou experimentar, Magalena! E ouça os sininhos do papai Noel eletrônico mexendo com os corações abertos neste presente, que antecede um futuro de luz, seja eletrônico ou não, mas que seja feito de amor!

Gnomo Verde: snif, que emoção! Até me lembrei do Grande Gnomo da Floresta de Luz, com um lindo cavanhaque dourado e olhos de amêndoas doces, que um dia morreu nas mãos da incompreensão...

FELIZ NATAL! QUEBREM SUAS NOZES E SINTAM O SABOR DOURADO DE SEUS CORAÇÕES.

Madalena Barranco, 41 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


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