

Imaginário - Colaboradores
(coordenado Por
Madalena Barranco)
e Com a colaboração de autores convidados.
A Nave e a Fera
Fernando Medeiros
Uma floresta já devastada? Somente um tigre rugindo?
Uma luz afinal, luzes... É uma nave resplandecendo sob a vegetação. Luzes distantes aproximando-se. A nave projeta-se no chão. O tigre a vê. Está aplainada a nave brilhante... O tigre espanta-se. O seu rugido, a sua boca se abre, cratera, vulcão, início dos mundos? O tigre não se espanta? O tigre só grita, defendendo-se talvez... O tigre se respeita, azulado pela nave alienígena... O astronauta contempla o animal, a face furiosa do tigre. O vidro da nave é transparente como a vida que ali está. Seus olhos penetram naquela fúria leonina. São olhos de astronauta espantado...
Qual é a natureza deste tigre? Acionar as bases da astronave. Desconhecer toda a guerra das civilizações? Quanto rastejo de crime sobre a sombra... O que o astronauta pensa, onde está o seu discernimento? A nave está mais iluminada, penetrando, assim, na ótica do tigre.
O tigre desconhecido, enjaulado por esta luz planetária... As formas que se rastejam pela terra.
O astronauta está extático. Suas mãos não acionam as bases. Apenas seu olhar cintila o olhar da fera. O tigre está rugindo. A luz das estrelas é um lago colorindo estes gritos. Toda a luta de naturezas. A sutil teia de carnes de onde o homem arrancou sua sede. A luta desenfreada de matemáticas supersônicas divisando impérios. Impérios negados por este limite de nave que, daqui a instantes, ficará desamparada no vácuo luzente. O tigre estranhamente está rugindo. A nave ilumina-se cada vez mais. O astronauta parece querer penetrar com suas luzes geométricas na natureza felina: um resumo categórico. Ele está protegido pelo medo da fera e a redoma de vidro. E dentro da nave circunflexa está guardado o tesouro desesperante de violência, desacordo, detenção de toda a natureza em transe no progresso; o coração do astronauta calcula as coordenadas do tempo. O tigre abre a boca de fera, uma cratera vermelha, uma dentição afiada.
Ao disco voador impressiona este rugido. O coração do astronauta solta as suas pancadas sucessivas. Um tigre parece nascer dentro dele. Lançar o leite do mistério sobre a decisão e o desconforto contínuos.
Uma aproximação de natureza envolvente, derretendo os ossos, esfacelando a consciência. O astronauta penetra com seus olhos mortiços naquela visão de tigre. Tigre dos olhos abundantes de luz, cortando a própria luz da nave, descrevendo arcos: olhar deflexo, ação, choque, momento de raios oblíquos. Os olhos do astronauta latejam e o tigre ensina a sua canção rústica do profundo da selva. Ser animal e passar por esta gelatinosa membrana que termina trágica. A espaçonave tremula em luzes. O tigre se fragmenta em figura distante. A sua selva de entranhas, a descoberta da presa é um bípede a entrelaçar os braços, a cair, girando para a descoberta. Onde estava o astronauta quando pensava o seu mundo, onde estava o seu mundo?
O tigre rugia além da convenção. A nave ainda estacionada. Estaria o astronauta hipnotizado por natureza tão inferior? E ele conhecia aquela natureza? Não... O astronauta quis chorar. Sentiu o tigre rugindo mais forte do que o centro de controle. E era hora de partir. O universo como uma membrana, um corpo indecifrável, uma aventura projetando absorção. Projetando já a próxima morte, um silêncio profundo, um negrume separado do burburinho oculto que grita a sua civilização.
O tigre continua em sua natureza, estranho à nave sob sua luz grita indecifravelmente, e o astronauta, mesmo protegido pela couraça da nave, sente o frêmito do ataque. Como está próximo da floresta... Ao mesmo tempo, dentro da nave, ao mesmo tempo, longe da civilização com sua tecnologia contingente em suas mão trêmulas como antes o médico o recebeu para a vida.
Aonde estaria o olhar deste astronauta, no tigre? Nas alavancas de partida, no redemoinho das galáxias, aonde se entregar? Desceria ele da astronave? Ficaria ele na astronave, e o tigre lá fora com força a rugir?! E tudo girou na cabeça do astronauta: os assassinos da espécie, o privilégio de seu vôo, a loucura dos povos, a natureza do tigre, as torturas terrestres, as solidões dos omissos... Onde estava o astronauta?
O centro de controle solicitou sua partida. O retinir do aviso soava pela astronave. E tudo girava na dimensão de sua natureza... E o tigre lá fora, a rugir, a rugir... Num ímpeto desconhecido. E o desconhecido também lá em cima, nas galáxias, também dentro da nave, dentro das máquinas, dentro do próprio coração da civilização. E, tresloucado, o astronauta caiu sobre as alavancas, com tudo girando sobre sua face, sobre as águas de seus olhos. E a nave partiu e o astronauta partiu solitário e desesperado para as longínquas estrelas...
Fernando Medeiros. Poeta e escritor, de Campinas/SP. Possui inúmeros escritos, alguns já editados, outros a serem editados no Recanto das Letras e nos blogs Imprimis e Arquivinhos. É integrante do Grupo Educaflore pela "Associação Florescendo a Vida de Familiares, usuários e Amigos dos Serviços de Saúde Mental de Campinas", que reúne as instituições: Ong; CAPS - Centro de Atenção Psico-social, em Campinas; Conselho Regional de Psicologia de São Paulo; Tear das Artes, no Parque Universitário, em Campinas, SP.
Fernando Medeiros classificou-se entre os dez finalistas do "Quarto Concurso Arthur Bispo do Rosário", organizado pelo Conselho Regional de Psicologia e Secretaria de Educação de SP em dez/2006.
Site http: //www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros
Blogs http://imprimis.arteblog.com.br e http://arke.blog.terra.com.br
Nota de Madalena Barranco: estou emocionada pela beleza do rugido primevo da criação do Universo, que o Fernando Medeiros conseguiu imprimir ao seu conto. Sim, somos todos fantásticos viajantes das estrelas e até conseguirmos domar o "tigre" não podemos seguir viagem, mas podemos, sim, rugir ao melhor estilo de um conto fantástico.