Imaginário - Colaboradores
(coordenado Por Madalena Barranco)
e Com a colaboração de autores convidados.

O segredo da realidade
Lunna Montez´zinny Guedes

Sempre ouvi dúzias de segredos sobre um menino de asas. Como? Um passarinho me contou.

Disse-me ele assim bem baixinho “ele tem asas e voa muito mais alto que os outros. Ele passa por cima dos prédios e vai de encontro ao horizonte. Ficava horas inteiras por lá e depois voltava. Eu soube que da última vez que foi, não quis mais voltar"… Então peguei o meu barco e me pus a remar, queria ir ao encontro do menino de asas. Achava que podia convencê-lo a voltar para casa, fiquei pensando em seus pais, tinha certeza que estavam preocupados e tristes. Precisava fazer alguma coisa... E lá fui - durante o caminho, mar adentro, rumo ao horizonte… Passei por duas lindas ilhas e nelas encontrei alguns segredos, disseram-me os pássaros que eram coisas deixadas pelo menino de asas, durante seu vôo.

O primeiro era um desenho de traços fortes, pensei que se tratava de um mestre das artes. Como desenhava bem e como eram reais aqueles traços. E um outro pássaro disse-me lá das alturas “é uma ilusão do menino de asas” e fiquei impressionado. O segundo era uma luneta de ouro que não mostrava as coisas do mundo como sei que são: o horizonte ficava tão próximo, era possível tocá-lo com as mãos. Como era estranho aquilo. De repente, percebi que muitos meninos voavam e eu tinha asas e como eram belas. Que lanterna mais estranha era aquela? Então uma borboleta amarela que surgiu do nada disse-me “vês como é a face da ilusão? Tão linda, tão sedutora… Conhece face tão encantadora como está?” E tendo dito, voou suavemente rumo ao horizonte e quando já estava bem longe, gritou com toda força que tinha em si para dizer-me: “siga-me, levar-te-ei ao encontro dele!” Ela também conhecia o tal menino de asas… Mas não consegui acompanhá-la, ela parecia ser tão rápida - o que para mim era espantoso, sempre achei as borboletas tão lentas.

Segui remando em meu barco - aos poucos fui percebendo que as águas mudavam de cor - fazendo-me lembrar das muitas lendas e mitos ouvidos na infância. Eu até pensava em habitar no mundo das águas em companhia de algum ser mágico quando eu crescesse… A lembrança me fez rir, mas foi então que saltou para dentro do meu barco uma sereia. Não como as das histórias contadas por aí milhares de vezes. Aquela era muito mais bela… Tinha cabelos longos que se moviam como meu barco. Não tinha rabo de peixe como na lenda que ouvi… Ela tinha pernas e braços, estava nua, mas era como se portasse o mais belo dos mantos. Era tão perfumada. Meus olhos estavam incrédulos. Ainda escorria água do mar pelo seu belo corpo de mulher e como cantava bem. Sua voz era tão doce e suave… Minha pele ficou arrepiada. Por um instante foi como se tudo tivesse parado. O mundo todo. Seu olhar era mágico e antes de voltar para o mar, num mergulho lento e gostoso - deu-me um pergaminho. Quando o toquei, senti como se tivesse ido com ela até o seu santuário, o mundo das águas e eu fiquei lá, boquiaberto. Eu conseguia respirar em baixo d’água. Por um instante havia navegado por outros mundos e conhecido outras formas de vidas, outros universos… Mas voltei a mim num piscar de olhos, balancei a cabeça de um lado para o outro, como se tentasse despertar de um sonho e pensei que tudo aquilo era efeito do sol forte. Estaria eu tendo delírios?

O pergaminho em minhas mãos parecia bem real e de fato era. Mas naquela altura, eu já não sabia mais o que era ou não real. No tal pergaminho havia letras de antigas cantigas, coisas do tempo da infância “tchibum tchibum - lalalalalala - peixe quer mar, ave no céu. Eu quero amar o amor que existe em mim, por isso eu canto e gosto dele assim - assim, assim…” Era possível eu estar ouvindo dúzias de peixinhos cantarolando essa canção? Claro que não, estava decidido, era o efeito do sol que causava tais delírios em mim. Nada daquilo era possível e onde estava eu com a cabeça quando decidi ir atrás de um menino de asas? Só mesmo crianças acreditam em tais ilusões… E eu estava crescendo!

E ao pensar assim, percebi que não havia mais barco, nem remo, nem mar ou qualquer outro tipo de ilusão… Apenas a paisagem ao longe, vista de minha janela. O mar em foco seguia seus movimentos habituais e eu abandonei a luneta sobre a cama. Olhei uma última vez pela janela e lá vi o horizonte que se mostrava impossível de ser alcançado… E os pássaros apenas cantarolavam na árvore ao lado da janela como faziam há anos… Mas de repente, precisei esfregar fortemente os meus olhos para ter certeza do que via. Bem ao longe… Um pássaro se parecia com um menino… E ele pareceu-me tão triste. Incomodado, fechei rapidamente a janela e ao fazer isso tive a forte sensação de que eu não mais o veria e fui espiar a minha realidade. Mas que espécie de palavra era aquela? Realidade…

Lunna Montez´zinny Guedes: “Tenho a idade do vento”

Para alguns a idade cronológica é uma “etiqueta do número errado”, uma falha do sistema. Esta sensação nos acomete ao conhecer esta italiana de alma paulistana. Lunna não pode ser citada apenas como poeta, jornalista e psicóloga (carreiras já aposentadas) ou a escritora nascida em Gênova em 1978.

É verdadeiramente uma cidadã do mundo, com olhos muito abertos e ouvidos ligadíssimos em tudo, pronta a discursar sobre praticamente qualquer tema que vier à tona. Conviver com ela é um desafio para poucos e talvez isso explique suas freqüentes reclusões voluntárias, seus hábitos notívagos e sua produção invejável. Parte desta produção é inevitavelmente ligada à cidade que a acolheu em 1994 e ao poeta - Mario de Andrade - que lhe apresentou a cidade em seus versos, muito antes que Lunna pensasse em escrever os seus próprios versos sobre São Paulo. “Eu andava pelas ruas da cidade procurando identificar os versos do Mário de Andrade“, conta. Após dois meses aqui, escreveu “Metrópole in Versus”, reunindo poemas como num rascunho, segundo ela “uma forma de guardar as impressões sobre a cidade”. Em 2002 “Metrópole in Versus” se concretizou numa exposição em Gênova (que esteve também em Lisboa, Coimbra e Marselha). À época a repercussão positiva e o prêmio - Prêmio Literário Giuseppe Acerbi (...) Leia mais em http://lunnaguedes.wordpress.com/lunna

Publica em seu blog Acqua: http://acqua.wordpress.com

Publica e edita em seu blog Coletânea Artesanal: http://coletaneartesanal.wordpress.com

Nota de Madalena Barranco: a autora escreveu esse conto infantil (que é belo para todas as idades) para um menino de asas. Lunna surgiu em minha vida escrita através do site Leia Livro, onde um dia eu me interessei por um poema de sua autoria, que me chamou a atenção pela riqueza emotiva e ao mesmo tempo despojada e deixei-lhe um comentário. Já se passou muito mais de um ano e Lunna continua me encantando com seus poemas singulares e tão plurais ao mesmo tempo. Certa vez ela e um grupo de escritores e poetas resolveram falar da arte de forma singular e plural, e foi aí que eu consegui algo parecido a classificar a arte de minha caríssima amiga, algo que é tarefa difícil, porque seu estilo pessoal é como o vento úmido que vem do oceano: cresce e toma várias direções sem perder-se das raízes de uma árvore, que até poderia ser uma jabuticabeira, porque dá frutos pelo tronco, enquanto o ar verseja com suas folhas. Sua especialidade é cativar o leitor com sua prosa romântica e instigante, com sua poesia de secreta alma, entre outros escritos maravilhosos onde os quatro elementos da natureza marcam presença ora através do cheiro de terra molhada, ora pela chuva que escorre pela janela. E desde sua “janela” virtual, Lunna também se dedica a publicar muitos outros escritores e poetas.


Fale Comigo

voltar