

Imaginário - Textos
O namorado de alegria
Madalena
Barranco
"Longe dos olhos, longe do coração", ouvia-se o lamento do Refrão no coração de Alegria. Por isso, Alegria aproveitou o momento em que o ano de 2009 despontava, para ajudar seu namorado Refrão a livrar-se de todas as frases feitas de ano novo. Aquilo deveria pesar-lhe nas costas... Alegria consolou seu amado e disse-lhe que as palavras de esperança poderiam ser renovadas! Repetir o que todos diziam às vezes não era uma boa solução. Para animá-lo, Alegria escancarou a janela do apartamento número 2 do nono andar, ao alvorecer de mais um dia que lhe refletia nas graciosas pupilas seu ouro matinal, enquanto as nuvens ainda adormecidas saudavam as silhuetas dos prédios da cidade. Refrão perdeu-se no olhar de Alegria e dispôs-se a ouvi-la, quando ela lhe contou que enviuvara no ano passado e mesmo assim conseguira recuperar a força de viver. Ele ficou envergonhado, pois percebeu que ainda guardava uma coleção de mágoas mal resolvidas em seu ano passado, dentro de um saco pesado que trazia nas costas. Mas o ouro daquela manhã que a bela viúva Alegria lhe refletia no olhar e protegia com a sombra de suas longas pestanas, fez com que Refrão tomasse uma atitude: ele abriu o saco e libertou o ano passado pela janela, que deu uma cambalhota no ar e foi embora.
Refrão ficou mais leve e até perdeu a corcunda dupla que 2008 lhe conferia com a própria forma do número oito. Alegria achou que Refrão ficou mais parecido com o simpático número 9, com a cabeça no lugar certo. Apaixonada, ela abriu uma garrafa de ambrosia que os deuses lhe haviam legado para ocasiões especiais e ofereceu uma taça para Refrão. Ele gostou tanto que acabou embriagando-se nas palavras que laçavam suas letras, até que adormeceu perdidamente apaixonado. No entanto, aconteceu algo inusitado com sua Alegria:
- No alvorecer seguinte, Refrão acordou com a ressaca da tristeza perdida e percebeu que Alegria havia sumido... Tresloucado, percorreu o alvorecer guiado pelo ouro matinal até encontrá-la recostada em uma daquelas nuvens que saudavam as manhãs. Sentindo-se achada pelo seu Refrão, Alegria foi reconquistada e deixou de ser apenas mais uma sombra da aurora. Ela dissera-lhe que para tê-la novamente, ele teria que guardá-la no coração. Então, Refrão pediu-a em casamento. O problema, é que na hora de fazer o pedido o rapaz ficou sem palavras. Refrão possuía uma natureza fixa e repetitiva e por mais que a amasse não conseguia mudar sua personalidade somente para agradá-la... A dama aceitou Refrão do jeito que ele era, desde que ele também aceitasse um pouco de a sua Alegria. Afinal, 2009 somente poderia ser um ano bom se ambos aceitassem os fracassos e as vitórias do ano passado como experiências de vida.
A festa de casamento foi em um lindo alvorecer, onde o orvalho foi considerado garoa. O mais curioso, é que alguns convidados ainda repetiam o mesmo “refrão”: “Sol e chuva, casamento de viúva...” Já, outros, criavam algo diferente, assim como: “Que 2009 seja sustentado pelo olhar de uma cabeça erguida sobre alvoreceres de amor sem fim”.
Fada Margarida: e vocês ainda duvidam da influência das fadas em suas vidas?! O ouro solar existe e incide sobre a humanidade, porque na estrela Sol há campos de margaridas amarelas em forma de múltiplos corações...
Bruxauva: e eu não digo sempre que fadas deliram sobre a realidade? Para uma bruxa como eu com mais de mil anos, afirmo com todas as dúvidas que no Sol apenas existe fogo... O mesmo que cozinha meus sapos no caldeirão... Afinal, quem não vê flores, vê horrores grelhados. Hehehehe!
Vaninha: ah, mas é dessa forma que diferenciamos a luz da treva. E assim optamos por enfeitar nossas vidas com as margaridinhas amarelas ou com sopas de sapos apimentadas... Eca!! E é nesse ponto do cozimento, nem cru e nem torrado, que se abre a porta do meio do imenso templo da inclusão da humanidade.
Magalena: por isso eu adoro a Vaninha e a turma da fantasia. OBRIGADA A TODOS.
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Madalena Barranco, 42 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.